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Geopolítica

A Arábia Saudita, seus desafios e impactos no mundo

Marcelo Rech

Em janeiro, o mundo entra em alerta com a morte do rei saudita Abdullah e a ascensão ao trono do seu meio-irmão Salman ibn Abdulaziz al Saud, de 79 anos, considerado um reformador prudente com larga experiência política. Em jogo, o papel de um país que é chave na luta contra o yihadismo do cada vez mais forte Estado Islâmico.

Salman, que já foi ministro da Defesa da Arábia Saudita, foi nomeado herdeiro em 2012 e é governador da Província de Riad há 50 anos. Sua primeira decisão – manter Ali al-Naimi como ministro do Petróleo – tem sido vista pelo mundo inteiro como uma mensagem de que o país não reduzirá os níveis de produção como defendem vários dos membros da OPEP, como a Venezuela.

Com tantos problemas e conflitos ocupando a agenda internacional, os episódios ocorridos na Arábia Saudita acabaram passando quase despercebidos. No entanto, o país influencia tanto na Península Arábica como no restante do mundo.

Alguns dos principais “orientalistas” europeus imaginam que a Arábia Saudita poderá entrar numa espiral de problemas com revoltas populares no que já se denomina “revolução de areia” por conta dos problemas internos e do crescimento de partidários do extremismo islâmico.

A Arábia Saudita é conhecida como o “reino da repressão”, onde é aplicada a pena de morte, detenções extrajudiciais, a tortura de presos; onde é flagrante a inexistência de partidos políticos, sociedade civil, meios de comunicação ou liberdade de expressão e de reunião; onde são contumazes as violações dos direitos humanos e dos direitos dos trabalhadores estrangeiros e das minorias religiosas.

É cada vez maior a insatisfação interna com o sistema político saudita que sustenta o regime monárquico. E no plano externo, o país terá pela frente alguns desafios extremamente difíceis.

Por exemplo, a revolução xiita combinada com pelo menos um movimento separatista que já é latente na província oriental onde está concentrada a riqueza petrolífera. Além disso, a rivalidade iraniano-saudita que nos últimos quatro anos adquiriu um caráter de “guerra fria”. Também os conflitos em marcha no Líbano, Bahrein, Iraque e Síria, já convulsionam a região e cobram a adoção de medidas e posições dos principais atores locais.

A Arábia Saudita enxerga na influência iraniana no Iraque e na Síria, uma ameaça concreta aos seus interesses nacionais. Os acontecimentos recentes no Iêmen também teriam as digitais iranianas, segundo Riad. Além disso, se a influência da Al Qaeda seguir aumentando no Iêmen, isso também irá ameaçar a Arábia Saudita.

Outro importante desafio diz respeito ao fortalecimento do Estado Islâmico na Península Arábica. O Estado Islâmico é regido por uma ideologia extremista e radical do wahabismo. Nos últimos anos, a organização tomou instalações de produção de petróleo no Golfo com o firme propósito de desestabilizar o mercado mundial do produto e com isso, financiar atividades terroristas no plano internacional.

E na Arábia Saudita são facilmente identificadas pessoas que pregam o radicalismo e espalham a ideologia da organização.

Por outro lado, se a OTAN decidir atacar os terroristas iemenitas, teremos um caos completo a espalhar-se por todo o norte da Arábia Saudita.

O declínio dos preços mundiais do petróleo é outro fator que desafia, neste caso, não apenas aquele país, mas o mundo inteiro. Há várias teorias sobre o que tem pressionado os preços do petróleo para baixo.

Não são poucos os que imaginam que os próprios sauditas estejam por trás desta manobra como forma de punir a Rússia, por exemplo, pelo apoio que Moscou tem dado ao regime sírio de Bashar al-Assad.

 Há aqueles que enxergam aí uma forma de destruir empresas norte-americanas envolvidas na extração do óleo de xisto. Também as empresas norte-americanas de petróleo enfrentam seríssimas dificuldades por conta da queda nos preços e responsabilizam o governo Obama pelas respostas incipientes à política dos “terroristas do petróleo da Arábia Saudita”.

De acordo com a Baker Hughes, uma das maiores petrolíferas do planeta, as economias dos estados do Texas, Dakota do Norte, Oklahoma e Louisiana estão sofrendo aumentos significativos nos números do desemprego. As indústrias da mineração e químicos também têm sido fortemente afetadas pela crise.

E o quarto desafio diz respeito a substancial erosão por que passam as relações saudito-americanas. Desde 1945 não se viam diferenças tão grandes entre os dois países. Em especial, Riad não gosta nem um pouco da política externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio. E o clima azedou de vez quando Obama fez reverências ao Irã.

A Casa Branca sabe que a Arábia Saudita é importante, mas considera o poderio militar iraniano contra o Estado Islâmico, fundamental, tanto que Obama continua perseguindo um acordo que envolva o Irã diretamente numa guerra contra os extremistas. Esse flerte de Washington com Teerã não foi digerido pela Arábia Saudita.

No entanto, os baixos preços do petróleo também afetam a Arábia Saudita com impacto direito na política interna do país. Por essa razão, o retorno dos preços internacionais para um patamar entre US$ 100 e US$ 110 não é descartado para um futuro próximo.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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