Brasília, 18 de novembro de 2018 - 13h33

A “Ascensão dos demais”. Os BRIC

10 de julho de 2009
por: InfoRel
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Alexandre Reis Rodrigues

Fareed Zakaria chamou-lhe a “Ascensão dos demais” para frisar que a grande transformação que está a ter lugar no mundo não resulta do declà­nio dos EUA mas da ascensão de todos os outros paà­ses, um pouco por todo o globo, especialmente na àsia (em o “Mundo Pós-Americano”).

Entre todos esses outros, destacam-se os que o economista-chefe do banco de investimento Goldman Sachs designou colectivamente por BRIC (Brasil, Rússia, àndia e China).

Em 2001, quando esta designação foi inventada, esses quatro paà­ses já representavam 7% do PIB mundial; hoje, apenas oito anos depois, essa percentagem duplicou. Segundo o International Business Report 2007, em 2050 as suas economias corresponderão a 44% da economia mundial.

O assunto tem o maior interesse internacional porque, entre outras razões, o grupo inclui os dois paà­ses mais populosos do mundo (China e àndia), os dois com território mais extenso (Rússia e China), os dois com maiores forças armadas (China e Rússia; àndia é o quarto) e o 2º com maior PIB (China; Brasil, àndia e Rússia ocupam as 10º, 12ª e 13ª posições).

Estando o mundo já a viver uma nova ordem económica mundial, com a deslocação da riqueza do Ocidente para o Oriente, põe-se a questão de se saber que nova ordem polà­tica virá atrás da alteração do panorama económico, para que estes quatro paà­ses estão a dar um contributo muito importante.

Para o National Intelligence Council dos EUA (Global Trends 2025, a Transformed World) «o mundo estará irreconhecà­vel dentro de duas décadas», devido à s novas potências emergentes, à  globalização da economia e ainda à  crescente influência dos actores não estatais. Resta saber - e isso será talvez o aspecto mais importante - se da nova situação resultará ou não uma maior instabilidade.

Este assunto vem a propósito da recente cimeira dos quatro chefes de estado dos quatro paà­ses BRICs em Yekaterinburg, Rússia, e o compromisso que então assumiram com a sua continuidade, tendo ficado assente uma segunda cimeira a realizar no Brasil, em 2010. Estaremos perante a criação de um novo bloco que vai procurar influenciar os acontecimentos no mundo, a partir da sua poderosa base económica?

Este tipo de cimeira visa geralmente fomentar a coesão entre os participantes, procurando pontos de interesse comum, mas não parece que, neste caso particular, possa daà­ resultar qualquer acção concertada dada a divergência de situações e posturas, quer em polà­tica interna, quer em polà­tica externa.

De facto, tirando o aspecto comum do grande crescimento económico (mal grado, a incapacidade mostrada pela Rússia em reagir à  actual crise), só mais um aspecto parece susceptà­vel de contribuir para uma coesão crescente entre os quatro, condição indispensável para que exista um bloco: o seu interesse em reunirem esforços para passarem a ter um papel mais interveniente nas organizações internacionais ligadas à  economia e comércio, particularmente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Inevitavelmente, como é habitual, o seu crescimento económico arrastará o desejo de um maior protagonismo e afirmação internacional, embora em graus e com finalidades diferentes.

Os investimentos que estão a fazer na área da Defesa já transcendem o nà­vel e âmbito de um simples esforço de acompanhamento do processo de modernização embora não configurem um cenário de corrida aos armamentos; em qualquer caso, a tónica posta nos respectivos dispositivos navais é um sinal inequà­voco de vontade de projecção da sua imagem e influência para além das suas fronteiras.

Há que acompanhar atentamente este assunto, mais cuidadosamente no que se passa na àsia, onde o relacionamento entre a China e a àndia oscila entre a cooperação e a competição, seguindo cada um modelos polà­ticos de desenvolvimento muito diferentes e encarando também de forma diferenciada a sua adesão e integração no mercado global.

Ambos têm pretensões de liderança regional, aspecto em que o Japão não deixará de se envolver, e estão ambos muito dependentes de recursos energéticos cujo fluxo têm que garantir sem descontinuidade para garantir o seu crescimento económico.

A procura que ambos fazem para a obtenção de pontos de apoio naval no exterior apenas confirma essas preocupações.

Os dois têm também gravà­ssimos problemas internos, designadamente, desigualdades sociais que se têm acentuado com o crescimento económico, mal grado a paralela diminuição geral da pobreza. A China tem ainda complexos conflitos internos de natureza étnica, nomeadamente nas provà­ncias autónomas do Tibete e de Xinjiang, estando nesta última a protagonizarem-se, presentemente, os mais graves incidentes desde Tiannamen.

A Rússia tem uma situação diferente mas nem por isso isenta de alguns motivos de preocupação para os europeus e americanos. Agora que deixou de olhar para o Ocidente como a salvação da sua economia vai fazer depender o seu relacionamento com os EUA e com a Europa da forma como estes responderem à s suas preocupações de segurança.

Vai provavelmente tentar recuperar o que cedeu em termos geopolà­ticos para melhorar a relação económica e vai procurar readquirir influências perdidas fazendo uso polà­tico do enorme potencial da sua arma energética.

Não obstante a falta de entendimento interno em que ainda vive sobre a questão da configuração que afinal deverão ter as suas forças armadas, está a acelerar a sua modernização e a insistir no caminho já reiniciado de voltar a ter uma presença no mar, como é disso prova a deslocação simbólica de uma pequena força naval à  América do Sul e a recuperação do ponto de apoio naval que tinha na Sà­ria, durante Guerra Fria.

No campo da segurança, continua a defender uma nova arquitectura de defesa para a Europa, alegando que a actual não é mais do que uma relà­quia da Guerra Fria; pretende, em resumo, a extinção da NATO cujo alargamento para Leste avalia como uma ameaça à  sua segurança.

O Brasil, tem como os outros graves problemas de desigualdades sociais que demorarão algum tempo a resolver, não obstante os progressos feitos no passado recente.

Ocupa a 62ª posição mundial em PIB per capita, ou seja o 2º lugar entre os quatro BRIC (Rússia tem a 55º posição, a China a 90ª e a àndia a 110ª); mas, nos restantes parâmetros normalmente usados para definir a hierarquia das potências, ocupa posições de topo da tabela (5º lugar em população e território, 10º em PIB e 18º em dimensão militar).

Com todas as condições de assumir o papel de là­der regional, o Brasil tem a vantagem de não enfrentar qualquer tipo de conflito regional; aliás é mediador de alguns conflitos locais que ameaçam a estabilidade e responsabiliza-se, há cinco anos, pela missão das Nações Unidas no Haiti.

É também um grande impulsionador da UNASUR (União das Nações Sul Americanas) que em vários aspectos parece inspirar-se na União Europeia. Entre os quatro BRIC é, claramente, o mais activo em termos diplomáticos e talvez um dos que tem uma das melhores equipas para levar a cabo um esforço de afirmação internacional.

O recente artigo do Presidente Lula em co-autoria com o Presidente Sarkozi publicado no International Herald Tribune de 7 Julho, (Alliance for change) esclarece bem que as ambições externas do Brasil tem uma componente polà­tica que envolve a sua vontade de contribuir para uma reforma global do sistema de governação do mundo, abrangendo para além da economia, a energia e o ambiente.

Obviamente, a conquista de um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas continua a ser um objectivo estratégico, aliás como a àndia, mas esta tem a objecção do Japão e da China.

O vice-almirante Reis Rodrigues, na situação de Reforma, presentemente a desempenhar o cargo de secretário-geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Como oficial subalterno, serviu na Guiné-Bissau no Destacamento nº7 de Fuzileiros Especiais.Os perà­odos de mar incluà­ram o comando no patrulha Cunene em Angola, a chefia do estado-maior e o comando de um Grupo Naval, o comando da fragata Roberto Ivens, num perà­odo de atribuição à  Força Naval Permanente do Atlântico, da qual foi seguidamente chefe do respectivo estado-maior internacional e comandante. Cargos em terra incluà­ram quatro anos na chefia da Divisão de Operações do Estado-Maior do então Comando Naval do Continente e cinco anos no Estado-Maior da Armada, primeiro na chefia da Divisão de Operações e depois na chefia da Divisão de Planeamento. Em terra, como oficial-general, foi Superintendente dos Serviços de Material da Armada, Comandante Naval, Comandante do Quartel-General da NATO em Oeiras e comandante da EUROMARFOR, uma força naval incluindo navios da França, Itália, Espanha e Portugal. Concluiu a sua carreira na Marinha como Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada, após o que foi vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da Sociedade de Geografia de Lisboa, entre 2003 e 2007, e vice presidente da Atlantic Treaty Association, entre 2003 e 2006. Tem escrito sobre assuntos de defesa em jornais e revistas, proferido conferências e publicou os livros Nos Meandros da Polà­tica de Defesa(2002), Defesa e Relações Internacionais (2004) e Junho de 1998 - Bissau em Chamas (co-autor) (2007). É membro do Conselho Consultivo da Revista RI - Reações Internacionais; do Conselho Editorial da Revista Segurança e Defesa e membro do Conselho Geral do IEEI.

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