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A aventura norte-coreana da Casa Branca

Marcelo Rech

Há uma tradição grega conhecida como “Trégua Olímpica”, que vem dos primeiros jogos e implica na cessação de todas as hostilidades entre os países participantes das competições. Em 1992, o Comitê Olímpico Internacional (COI) reavivou essa tradição e um ano depois, a própria Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) também apelou à observância da “trégua”. Desde então, o COI envida esforços para fazer das Olimpíadas um símbolo internacional do humanismo e da luta pela paz.

Hoje, quando jornalistas, especialistas e formadores de opinião em geral, discutem seriamente as tensões na Península Coreana, a “Trégua Olímpica” se torna ainda mais relevante. Em 13 de novembro de 2017, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução convocando todos os países participantes dos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realiza na Coreia do Sul, “para promover a segurança durante os Jogos”.

Por outro lado, representantes das principais potências afirmam que não há alternativa diplomática para solucionar a crise na região, embora descartem a via militar como medida a ser implementada. No entanto, os Estados Unidos têm outra visão.

Tradicionalmente, Washington ignora as iniciativas de paz adotadas no âmbito do sistema multilateral. Há alguns anos, os Estados Unidos não escondem sua indiferença em relação ao papel das Nações Unidas e demais mecanismos internacionais.

De acordo com o senador republicano Lindsey Graham, “não me incomoda quando as Nações Unidas expressam insatisfação com a política externa dos Estados Unidos”. Ele afirmou ainda que o país irá rever neste ano, a sua política de financiamento da ONU, porque não querem “dar dinheiro dos contribuintes a uma entidade ineficaz, fraca e cada vez mais antissemita”.

Há uma percepção de que os Estados Unidos esperam obediência inquestionável por parte dos organismos internacionais ao mesmo tempo em que não toleram críticas em relação à sua política externa. Neste contexto, decisões tomadas em Washington contribuem apenas para o aumento da escalada de tensões na Península Coreana.

Recentemente, o Pentágono ampliou o alcance dos exercícios militares realizados no Sudeste Asiático onde também aumentou o contingente de tropas. Em dezembro passado, o Vigilant Act tornou-se o maior exercício militar da história realizado entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Um ataque à infraestrutura norte-coreana teria sido o principal objetivo das manobras.

Além disso, as declarações do presidente Donald Trump de destruir fisicamente o regime de Kim Jong-un e realizar a “desnuclearização forçada” daquele país, põem mais lenha na fogueira. Some-se as afirmações da representante permanente dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, de que a Coreia do Norte “será destruída” se continuar a desenvolver o programa de mísseis nucleares.

Portanto, fica claro que a “Trégua Olímpica” é algo que não está no radar norte-americano. Os Estados Unidos buscam fortalecer a sua posição na Ásia-Pacífico, aumentar a cooperação técnico-militar com o comércio de armas, e o enfraquecimento da influência chinesa na região. Para a Casa Branca, não importa se suas ações coloquem o mundo à beira de uma guerra.

Marcelo Rech é jornalista, diretor do InfoRel, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência e o Impacto dos Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.

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