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A balela dos alimentos

A balela dos alimentos

Bruno Peron Loureiro

Para espectadores que não estão cientes da realidade do Brasil e da maneira apocalíptica como o país tem-se inserido no mundo como promotor da energia limpa, o presidente Luiz Inácio da Silva apregoou que os biocombustíveis não afetam a segurança alimentar com o argumento de que a cana-de-açúcar ocupa apenas 1% das terras agricultáveis brasileiras.

O problema de Lula é que ele quer abraçar o mundo antes de resolver o problema nacional.

Essa porção de terras agricultáveis provavelmente já era maior quando Lula terminou o discurso, em setembro, na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas; ao menos, os fazendeiros já cogitavam aumentá-la pelos atrativos da era da energia renovável.

Se o negócio der dinheiro, o empresariado rural adere.

E não é que está dando certo: com a exportação do etanol, o setor do agronegócio vai bem enquanto o povo não sabe quanto se embriagar com a instabilidade dos preços do álcool nas bombas de combustível.

A revista inglesa “The Economist”, de olho nas tendências, publicou um artigo na edição de oito de dezembro a respeito do “fim da comida barata”. Entre os produtos mencionados, constam arroz, feijão, trigo e milho.

O aumento no preço do milho (e das essenciais tortilhas) no México gerou uma crise com a população manifestando-se nas ruas, enquanto o feijão mais caro no Brasil não tem impedido os aplausos a favor da expansão da cana-de-açúcar.

O etanol tem parte da culpa pelo aumento dos preços de produtos advindos de outras colheitas, sobretudo pela demanda crescente por etanol em carros no continente americano.

A lógica é de que, quando o preço de um produto agrícola estoura, os fazendeiros plantam-no para obter vantagem, mas se apropriam das terras que tinham outros usos.

Portanto, a alta demanda por um produto agrícola específico, como tem sido a cana-de-açúcar e o milho, afeta a segurança alimentar.

Logo, a preocupação surge no momento oportuno em que o aumento da renda na China e na Índia fizeram sua enorme população consumir mais carne e outros alimentos.

Ao mesmo tempo, nós brasileiros estamos abastecendo os carros de países desenvolvidos com o que se produz de renovável nas nossas terras agricultáveis, enquanto ouvimos mais uma balela de nossos representantes, que não se importam que o arroz e o feijão fiquem mais caros na mesa do povo.

Algumas soluções seriam proibir as exportações brasileiras de etanol, já que Lula enfatiza a transferência de tecnologia da produção desta fonte renovável de energia em vez de fazer do Brasil o celeiro da cana-de-açúcar; ou atribuir um teto no preço do álcool comercializado dentro do país e aumentar as reservas internas.

Defendo a pesquisa e o investimento em biocombustíveis, mas desde que seja com benefício para o povo brasileiro e não apenas para um grupo econômico seleto.

Bruno Peron Loureiro é bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista)

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