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A Cimeira EUA/Rússia

22 de julho de 2009
por: InfoRel
Alexandre Reis Rodrigues

O Irão “pode respirar fundo” por pelo menos mais dois meses; até Setembro, por ocasião da visita de Hilary Clinton a Moscovo para o combinado encontro para avaliação conjunta da ameaça de mà­sseis balà­sticos e subsequente discussão sobre a componente europeia do escudo antimà­ssil americano.

Se houver acordo sobre este tema, então talvez os EUA consigam alguma da ajuda de que necessitam da Rússia para resolver a questão iraniana.

No entanto, não obstante a coincidências de interesses, americanos e russos, sobre o Irão, os EUA não terão “toda a ajuda” que precisariam; a Rússia não vai “gastar” todos os trunfos que o seu relacionamento especial com Teerão lhe proporciona para controlar a presença e influência americana na área e obter as concessões que pretende em outras áreas.

Contrariamente ao desejo russo de ver este último assunto tratado na cimeira de 7 e 8 de Julho, tendo Medvedev chegado a afirmar que qualquer entendimento sobre um novo Tratado START estaria sempre dependente de um acordo sobre o escudo antimà­ssil, o Presidente Obama conseguiu fazer avançar a redução dos respectivos arsenais nucleares para outro patamar, sem se comprometer em qualquer das áreas onde a Rússia procurava cedências.

Nesta perspectiva, Obama ultrapassou bem o teste de liderança do primeiro encontro, defraudando as esperanças russas de que a história se repetiria com o que aconteceu na primeira cimeira entre Kennedy e Khruschev, na qual o Presidente americano, mal preparado, saiu com a imagem de um là­der fraco.

Atribui-se a esta circunstância, o encorajamento que Khruschev terá sentido seguidamente para avançar com o projecto de instalação de mà­sseis em Cuba.

Obama precisava de dar um passo importante na questão nuclear, para juntar credibilidade ao compromisso assumido de trabalhar para um mundo sem armas nucleares e, em especial, ganhar autoridade na liderança da campanha de desencorajamento do aparecimento de novas potências nucleares e de reforço das medidas de combate à  proliferação.

Conseguiu acordo para um tecto que se situará entre as 1500 e as 1675 ogivas (e 700 veà­culos de lançamento, mà­sseis, submarinos e bombardeiros), ou seja cerca de 1/3 menos no tecto definido em 2002, no Strategic Offensive Reduction Treaty (SORT) de 2002, também conhecido por Tratado de Moscovo mas que não incluà­a medidas de verificação (previa um máximo de 2200 ogivas). Obviamente, a redução é importante mas em nada altera a situação existente, em termos estratégicos.

A Rússia talvez seja o principal ganhador do acordo feito; com dificuldades financeiras para manter a paridade nuclear com os EUA, agora, com um arsenal menor, pode investir na sua modernização e manter o estatuto de grande potência nuclear.

Na realidade, Moscovo estaria disponà­vel para baixar o tecto mà­nimo para as 1000 ogivas. Porém, segundo Steven Pifer, do Brookings Institute, esse número obrigaria os EUA a encarar, paralelamente, a questão da defesa antimà­ssil o que poderia inviabilizar o acordo.

Por outro lado, os EUA têm sob revisão a Nuclear Posture Review que estabelecerá a estratégia nuclear para os próximos cinco/dez anos; a Casa Branca não iria assumir compromissos mais drásticos antes de este processo estar concluà­do (final do ano) e, sobretudo, sabendo que o Congresso não permitirá muito maiores concessões.

Ninguém espera, porém, que esta nova situação possa ter qualquer impacto de contenção sobre os paà­ses que aspiram a ter um arsenal nuclear, muito menos sobre o Irão e os que se lhe seguirão se Teerão não for parado nas suas ambições nucleares.

Só serve, portanto, os interesses dos dois intervenientes e mais na lógica da Guerra Fria do que como passo concreto no caminho do desarmamento nuclear, a que, aliás, tanto a Rússia como os EUA estão obrigados no âmbito do TNP (Tratado de Não Proliferação).

Os dois assuntos com dimensão estratégica que esta cimeira não discutiu são o Irão e a Polónia; estão ambos ligados pela questão da defesa antimà­ssil mas não é este o ponto concreto que preocupa a Rússia, contrariamente ao que transparece para a opinião pública internacional.

O cerne da questão com que Moscovo se debate é não deixar consolidar a frente leste da NATO perdendo definitivamente a buffer zone de que beneficiava durante a Guerra Fria com a inclusão da Polónia e outros (os Bálticos, por exemplo) no Pacto de Varsóvia.

A prevista instalação de mà­sseis de intercepção na Polónia (e do radar na República Checa), no âmbito da defesa antimà­ssil, e os efectivos militares dos EUA que se instalarão no paà­s para garantir o funcionamento e protecção do sistema serão obviamente uma contrariedade para o objectivo russo de garantir o controlo da sua vizinhança próxima.

O Presidente Obama, neste contexto, enfrenta uma situação difà­cil. Por um lado, tem as indicações que deu durante a campanha eleitoral de que não permitiria que o projecto do escudo antimà­ssil avançasse sem primeiro obter confirmação de que é um “sistema provado” que merece ser continuado, situação que 20 reputados cientistas ainda recentemente não confirmaram; por outro lado, tem o pesado risco de que o seu eventual abandono ou adiamento seja visto como uma cedência perante as exigências da Rússia e/ou o abandono dos aliados que aceitaram a instalação do escudo, mal grado uma opinião pública interna contrária.

Estas circunstâncias não deixam antever que venha a ser tomada uma decisão clara num ou noutro sentido; por outras palavras, o programa não será cancelado mas deixará de ter a prioridade que teve nos mandatos de Bush, o que, aliás, já se reflectiu no actual orçamento da Defesa.

Michael McFaul, o principal conselheiro de Obama para as relações com a Rússia, desafia a que se aponte outra cimeira EUA/Rússia com resultados tão substantivos como os conseguidos nesta.

O acordo a permitir o sobrevoo do território russo para o apoio logà­stico das forças americanas no Afeganistão (até 12 voos por dia) é obviamente um ponto importante a destacar nesse âmbito; permite encurtar significativamente a distância a percorrer, gerando uma poupança anual estimada de 133 milhões de dólares.

Mas os outros pontos da agenda dificilmente permitem caracterizar o resultado nesses moldes. Incluo neste grupo os que se referiram acima e as renovações de iniciativas de anteriores administrações que não chegaram a concretizar-se: por exemplo, abertura de um centro conjunto de aviso antecipado de lançamento de mà­sseis, acordado em 1998, entre Clinton e Ieltsin, renovado em 2000 também por Clinton mas dessa vez com Putin e repetido em 2007 entre Bush e Putin; a destruição de 34 toneladas de plutónio em condições de ser utilizado para o fabrico de armas nucleares, uma iniciativa que vem da década de 90. Se desta vez, esses projectos forem para a frente, então talvez McFaul tenha razão.

O vice-almirante Reis Rodrigues, na situação de Reforma, presentemente a desempenhar o cargo de secretário-geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Como oficial subalterno, serviu na Guiné-Bissau no Destacamento nº7 de Fuzileiros Especiais.Os perà­odos de mar incluà­ram o comando no patrulha Cunene em Angola, a chefia do estado-maior e o comando de um Grupo Naval, o comando da fragata Roberto Ivens, num perà­odo de atribuição à  Força Naval Permanente do Atlântico, da qual foi seguidamente chefe do respectivo estado-maior internacional e comandante. Cargos em terra incluà­ram quatro anos na chefia da Divisão de Operações do Estado-Maior do então Comando Naval do Continente e cinco anos no Estado-Maior da Armada, primeiro na chefia da Divisão de Operações e depois na chefia da Divisão de Planeamento. Em terra, como oficial-general, foi Superintendente dos Serviços de Material da Armada, Comandante Naval, Comandante do Quartel-General da NATO em Oeiras e comandante da EUROMARFOR, uma força naval incluindo navios da França, Itália, Espanha e Portugal. Concluiu a sua carreira na Marinha como Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada, após o que foi vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da Sociedade de Geografia de Lisboa, entre 2003 e 2007, e vice presidente da Atlantic Treaty Association, entre 2003 e 2006. Tem escrito sobre assuntos de defesa em jornais e revistas, proferido conferências e publicou os livros Nos Meandros da Polà­tica de Defesa(2002), Defesa e Relações Internacionais (2004) e Junho de 1998 - Bissau em Chamas (co-autor) (2007). É membro do Conselho Consultivo da Revista RI - Reações Internacionais; do Conselho Editorial da Revista Segurança e Defesa e membro do Conselho Geral do IEEI.

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