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Política

A Colômbia diz Não à Paz e futuro incerto impactará na região

Marcelo Rech

Neste domingo, 2, os colombianos foram às urnas para referendar os acordos de paz firmados pelo governo com a guerrilha das FARC no último dia 26, em cerimônia que contou com a presença de 15 Chefes de Estados, mais uma dezena de representantes dos principais organismos internacionais multilaterais. O evento foi celebrado como o fim de um conflito de 52 anos que deixou mais de 200 mil mortos.

Mas, a vitória do Sim aos acordos de paz não veio e o futuro da Colômbia torna-se incerto. O presidente Juan Manuel Santos que jogou todas as suas fichas nos quatro anos de negociações em Havana, agora terá de renegociar os termos dos acordos ou convocar uma Assembleia Nacional Constituinte para não ver fracassados os esforços empreendidos.

Além disso, terá de esperar mais pelos prometidos investimentos estrangeiros em grandes obras de infraestrutura no país. Há também a promessa de financiamento internacional para o pós-conflito que inclui a reinserção de guerrilheiros à vida civil. Até mesmo a missão política aprovada por meio de resolução do Conselho de Segurança das Nações, para verificação do cumprimento dos termos do acordo, ficará em stand by.

Detalhe: as FARC já estavam em processo de entrega das armas que seriam destruidas justamente por essa missão política da ONU.

Os resultados motraram mais que uma Colômbia dividida. Mostraram que as feridas da guerra seguem expostas. Apesar do cansaço da população com as cinco décadas de conflito, parece claro que uma ligeira maioria dos colombianos não quer a paz a qualquer preço. Exigem que as FARC paguem por suas atrocidades que envolvem sequestros, extorsão, assassinatos, narcotráfico, terrorismo e o recrutamento forçado de menores, entre outros. Também querem saber onde andam os milhões de dólares acumulados pelos líderes da organização e depositados em contas no exterior.

Também não há confiança em que haja uma desmobilização total da guerrilha. Com os negócios envolvendo o tráfico de cocaína altamente rentável, vários mandos de frentes da guerrilha já anunciaram que não iriam aderir. Algumas dessas frentes estão radicadas muito próximas à fronteira com o Brasil, numa região onde o narcotraficante Fernandinho Beira Mar fazia negócios com Negro Acácio, líder da Frente 19, morto em 2007.

Ainda é cedo para conhecer os impactos do Não aos acordos de paz, mas é certo que o tempo urge. Ainda que os comandantes das FARC tenham assegurado que a busca pela paz não será interrompida, uma reviravolta não é descartada. Santos terá, se quiser renegociar os termos dos acordos, que convencer as FARC a voltar à mesa de diálogo agora com integrantes dos movimentos que pregaram o Não nas urnas. Não será uma tarefa simples.

O líder deste movimento é o ex-presidente e senador Álvaro Uribe cuja popularidade é muito maior que a do seu ex-aliado e ministro Juan Manuel Santos. Uribe não aceita que os membros das FARC sejam julgados em um tribunal especial cujas penas, de antemão, serão brandas o suficiente para serem aceitas. Também descarta vê-los eleitos pelo voto direto e ocupando assentos no Parlamento de onde ele hoje vocifera contra essas negociações.

Para Álvaro Uribe, os acordos de paz transformarão a Colômbia em um regime castrochavista. Ele soube vender essa ideia principalmente nas regiões interioranas do país, onde o Estado sempre esteve ausente e as FARC aterrorizaram por todo esse tempo.

Além disso, a rejeição dos colombianos aos acordos com as FARC também podem impactar negativamente nas negociações com a segunda maior guerrilha colombiana, o Exército de Libertação Nacional (ELN). Ao que tudo indica, a tão almejada paz não virá tão cedo.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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