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05/10/2005
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05/10/2005

Crise Política

A corrupção endogâmica e a barafunda luliana

Ucho Haddad

“Às vezes penso que o Brasil não existe. É um conto de Pedro Álvares de Cabral com prefácio de Pero Vaz de Caminha.”José Cândido de Carvalho

O presidente Luiz Inácio, valendo-se de sua conhecida verborragia, disse na sindicalista região do ABC que a reeleição não é sua paixão. Se o presidente não nutre qualquer apreço por um novo mandato, que dirá o brasileiro que foi levado por manobras “marqueteiras” a crer que a esperança venceria o medo.

Quando ainda estava em campanha, o candidato petista achava que em quatro anos seria possível mudar radicalmente a realidade brasileira, mas agora, blasfemando por onde passa, diz que é preciso calma, pois não é possível mudar de uma hora para outra os problemas conquistados durante mais de quinhentos anos.

Ou seja, Luiz Inácio Lula da Silva, o mais novo rascunho de Messias, mudou o foco de seus ataques, transferindo a artilharia que antes açoitava Fernando Henrique Cardoso para o lado de Pedro Álvares Cabral.

Não fosse a reeleição seu objetivo maior, o presidente não teria autorizado a sangria dos cofres públicos em R$ 1,5 bilhão para garantir a eleição de Aldo Rebelo à presidência da Câmara.

Colocar algum dos seus no comando da Casa legislativa foi muito além de uma vitória, mas a eliminação da possibilidade de rechear a estante petista com mais uma derrota acachapante. Tanto é assim, que a festa realizada na Granja do Torto, em seguida à vitória de Rebelo, foi a materialização da alegria de um grupo que sempre temeu pela própria incompetência.

Pelo menos na teoria, no Brasil, os Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – são independentes, sem que um interfira direta ou indiretamente no domínio do outro. Mas tal situação é mero devaneio teórico, pois o presidente Luiz Inácio e sua horda de seguidores hoje se valem dos artifícios que durante mais de duas décadas condenaram – a manipulação vergonhosa e escancarada do Legislativo e do Judiciário.

Quando a Câmara optou pela defenestração de Severino Cavalcanti, em razão do malfadado “mensalinho” pago pelo empresário Sebastião Buani, o Palácio do Planalto viu na manobra uma possibilidade de jogar a lama petista sob o tapete, não sem antes fazer do escândalo do ex-presidente da Câmara uma trincheira para se defender das quase infindas acusações de corrupção.

Com a chegada de Aldo Rebelo à mais importante cadeira da Câmara dos Deputados não significa que o Legislativo será diferente de agora em diante, pois sua vitória não foi tão expressiva quanto pretendia a verdadeira fortuna liberada pela horda palaciana.

Quando o Legislativo fala em trancamento de pauta, o Palácio do Planalto, genuflexo, ergue as mãos para o céu, pois o governo do presidente Luiz Inácio não tem um único programa de governo capaz de convencer um parlamentar fora de sua base de sustentação.

Não se trata de analisar o caos pela ótica oposicionista, pois ninguém que esteja na oposição pode ser insano a ponto de apostar na teoria do quanto pior, melhor.

Até porque, caso a oposição reconquiste o espaço político de outrora, não vai querer repetir o discurso irresponsável do presidente Luiz Inácio que continua jogando para seus antecessores a responsabilidade pela sua inoperância político-administrativa.

Sob o prisma do contraponto, é preciso reconhecer que se o governo petista de Luiz Inácio fosse competente o suficiente, parte do caixa 2 do Partido dos Trabalhadores não teria sido utilizado para conquistar votos de parlamentares que fazem do mandato uma espécie de balcão imundo de negócios, o qual, para desespero dos brasileiros, alarga a cada novo dia que surge, fazendo com que o eleitor se distancie cada vez mais da realidade política do parlamento.

Para salvaguardar uma imagem corroída e borrada pela corrupção, o governo do presidente Luiz Inácio preferiu afastar de seus quadros o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, mas tem apostado piamente na pantomima que patrocina na Câmara para salvar o mandato do deputado petista.

Não se trata de tirar da fogueira da ética os oito anos de direitos políticos que estão em vias de arder na brasa oposicionista, mas a cassação do ex-comissário palaciano, figura maior da ala “rouge” da política nacional, significaria o fim de uma mentira em forma de monumento que atende pelo nome de Partido dos Trabalhadores.

Principalmente porque a ala comandada por Dirceu deve, salvo inesperadas situações, levar a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores, mesmo que Ricardo Berzoini, o virtual vitorioso, diga o contrário.

A um ano das eleições de 2006, a alcatéia política retira do armário as mais variadas fantasias de ovelha para, às custas de uma encenação sórdida e mentirosa, garantir um novo mandado parlamentar. Aldo Rebelo, fantoche político do Palácio do Planalto, vai pagar caro por emprestar sua pífia e inocente destreza política a um governo que busca apenas salvar os seus da inquisição popular.

Afirmar que a destreza política do novo presidente da Câmara é duvidosa não pode ser considerada uma leviandade qualquer, pois o auge do desempenho de Aldo Rebelo dividiu espaço com o safardano “mensalão”, que falava alto nos escaninhos da política tupiniquim enquanto Rebelo se passava por líder do governo no parlamento.

Já na condição de ministro da Articulação Política do governo do PT, Rebelo conviveu com os tentáculos nocivos da mesada operacionalizada por Marcos Valério, sendo que qualquer alegação de desconhecimento do assunto o torna incapaz para ocupar o cargo que atualmente ocupa, principalmente porque comandar uma casa legislativa que tem contorno de serpentário não é tarefa para nenhum bobo da corte ou arlequim de ocasião.

Encarnando uma pomba da paz que não existe, Aldo Rebelo é a “fulanização” do pantopelágico que há muito sobrevoa o alto-mar de lama do PT palaciano, o qual, munido da desfaçatez necessária, alega que o governo do presidente Luiz Inácio não rouba, não deixa roubar e combate a corrupção.

Despreparado para ocupar a presidência da Câmara, o alagoano que se elegeu com os votos dos paulistas já caiu no esquecimento, sendo que suas incursões na mídia só acontecem por conta da necessidade que a imprensa tem de divulgar, com generosas doses de ilusionismo, os desdobramentos dos imbróglios que fazem de uma nação com dimensões continentais um paquiderme manco atolado na lama da corrupção oficial.

A tese de que o PT combate a corrupção funciona, quando o partido dos barbudinhos está no governo, como inócuo alvejante para as nódoas da bandalheira palaciana, ou, quando na oposição, atacar a situação de maneira tão irresponsável quanto a que está em voga nas CPI’s, abduzindo da opinião pública toda e qualquer possibilidade de pensamento e reflexão.

Tal modus operandi não é exclusividade de um ou outro partido, mas é a retórica repetitiva e enfadonha da política nacional, que faz com que incompetentes ousados sejam guindados ao status de autoridade, fazendo da urna uma espécie de trampolim da oportunidade.

Se substituir um macacão lambuzado de graxa por um terno bem cortado, com direito a uma faixa verde-amarela transversal, permitiu a Luiz Inácio Lula da Silva patrocinar a corrupção endogâmica, pois só os seus carecem de roubar para dar passagem ao bisonho projeto esquerdista de perpetuação no poder, é porque a população está sendo irresponsavelmente permissiva com a barafunda “luliana” que aí está.

Ucho Haddad, 46, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira [www.wanderleynogueira.com.br], do ABC Digital [www.digitalabc.com.br] e do Sanatório da Imprensa [www.sanatoriodaimprensa.com.br].

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