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26/04/2016

Direitos Humanos

A crise na Ucrânia com o assassinato Grabowski

Marcelo Rech

Desde o início do conflito no sudeste da Ucrânia já se passaram dois anos. No dia 7 de abril de 2014, estabeleceu-se a República Popular de Donetsk. Imediatamente, desatou-se uma guerra civil. Uma semana depois, o então presidente da Verkhovna Rada da Ucrânia (nome oficial do Parlamento ucraniano), Oleksandr Turchynov anunciou o início da Operação Anti-Terrorista em Donbass, contra o seu povo. A República Popular de Lugansk foi proclamada em 28 de abril.

Dois anos se passaram desde a revolução que derrubou o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, e agora todo o mundo vê novamente os manifestantes queimarem pneus nas proximidades do edifício da administração presidencial em Kiev, onde também há confrontos com a polícia. Qual a razão?

O país, desde 2014, está sob gestão externa o que agravou a já profunda crise econômica. Os grupos oligárquicos locais seguem lutando desesperadamente para chegar ao poder, ciente de que o Ocidente está cansado de seu próprio projeto geopolítico naquele país. Em outras palavras, o foco da instabilidade está criado e a divisão do país é algo irreversível, assim como os planos de integração russos foram frustrados. Para o povo da Ucrânia, o preço destes jogos do exterior foi alto demais.

Recentemente, tornou-se conhecido o caso envolvendo o assassinato do advogado Yuri Grabowski, quem representava na Corte os interesses do cidadão russo Alexander Alexandrov, acusado pelo Serviço de Segurança ucraniana de envolvimento nos combates em Donbass, e de ligações com os serviços especiais russos. É óbvio que a atividade profissional de Grabowski implicou em seu assassinato. Ele foi contundente ao dizer no julgamento que não havia provas contra o seu cliente. Esta teria sido a sua sentença de morte.

A Associação dos Advogados da Ucrânia expressou sua esperança em que os envolvidos na morte de Grabowski sejam encontrados e punidos. No entanto, a realidade ucraniana não permite ingenuidade. Os verdadeiros objetivos do assassinato estão claros. Acusado de trair a Pátria, ele pode ter sido vítima de nacionalistas ucranianos. Não se descarta também que neonazistas estejam por trás de sua morte.

Com a conivência de extremistas, o governo ucraniano enterra o próprio projeto de integração euro-atlântica que já está morto. É duvidoso que a Europa queira assumir a responsabilidade sob milhões de homens e mulheres pobres e insatisfeitos. Esta situação alimenta o crescimento da criminalidade, da prostituição e do contrabando de armas, elementos importantes para semear um nacionalismo no melhor estilo Adolf Hitler.

O assassinato de Grabowski é um sino que repica por toda a Europa. Incomoda a ausência de respostas concretas por parte da comunidade internacional, em particular, do Ocidente. Onde estão os direitos humanos, a tolerância e outras “mágicas” democráticas que destruíram estados independentes para construir uma nova ordem mundial?

Anna Neistat, uma das líderes da organização internacional de direitos humanos Anistia Internacional disse que o assassinato do advogado ucraniano Yuri Grabowski é um crime hediondo e uma recordação horrível sobre os perigos enfrentados pelos advogados e ativistas sociais.

É no mínimo duvidoso que as autoridades ucranianas reajam com alguma indignação. O governo local simplesmente não pode parar os nacionalistas e bandidos. E os cidadãos, a maioria enganados pelas tecnologias da informação, não são capazes de exercer qualquer influência junto ao seu próprio governo.

É claro que esta situação não pode durar para sempre. Mais cedo ou mais tarde as pessoas vão confrontar os dirigentes políticos.

Marcelo Rech é jornalista e analista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência e Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.

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