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Geopolítica

A crise ucraniana e os seus erros

Marcelo Rech

Há pouco mais de um ano, o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych caiu após intensos protestos em Kiev. Considerado aliado da Rússia, ele teria sido vítima de um golpe segundo as cerca de 35 mil pessoas que ocuparam as ruas de Moscou neste sábado, 21, culpando os Estados Unidos e a Europa de arquitetarem a queda do líder ucraniano.

A crise com a qual as principais potências não têm sabido lidar tem início em 2010 quando Yanukovich é eleito presidente num processo considerado transparente e justo por observadores internacionais.

Em 2013, ele decide abandonar as negociações em torno de um acordo com a União Europeia e fortalecer as relações com a Rússia. Neste momento, os protestos ganham as ruas do país com uma clara interferência externa.

Em dezembro daquele ano, o presidente russo Vladimir Putin decide oferecer um programa de apoio financeiro à Ucrânia, aceita comprar a dívida do país e a reduzir o preço do gás exportado em um terço.

No dia 22 de fevereiro de 2014, o presidente da Ucrânia desaparece. Um dia antes, ele havia firmado um acordo com a oposição para pôr fim à crise político-econômica no país.

Ainda em fevereiro o Parlamento aprova o banimento do idioma russo da Ucrânia e os protestos pró-Rússia crescem. Em 16 de março, a anexação da Crimeia pela Rússia é aprovada por 97% dos votos em referendo questionado no Ocidente.

De lá para cá, a crise tem oscilado, mas parece distante de um fim.

O caso da Crimeia é emblemático nisso tudo, pois o Ocidente que reconheceu o direito do Kosovo de independizar-se, agora crítica a decisão daqueles que não se reconhecem ucranianos e que vivem numa região onde o idioma e a cultura são russos.

Guardadas as devidas proporções, a Europa erra ao querem impor um mapa que não condiz com a realidade, tal como feito na África, retalhada e dividida sem que as características de cada povo, aldeia, vila, fossem considerados. Estão aí as guerras civis e as matanças que não nos desmentem.

O Ocidente erra também ao alimentar o conflito com armas letais. Neste caso, um ótimo exemplo está na Líbia onde até mesmo terroristas da Al Qaeda receberam armas e dinheiro para derrubar Muammar Kaddafi. A hipocrisia da conveniência em ação.

Ao abastecer o conflito com armas, as grandes potências obrigam a que a Rússia participe diretamente em um confronto armado no sudeste da Ucrânia. E, convenhamos, a participação da Rússia, potência nuclear, no conflito não parece ser algo racional. Em jogo está a segurança europeia e mundial.

E esta crítica encontra eco na mesma Europa aturdida. Países como Alemanha, Áustria, Eslováquia, Itália e França – esta com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU – se opõem à entrega de armas letais a Kiev, o que confirma a existência de contradições agudas em países da UE e da OTAN.

E são os meios de comunicação ocidentais os maiores críticos das ações de seus líderes, considerados fracos e hesitantes. Da mesma forma, a mídia europeia já se questiona acerca do papel dos meios de comunicação ucranianos que sob forte censura, colocam em dúvida a credibilidade das informações enviadas ao mundo sobre a realidade dos fatos.

Este conjunto de fatores fortalece o presidente russo Vladimir Putin. Os erros de avaliação tanto na Europa como nos Estados Unidos estão fazendo com que o líder russo se torne cada vez mais necessário na resolução do conflito.

E o Brasil com isso? Nada.

Apesar de contar com uma população de 500 mil descendentes de ucranianos, o Brasil tem passado completamente à margem do conflito. A prioridade tem sido os negócios uma vez que o país está quebrado e neste caso, a Rússia responde pela compra de uma quantidade cada vez maior de carne e entra de vez no setor de Defesa como importante fornecedor para o Exército. Simples assim.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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