Opinião

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25/06/2005
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27/06/2005

Defesa e Soberania

A crítica situação da Força Aérea Brasileira

Expedito Carlos Stephani Bastos

A Força Aérea Brasileira vive na atualidade a sua maior crise desde a sua criação em 1941, em plena segunda guerra mundial. Nascida da fusão das aviações do Exército e Marinha manteve-se numa vanguarda tecnológica até a década de 70.

A Aeronáutica chegou ao limite do sucateamento, estando praticamente inoperante, principalmente em relação a seus aviões de caça, o que compromete a nossa soberania, com a desativação dos aviões MIRAGE IIIE BR prevista para o dia 31 de dezembro do corrente ano.

Sem um substituto ainda definido, visto que o Programa FX foi oficialmente extinto, causando certa frustração não só nas empresas concorrentes, mas gerando descontentamento na própria força, privilégio também do Exército e da Marinha que estão na mesma situação de precariedade em termos de equipamentos e salários.

O curioso é que nos últimos dois anos e meio, a situação das forças armadas, principalmente a Força Aérea, tem piorado bastante, com a pouca visão estratégica por parte do governo, eleito como uma espécie de tábua da salvação, tanto da parte dos civis como dos militares.

Com um Ministério da Defesa, criado em 1999 que ainda não se encontrou, visto que todos os ministros que por lá passaram e em relação ao último que lá se encontra, não conseguiram definir como prioridade a importância do termo “Defesa” para o país.

A última LAAD e HELITECH 2005, realizada em abril último, demonstra muito bem toda a indefinição por parte do governo em relação a uma política de Defesa Nacional, tendo sido na prática a mais fraca de todas as edições, num total de cinco.

O descontentamento com o cancelamento e gastos realizados pelas empresas de quatro países envolvidos na disputa podia ser vista em visita a seus stands, muitos sem conseguir entender o porquê do cancelamento, visto que qualquer um dos cinco aviões que saísse vencedor seria um fator inovador e modernizador para a Força Aérea Brasileira do século XXI, superior a qualquer outro aqui existente.

Insistem em acreditar que uma produção local geraria empregos e desenvolveria tecnologia, mas devido às poucas unidades a serem adquiridas [uma dúzia] não há na prática vantagem alguma para levar adiante esta produção.

Outro fator complicador é o fato de que a maior fabricante local de aviões, a EMBRAER possui 20% de suas ações nas mãos de quatro empresas francesas, o que na prática inviabiliza parcerias com outros fabricantes, na área militar, já que o interesse desta minoria é que a escolha recaísse sobre o Mirage 2000, e caso, por exemplo, o vencedor fosse o Sukhoi 35 da Sukhoi/Avibrás seria mais complicado a participação da empresa brasileira, muito embora acreditassem que isto poderia ser contornado na prática.

Nossos políticos estão mais preocupados com as eleições de 2006 do que com a defesa da nação.

Foi também aprovada a compra de oito aviões P-3 Orion de patrulhamento marítimo, e doze CASA C-295 de transportes, sendo que os P-3 são usados e serão modernizados por empresas espanholas, muito embora pudessem ter incentivado a indústria nacional [Embraer] a desenvolver uma versão naval do EMB 145, mesmo que este não tenha o raio operacional daquele, mas seria aí sim um fator de geração de empregos e de desenvolvimento tecnológico até que se desenvolvesse uma outra versão para o futuro.

Agora caminham para uma solução alternativa que passa por aviões usados, oriundos da França [Mirage 2000] e Estados Unidos [F-16 ex-holandeses] que poderão brevemente vir a equipar a FAB na esperança de se conseguir mais tarde um avião mais moderno de nova geração como o Rafale, por exemplo, que se encaixa muito bem numa parceria com a Embraer e seus sócios franceses.

Outras situações paliativas também foram tentadas, incluindo Leasing com aviões Kfir de Israel e Cheetah da África do Sul, mas que não se concretizaram. Outro fator que dever ser levado em consideração é a influência que pode ser exercida pelos Estados Unidos, o que poderia acabar numa decisão pela compra do F-16 oriundos da Holanda, ou outro modelo de sua reserva estratégica, impondo assim mais uma decisão como a que ocorreu no governo passado em relação aos Carros de Combate.

Naquela oportunidade, o Brasil optou pelos Leopard 1A1 Belgas, mas teve de “engolir” os M-60 A3 TTS, numa transação direta entre os dois governos, na forma de leasing. Hoje, o país possui dois MBT e enfrenta uma série de problemas, principalmente quanto à logística.

A decisão de adquirir os aviões da França, conforme tem sido NOTICIAdo pela imprensa, o que poderá ocorrer no próximo 14 de julho em Paris, será uma solução temporária e uma forma de vender a idéia de que o governo estaria priorizando a indústria nacional, uma vez que a Embraer é 80% brasileira.

Enfim temos que acreditar que somos um país pacífico, e que conflitos só acontecem na casa dos outros, mas esquecem que detemos boa parte da água doce existente no planeta e os embates do século XXI envolverão a água da mesma forma como se luta por petróleo hoje num contexto geopolítico de alianças e mudanças repentinas e o outro agravante é o controle sobre a Amazônia que agrade ou não vamos enfrentar no futuro. Qual será nossa capacidade dissuasória?

Expedito Carlos Stephani Bastos é pesquisador especialista em assuntos militares e responsável pelo sítio de Defesa da Universidade Federal de Juiz de Fora [MG].

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