Opinião

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16/08/2008
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16/08/2008

A cultura como elo para o diálogo entre os povos

A cultura como elo para o diálogo entre os povos

Ronaldo Castro, de Nova Iorque

Em viagem aos Estados Unidos tive o prazer de conhecer o Cônsul-Adjunto do Consulado-Geral do Brasil em Nova Iorque, Davino Ribeiro de Sena.

Poeta e diplomata, ele viveu na Espanha, Austrália e Japão e atualmente é Chefe do Setor Cultural do referido Consulado.

A sua condição de poeta fez com que sua atuação fosse além dos rituais protocolares. Digo isso, pois pude ver e sentir o carinho com que é tratado pela comunidade brasileira na calorosa exposição – “Movimento Guaianases – Tradição e Modernidade” – Litogravuras do Acervo da Oficina Guaianases de Gravura da Universidade Federal de Pernambuco, no último dia 16 de junho no Consulado em Nova Iorque.

Essa exposição marcou sua despedida dos Estados Unidos, pois se prepara para assumir novos desafios na Arábia Saudita. Antes, porém, promoveu um recital, juntamente com Elizabeth Hazin, na Fundação Joaquim Nabuco e fez uma palestra sobre “Poesia e Imaginação” na Academia Pernambucana de Letras. Acompanhe o bate-papo.

Ronaldo Castro – Quem é Davino Sena e há quanto tempo você exerce o cargo de Adido Cultural do Consulado Geral do Brasil?

Davino Sena – Sou recifense das Graças. Formei-me bacharel em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco. Como diplomata servi em Barcelona e, desde 2006, sou cônsul-adjunto, chefe do setor cultural do Consulado-Geral em Nova York.

RC РVoc̻ poderia nos explicar quais as principais atribui̵̤es e desafios de um adido cultural brasileiro nos Estados Unidos?

DS – O chefe do setor cultural (adido cultural para os americanos) cuida da programação anual de difusão da música, cinema, literatura e artes plásticas brasileiras no exterior. Isso envolve o recebimento de projetos diversos e, após análise inicial, o encaminhamento para o Itamaraty, que aprova parte dos candidatos, segundo critérios estéticos e orçamentários.

RC РQuais as realiza̵̤es mais importantes que voc̻ destacaria do Consulado Brasileiro?

DS – O Consulado-Geral do Brasil em Nova York atende os residentes dos seguintes estados: Connecticut, Delaware, New Jersey, New York, Pennsylvania, além de Bermuda Islands. Além do trabalho consular e comercial, eu destacaria, na área cultural, o apoio para a organização de espetáculos musicais e outras formas de expressão artística.

RC – Quais os momentos mais difíceis ou delicados?

DS – A área cultural tem mais cooperação do que conflito. Os momentos mais difíceis são durante negociações com salas de espetáculo, para encontrar vagas no Carnegie Hall, por exemplo, no caso da música, porque aqui as apresentações costumam ser programadas com muita antecedência.

RC – Qual o relacionamento que o Consulado tem com a comunidade brasileira nos Estados Unidos e como se efetiva esse relacionamento? Quais as dificuldades?

DS – As Repartições consulares brasileiras possuem atribuições específicas, que visam a prestar auxílio emergencial aos brasileiros residentes, domiciliados ou em trânsito no exterior. Além disso, buscam satisfazer às necessidades notariais e documentais mínimas, a fim de que os cidadãos brasileiros possam estar no pleno exercício de seus direitos como cidadãos. As dificuldades, sobretudo de reunir todos os documentos necessários a finalizar um ato notarial, são superadas com alguma paciência.

RC – Como selecionar, dentre a vasta produção artística brasileira, os seus expoentes? Qual o critério adotado pelo consulado?

DS – O consulado em princípio segue as diretrizes do Itamaraty e, com as adaptações necessárias, os programas do Ministério da Cultura para a difusão de nossa arte no exterior. A seleção leva em conta a qualidade do projeto e sua repercussão local. A prioridade é para o artista brasileiro residente no exterior.

RC – Por que grande parte dos artistas brasileiros ainda vivem a dicotomia arte e mercado? O que um adido cultural nos Estados Unidos pode fazer para desenvolver um espírito mais empreendedor no artista brasileiro?

DS – Para muitos escritores e artistas, existe a idéia de que é vergonhoso ser um sucesso de vendas. O livro, o disco, o quadro, o filme não é um produto comercial, mas elemento de um currículo que alavancará sua eventual ascensão social. O Estado, MINC ou Itamaraty, dá o empurrão inicial, mas cabe ao escritor e ao artista criarem seu próprio mercado de forma independente e com o mínimo de espírito empreendedor. Petrobras e Banco Itaú se destacam como patrocinadores.

RC РDentre as diversas manifesta̵̤es culturais brasileiras, quais as que mais atraem os americanos? E quais as que mais lhes ṣo estranhas?

DS – O público local gosta da música brasileira e o nosso cinema começa a chamar a atenção. Maracatu e forró já são conhecidos aqui em Nova York, além do tradicional samba. Ainda não temos grande penetração no mercado da literatura nem no das artes plásticas, mas isso está mudando. O consulado apoiou a divulgação de Machado de Assis e Guimarães Rosa, neste ano, mas ainda há muito por fazer.

RC РO anti-americanismo na Am̩rica Latina ainda ̩ muito forte. O que um adido cultural pode fazer para dirimir os preconceitos que insistem em separar esses dois continentes culturais?

DS – Nossa história tem muitas semelhanças, colonização, escravidão africana e outros elementos. A migração latino-americana para os Estados Unidos é intensa. Então fica difícil defender o anti-americanismo. Pela mesma razão, é difícil defender o preconceito contra os migrantes latino-americanos.

RC РPara alunos de Rela̵̤es Internacionais, acostumados a estudar as estruturas de poder e a din̢mica da economia internacional, o que voc̻ diria sobre a import̢ncia da cultura, hoje em dia, diante do acirramento de velhos preconceitos e intoler̢ncias?

DS – A cultura é um elemento facilitador do diálogo entre povos. É preciso saber dosar certas manifestações culturais, para se obter uma reação favorável do público estrangeiro, num mundo cada vez mais globalizado, onde as relações de poder ficam mais evidentes.

RC РQue balan̤o voc̻ faria de sua gesṭo no Consulado Geral do Brasil em Nova Iorque?

DS – Sinto-me bastante realizado, após dois anos como chefe do setor cultural, aqui, porque pude trazer a literatura, o cinema e as outras artes brasileiras para o mercado norte-americano, que é muito exigente, mas sabe recompensar os que realizam um bom trabalho.

Ronaldo Castro de Lima Júnior é estudante do sexto período do curso de Relações Internacionais, em Pernambuco.

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