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A Diplomacia da ingerência

A Diplomacia da ingerência

17 de março de 2020 - 11:17:56
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Marcelo Rech

O governo brasileiro acompanha de perto a atuação de algumas embaixadas, especialmente europeias, que têm promovido eventos que podem ser interpretados como ingerência em assuntos internos do país. Após a crise por conta das queimadas na Amazônia, em 2019, países como Alemanha, França, Espanha e Suécia, entraram no radar do Planalto e do Ministério das Relações Exteriores.

O caso mais recente envolve a Embaixada da Espanha e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Recebido na representação diplomática com pompa e circunstância, o terceiro na linha sucessória tratou de parlamentarismo e foi o termômetro a explicar os ruídos na relação de Jair Bolsonaro com os demais poderes e as instituições da sociedade civil.

Para o governo, o deputado, aferrado ao poder e um dos que mais desfruta de mordomias e privilégios, não é exatamente um modelo de correção a servir de referência, principalmente para os estrangeiros.

Maia foi, em seguida, recebido em Madri pelo Rei Felipe VI, uma deferência pouco usual – ele não se entrevistou, por exemplo, com a presidente da Câmara dos Deputados, Meritxell Batet Lamaña. Entre um e outro evento, um tuíte, reverenciando Rodrigo Maia pelo diálogo com 24 embaixadores estrangeiros, incendiou as redes sociais. A mensagem foi apagada poucas horas depois, mas já havia sido multiplicada, inclusive por diplomatas presentes no evento.

Outro diplomata que provocou a ira no meio diplomático foi Ignácio Ybáñez, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil. Ele replicou uma reportagem do britânico The Guardian, com o título: “Democracia e liberdade de expressão estão ameaçadas no Brasil” e cobrou mais pressão da comunidade internacional para que os direitos humanos sejam respeitados no Brasil. Uma nota posterior, justificando a postagem, foi ignorada.

Os embaixadores da Alemanha, França e Suécia, também têm atuado, segundo o governo, com um misto de empáfia e arrogância, impondo condições que exasperam as próprias prerrogativas. Muitas vezes, olhar para o próprio passado poderia ajudar bastante na hora de moderar o tom e as cobranças, entendem assessores do presidente.

No Itamaraty, não foram poucas as vozes em defesa da convocação destes para explicarem as mensagens e os atos. Mesmo os mais sensatos dentro do governo entendem que não cabe aos diplomatas estrangeiros opinar publicamente a respeito do que se passa no país.

Neste sentido, defendem que os estrangeiros imaginem, por exemplo, qual seria a reação da Espanha se Bolsonaro criticasse a formação de um governo com a participação do Unidas Podemos, sigla de extrema-esquerda financiada pelo regime bolivariano da Venezuela? Ou mesmo o perrengue enfrentado por Emmanuel Macron na França? E a indiferença da Suécia quanto à transferência tecnológica do Gripen? E o caos interno vivido na Alemanha?

A leitura que até militares fazem faz todo o sentido: uma coisa é discutir a cooperação, acordos, formas de fortalecer as relações. Outra, completamente diferente, é apontar o dedo como se o Brasil tivesse mergulhado numa crise em janeiro do ano passado. Mais: é preciso no mínimo cautela ao reverenciar personalidades cujo objetivo principal é sabotar um governo legitimado por quase 60 milhões de votos.

Ignorar o legado de corrupção de governos passados e tratar como celebridades condenados que passeiam arrotando todo tipo de mentiras, é bastante contraditório. O desrespeito primeiro é com aqueles que, democraticamente, decidiram dizer não a um modelo político que se perpetuava com diferentes cores.

Tanto no meio político como na imprensa, há fortes reações contra o presidente que atendem por duas simples razões: cargos e verbas. Enquanto não houver o toma-lá-dá-cá e os meios de comunicação padecerem sem recursos públicos, Jair Bolsonaro será demonizado sem dó nem piedade.

O círculo mais próximo do presidente acredita que, aqueles que desejam ter com o Brasil relações duradouras e baseadas no ganha-ganha, precisam ouvir menos os políticos, ler menos os editoriais e dar mais atenção às ruas. A maioria dos brasileiros sequer é bolsonarista e está dizendo de forma clara o que deseja e o que não aceita mais.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.