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Cúpula Sul-Americana

A ditadura dos chanceleres

Marcelo Rech

A primeira reunião de Cúpula dos presidentes da Comunidade Sul-Americana foi marcada pelo esvaziamento, o desrespeito e a constatação de que este ainda é um projeto distante de ser viabilizado.

Muita retórica, ciumeira e disputas políticas enfraquecem o sonho de integração sonhado por Bolívar e levado aos trancos e barrancos pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Rafael Chávez Frias.

Desde a posse, em janeiro de 2003, Lula tem dito que a integração sul-americana é uma prioridade para o seu governo. O batismo de fogo foi justamente a crise venezuelana, quando o Brasil acabou por segurar Chávez no poder desfazendo o sonho golpista de Carmona, o `brevíssimo`, como afirma o venezuelano.

Pois, apesar dos esforços empreendidos para manter o presidente legitimamente eleito da Venezuela, mostram-se insuficientes para consolidar uma aliança que mescla ideologia e pragmatismo. Chávez é a voz dissonante nesse contexto.

E, com razão, diga-se. Ao contrário de Nestor Kirchner que se comporta como uma criança birrenta e enciumada, o coronel Hugo Chávez rejeita os modelos das cúpulas e exige praticidade nos encontros presidenciais.

“Os papéis estão invertidos. Há uma ditadura dos chanceleres, quando os líderes políticos somos nós, os presidentes”, afirmou em Brasília, logo após o encerramento da Cúpula.

Com habilidade política e pragmatismo, trouxe à Brasília, o presidente da Repsol, Antonio Bufal, e o presidente argentino. Assinou um contrato para a construção de um gasoduto, compra e venda de petróleo, criação de empresas mistas para explorar o potencial energético da região do Orinoco e ainda comprou uma empresa Argentina por US$ 92 milhões.

O que Chávez quer e que irrita profundamente os conservadores e até mesmo os progressistas, é que as cúpulas sejam transformadas num espaço de debate onde os presidentes possam dizer o que realmente pensam e aprovar projetos que saiam do papel e do mundo paralelo da retórica.

O que ele quer é justo, pois a diplomacia cria muitas amarras que impedem que se percebam os avanços conquistados. A Repsol foi chamada dois dias antes da Cúpula e toda sua direção despachou-se de Madri para fazer negócios em Brasília. É assim que o mundo funciona. Oportunidades de negócios não perdem no emaranhado da burocracia.

A Repsol está presente na Venezuela há 15 anos e usufrui das excelentes relações mantidas entre Chávez e Zapateiro. Muitas empresas brasileiras pensam assim, mas o Itamaraty engessa o formato dos encontros e inibe avanços significativos.

Desta forma, Hugo Chávez vai fazendo a integração acontecer. Foi ele, por exemplo, quem decidiu que a refinaria construída em parceria com a Petrobrás, seria em Pernambuco. Uma homenagem à Abreu e Lima, o brasileiro que lutou ao lado de Bolívar.

É desta forma que a Venezuela, odiada pelas oligarquias, faz a integração energética chegar ao Uruguai, Argentina, Bolívia, Equador. O Brasil, por sua vez, mantém uma postura abertamente criticada pelos vizinhos. Uma arrogância injustificável.

Não se faz integração apenas com o perdão de dívidas ou a criação de linhas de crédito, mas com debate e troca de impressões. A integração pode ser uma prioridade para Lula, mas não pode ser, de forma alguma, tratada como algo inventado ou criado pelo presidente brasileiro e seu staff diplomático. Seria muita pretensão imaginar isso.

Por essa razão, lamenta-se as ausências de Kirchner e Tabaré Vazquez. É fundamental que participem ativamente e digam de forma clara, o que pensam e o que desejam. Chávez fez a sua parte e isso incomoda. Mas, é melhor incomodar buscando o melhor, que agradar não fazendo nada.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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