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Geopolítica

A emergência da China dilui o papel do Brasil na América Latina

Marcelo Falak, especial de Buenos Aires, Argentina

A Cúpula China- CELAC promovida em Pequim nos dias 8 e 9 de janeiro produziu manchetes espetaculares: nos próximos dez anos, a China vai investir na América Latina US$ 250 bilhões e dobrar o comércio. Enquanto isso, a Venezuela garantiu, pelo menos, US$ 20 bilhões em financiamento para este ano, somando-se aos cerca de US$ 50 bilhões dos últimos sete. No momento em que o país perdeu quase a metade de suas receitas do petróleo por conta da queda nos preços internacionais, restam US$ 22 bilhões em reservas e enfrentar os vencimentos da dívida de US$ 12 bilhões, esta ajuda parece estar muito além da questão econômica, servindo como um seguro para a sobrevivência política de Nicolás Maduro.

Outro país petroleiro em problemas, o Equador firmou acordos da ordem de US$ 5.3 bilhões.

A Argentina, já antes da Cúpula, havia logrado um acordo de swap cambiário por yuanes equivalentes a US$ 11 bilhões, dos quais já utilizou cerca de US$ 2.7 bilhões para reforçar as suas reservas. Isto é, também, um seguro (caro, com taxas de 6% anual, ainda que muito menores que aquelas que o país pagaria no mercado aberto) contra uma corrida cambiária e um fim acidentado da era kichenerista.

Assim, a China despacha o Brasil como eixo dos seus investimentos e, principalmente, como garante último da estabilidade política de vários de seus países. Mas, o capítulo argentino guarda mais surpresas.

No dia 29 de dezembro, em sua última sessão do ano passado, o Senado aprovou (somente com votos do oficialismo) e enviou para a Câmara dos Deputados (onde a maioria está assegurada) um acordo-marco de cooperação bilateral, firmado pelos presidentes Cristina Kirchner e Xi Jianping no dia 18 de julho. A entrada em vigor deste acordo será a grande novidade da visita de Estado da mandatária a Pequim entre 3 e 5 de fevereiro próximo. O financiamento de US$ 4.7 bilhões para as represas Nestor Kirchner e Jorge Cepernic, em Santa Cruz, província do clã Kirchner, marcará o início do processo.

O acordo dá a capitais chineses acesso privilegiado a negócios em energia, mineração e agronegócios. Os pactos pontuais poderão realizar-se sem licitação, o que deixará de fora empresas brasileiras e diluirá ainda mais o valor do Mercosul. Os projetos em questão serão definidos no marco de um plano quinquenal de investimentos e as empresas contratantes poderão importar peças e componentes com tarifa zero. Outro ponto que prejudicará as empresas brasileiras.

O entendimento é um golpe direto na influência norte-americana. A relação foi ainda mais prejudicada (se isso é possível) após a negativa de Barack Obama em atuar como amicus curiae em favor da Argentina para evitar a decisão a favor dos holdouts. Isso apesar de Cristina Kirchner gestionar pela normalização (discutível e, portanto, incompleto) das estatísticas oficiais, o pagamento de sentenças no CIADI, o ressarcimento a Repsol por YPF e o contrato com a Chevron por Vaca Muerta.

Isso também golpeia o Brasil. Primeiro, como dissemos, às suas empresas. Mas, principalmente ao Governo de Dilma Rousseff, que perde influência pela aparição de um poder extra regional que emerge como prestamista de última instância e garante a sustentabilidade política.

Traição argentina? Não. Necessidade. Um Brasil concentrado em seus próprios problemas e na necessidade de ajustar sua economia não pode dar-se ao luxo hoje de emprestar dólares. Até o BNDES está em processo de mudança, abandonando grandes projetos, voltando-se para as pequenas e medias empresas e elevando as taxas de juros que cobra. O fracasso do soterramento da ferrovia Sarmiento, obra que beneficiaria à Capital e ao populoso conurbano oeste, anunciada repetidamente e suspendida sem data pela deserção do BNDES, é um problema para a imagem do kichnerismo e impacta negativamente junto ao principal opositor de Daniel Scioli na interna oficialista, quem, se for uma carta ganhadora, seria hoje o delfim da mandatária: o ministro do Interior e Transportes, Florencio Randazzo.

Marcelo Falak é jornalista e analista político. Graduou-se em Ciência Política e especializou-se em Relações Internacionais e História. Web: http://marcelofalak.com.ar. E-mail: marcelofalak@gmail.com.

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