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A estante de Xi

A estante de Xi

23 de janeiro de 2018
por: InfoRel
A inteligência artificial atrai a atenção do líder da segunda maior potência global

Marcos Magalhães, especial para o InfoRel

Os dois livros poderiam animar um debate nas mesas de um café em Palo Alto, capital informal do Silicon Valley, na Califórnia. Mas ganharam audiência global depois de aparecerem na estante logo atrás do presidente chinês Xi Jinping, em sua mensagem de Ano Novo. Daí foram parar nas páginas do China Daily, principal jornal em língua inglesa no país, e então no BBC World News, transmitido diretamente de Singapura no domingo (14).

The Master Algortihm, do cientista português Pedro Domingos, e Augmented: life in the smart lane, do futurólogo australiano Brett King, estão ao alcance das mãos do líder da segunda maior potência do planeta. O primeiro livro – que recebeu o aval público de Bill Gates – procura mostrar, segundo indica o subtítulo, como a disputa pela melhor máquina de aprendizado (machine learning) vai “refazer o nosso mundo”. Ou seja, um pequeno manual para o intrigante universo da inteligência artificial. O segundo livro, define King, busca indicar como a vida de cada um de nós vai mudar “à medida em que dados, sensores, a inteligência das máquinas e a automação enriquecem nosso mundo “.

Os dois livros não apareceram por acaso na estante de Xi. É bem verdade que estão ao lado de clássicos do marxismo leninismo e do maoísmo, de livros sobre as ideias de Deng Xiaoping, que abriu a China ao mundo, e de clássicos ocidentais escritos por autores como Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau. Ainda que meio perdidos no ecletismo do líder chinês, porém, o fato de estarem no cenário da gravação da mensagem e a própria divulgação das imagens pela imprensa oficial chinesa indicam a mensagem ao mundo: a China vai entrar nesse jogo.

No dia 3 de janeiro, logo após a divulgação da mensagem presidencial, o governo de Beijing anunciou a construção na capital chinesa, ao longo dos próximos cinco anos, de um parque tecnológico dedicado ao desenvolvimento da inteligência artificial. Segundo a agência Xinhua, serão investidos US$ 2,1 bilhões na criação do parque, que poderá atrair cerca de 400 empresas e alcançar uma produção anual de US$ 7,7 bilhões. E que setores estarão no radar do novo parque? Big data, computação na nuvem, identificação biométrica e aprendizagem profunda. Tudo isso dentro de um ambiente que contará com uma rede de telefonia celular de quinta geração.

Uma semana depois foi a vez de a China e a França estabelecerem um acordo para o desenvolvimento conjunto de pesquisas em inteligência artificial. Em visita a Beijing, o presidente francês Emmanuel Macron disse que a China tem uma grande vantagem no desenvolvimento do setor, devido a seu amplo mercado interno, e observou que a inteligência artificial é “uma espécie de matriz que irriga numerosos setores e que vai transformar áreas inteiras de nossa atividade econômica”.

Se os fatos corroboram os gestos, ainda assim é importante prestar atenção ao simbolismo das escolhas intelectuais de Xi Jinping. A deferência ao maoísmo e ao marxismo leninismo indica seu compromisso com os valores predominantes na China desde 1949. Os clássicos ocidentais seguem a abertura iniciada por Deng Xiaoping. E os inéditos volumes sobre os últimos desenvolvimentos científicos e tecnológicos parecem indicar o desejo de fazer da China muito mais do que a fábrica do mundo.

É difícil dizer que livros estarão na cabeceira de Donald Trump, um ano depois de sua posse como presidente dos Estados Unidos. Também não será trivial adivinhar o que estará lendo o presidente Michel Temer, colega de Xi no grupo dos BRICS. Menos fácil ainda especular sobre as leituras preferidas dos muitos pré-candidatos à eleição presidencial deste ano no Brasil. Se, como tudo indica, as leituras inspiram novas ideias e ajudam a colocar em prática novos projetos, esta será uma boa pergunta a fazer a todos os que pretendem chegar ao Palácio do Planalto em 2019.

Marcos Magalhães é jornalista e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton. E-mail: magmarcos@outlook.com

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