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29/08/2011
Defesa
30/08/2011

A Geórgia como um ´resort´ para terroristas

A Geórgia como um ´resort´ para terroristas

Marcelo Rech

 

Há pouco mais de três meses, a República da Geórgia abriu sua embaixada em Brasília com o objetivo de fazer do Brasil uma plataforma para a sua projeção política na América Latina.

 

No início de agosto, o Senado brasileiro aprovou a indicação do primeiro embaixador brasileiro em Tbilisi.

 

A decisão atende à política do ministério das Relações Exteriores de abrir o máximo de representações mundo afora, ainda que em países com os quais não temos nem possibilidades de comércio.

 

Cada representação compreende no imaginário da diplomacia brasileira, um voto na Assembléia-Geral das Nações Unidas que um dia, sabe-se lá quando, vai decidir se o Brasil terá ou não um assento permanente no seu Conselho de Segurança.

 

Integrante do BRICs junto com Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brasil não terá com a Geórgia uma relação estreita.

 

Ainda assim, Carlos Alberto Lopes Asfora que chefiará a representação do Brasil naquele país, enxerga muitas possibilidades uma vez que mais de 50% da população georgiana vive da agricultura, setor que em contrapartida, responde por apenas 5% do PIB local.

 

Ele acredita que o Brasil pode fazer na Geórgia o que pretende fazer na África com a expertise da EMBRAPA.

 

A Geórgia é um país europeu localizado às margens do Rio Negro e que era parte da União Soviética. Em 2008, uma disputa territorial envolveu o país numa guerra com a Rússia.

 

Para o Brasil, manter uma relação de profundidade com a Geórgia implica aceitar danos às suas relações com a Rússia, o que é pouco provável.

 

A Geórgia também quer comprar armamentos e firmar um acordo de cooperação em Defesa com o Brasil.

 

Com esse propósito, desembarcou em Brasília no dia 25, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Grigol Vashadze. Foi a primeira vez que um chanceler georgiano visitou o Brasil.

 

Na oportunidade, foram examinados o estágio atual do relacionamento bilateral – a Geórgia conquistou sua independência há duas décadas – e assinados acordos de isenção de vistos em passaportes comuns e diplomáticos e em cooperação técnica, além do estabelecimento de mecanismo de consultas políticas entre os dois países.

 

De acordo com o Itamaraty, o intercâmbio comercial entre Brasil e Geórgia alcançou US$ 107 milhões em 2010. As exportações georgianas concentram-se em adubos e fertilizantes. O Brasil é o 12º maior exportador para a Geórgia, com uma pauta que inclui açúcares, carnes e produtos químicos.

 

Para os dois governos, a visita do chanceler georgiano representa o ponto de partida para o estabelecimento de relações comerciais mais amplas, com o interesse daquele país em enviar, em breve, missões empresariais ao Brasil, que por outro lado, poderá aprofundar os laços com um país-chave do Cáucaso meridional.

 

Mas, tudo depende de como Moscou percebe tais movimentos.

 

O Brasil, por sua vez, segue de perto a evolução das tensões entre Geórgia e Rússia.

 

Uma das preocupações diz respeito ao uso do território georgiano por organizações terroristas e do crime organizado.

 

Recentemente, o diretor do FSB, a agência russa de inteligência, Alexander Bortnikov, afirmou que líderes de diversos grupos, inclusive terroristas, trabalham para penetrar o Cáucaso do Norte através da Geórgia.

 

Segundo ele, entre as organizações já identificadas pela Rússia, estão a Al-Qaeda, o Hizb ut-Tahrir, o Partido Islâmico do Turquistão, a Fraternidade Muçulmana, e movimentos extremistas como Tablighi Jamaat e Al Takfir Wal Hijra.

 

Importante observar que mesmo com a eliminação de “figuras icônicas”, grupos terroristas permanecem ativos, rapidamente se adaptam a novas condições, aperfeiçoam suas táticas e habilidades e acessam os últimos avanços científicos e tecnológicos em termos de armamentos.

 

Há poucas semanas, um grupo com cerca de 70 integrantes ingressou uma região conhecida como Garganta de Pankisi, na Geórgia, para receber treinamento terrorista.

 

Essa situação já foi denunciada pelos serviços secretos russos, pois essas pessoas estariam sendo treinadas para atentar contra a Rússia.

 

Um dos terroristas mais procurados pelos russos, Doku Umarov, está escondido na aldeia Omalo do Distrito Akhmeta em Kakheti, na Geórgia, mas autoridades locais ignoram a informação.

 

A Rússia já havia declarado que nos ataques de março ao metrô de Moscou, havia um “traço georgiano”. Para Moscou, o líder Mikhail Saakashvili é imprevisível e pode ser considerado como um “canhão solto”.

 

Em novembro de 2010, o presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, também acusou autoridades georgianas de acobertar terroristas chechenos responsáveis por atentados naquele país.

 

Como dá para perceber, o quadro político na região não parece nada amistoso.

 

Estaria o Brasil disposto a criar um problema com a Rússia, uma das maiores importadoras de carne brasileira e parceira estratégica em vários temas da agenda internacional?

 

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e Contra-insurgência. E-mail: inforel@inforel.org

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