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26/04/2016
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14/05/2016

Política

A internacionalização da crise política brasileira

Marcelo Rech

A internacionalização da crise política brasileira deflagrada há cerca de 60 dias pelo governo da presidente Dilma Rousseff, tem como principal objetivo, vender à opinião pública estrangeira, a idéia de que há um golpe de Estado parlamentar em curso no país. Um golpe sustentado pelos grandes meios de comunicação a serviço de corporações multinacionais mais interessadas na recuperação dos seus lucros, afetados pelo agravamento da situação econômica brasileira.

Para tanto, o governo age em várias frentes, inclusive financiando viagens internacionais de membros de sindicatos e movimentos sociais vinculados ao PT e de estrangeiros ao Brasil para dar a impressão de que dispõe de um apoio que não existe. Este processo também registra trapalhadas como aquela protagonizada por um militante travestido de diplomata que usou a máquina do Estado para produzir telegramas que deveriam chegar a partidos, ONGs, movimentos de esquerda e sabe-se lá mais quem, em todas as partes do mundo, por meio das embaixadas e consulados do Brasil no exterior.

Buscou-se o envolvimento de mecanismos de consertação política regional como a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), do Parlamento do MERCOSUL (Parlasul), da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), da Organização dos Estados Americanos (OEA), e de governos simpáticos como da Bolívia, Cuba, Equador, Uruguai e Venezuela. Até mesmo da Organização das Nações Unidas (ONU), onde a presidente pretendia denunciar o golpe, mas recuou diante das manifestações do Supremo Tribunal Federal (STF). Movimentos que são confirmados pela diplomacia brasileira.

Este processo contou com o ativismo ideológico do Secretário-Geral da UNASUL, o colombiano Ernesto Samper Pizano, mas não encontrou consenso entre os países membros; do Parlamento do MERCOSUL, que na segunda-feira, 25, a pretexto de comemorar os 25 anos do bloco, viu seu presidente, o ex-ministro argentino das Relações Exteriores no governo de Cristina Kirchner, Jorge Taiana, discursar de forma veemente contra um suposto golpe em gestação no Brasil; da Diretora-Executiva da CEPAL, Alícia Bárcenas, que saiu em defesa de Dilma e Lula; do Secretário-Geral da OEA, o ex-chanceler uruguaio Luis Almagro; e de forças políticas de esquerda de várias partes do mundo capitaneadas pelo Foro de São Paulo, como a Frente Ampla no Uruguai e o partido espanhol Podemos.

O presidente uruguaio Tabaré Vázquez, que também preside o MERCOSUL, vem trabalhando para construir consenso em torno da suspensão do Brasil do bloco caso o impeachment de Dilma seja confirmado pelo Senado. Tudo para exercer pressão sobre um país onde as instituições seguem funcionando, exceto o governo federal cuja única prioridade é salvar o mandato da presidente e limpar o caixa com dois objetivos: financiar os movimentos extremistas que prometem incendiar o país para inviabilizar o futuro governo e provocar o caos financeiro na administração pública.

De acordo com diplomatas brasileiros e estrangeiros, o assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, que se fez presente na reunião do Conselho de Ministros de Relações Exteriores da UNASUL, realizada no sábado, 23, no Equador, teria denunciado a compra do impeachment pelas entidades empresariais ligadas a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Consultado, o assessor confirmou por meio de sua assessoria, a presença, mas negou o fato.

De acordo com sua versão, ele “expôs a posição que o governo brasileiro tem tornada pública nas últimas semanas”. No entanto, não menciona qual posição. A presidente tem dito que é vítima de um golpe. Seus já escassos seguidores dizem a mesma coisa. Garcia acrescenta ainda que “os países da UNASUL já têm opinião formada sobre a situação no Brasil”. Ele afirma ser falsa a informação de que Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai, não teriam aceitado inserir nos documentos do encontro, qualquer menção à crise brasileira. Garantiu que não houve qualquer demanda ou deliberação sobre o assunto. Também nega ter mantido qualquer contato com membros da Frente Ampla que governa o Uruguai, sobre o tema, e que é falsa a informação sobre conversas mantidas com líderes políticos internacionais e chefes de entidades regionais multilaterais, sobre a necessidade de suspenderem o Brasil do MERCOSUL. Por fim, “acrescenta que não comenta fontes não identificadas”. Faltou dizer o que fazia numa reunião de chanceleres já que o professor é assessor especial da presidente da República. E a dúvida não apenas minha, mas de grande parte daqueles que lá estiveram na UNASUL. A foto acima ilustra bem o momento.

Agora, caberá ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, explicar ante o Senado Federal, que papel exerceu Garcia no Equador, o que disse, com quem falou e que tratativas discutiu. Requerimento com este objetivo, foi aprovado nesta quinta-feira, 28, e o chanceler também terá de apresentar as transcrições de sua fala, da fala do assessor especial e dos representantes estrangeiros dos demais países membros, acerca do assunto.

As tentativas de fazer com que mecanismos regionais abracem essa causa existiram, segundo diplomatas brasileiros que pediram para não ser identificados. No entanto, não têm produzido os efeitos desejados e a UNASUL, por exemplo, concluiu seu encontro com duas declarações e nenhuma menção à crise política no Brasil. Apenas o seu titular segue fechado com a presidente Dilma produzindo notas pessoais em nome da entidade, o que também é duramente criticado pelos países membros.

Estranha ainda o posicionamento do uruguaio Luis Almagro que parece buscar uma forma de inserir a OEA nas discussões sobre as crises políticas na região. Almagro já foi fortemente criticado pelos governos da Bolívia, Equador e Venezuela, que o acusaram de ingerencista a serviço dos Estados Unidos. No entanto, quando ele decidiu oferecer sua solidariedade à Dilma Rousseff, ninguém reagiu.

A ofensiva governamental inclui ainda entrevistas aos correspondentes estrangeiros para quem o entendimento a respeito do processo seria mais difícil e, portanto, mais fácil para a presidente capitanear apoios e matérias positivas. O vice-presidente Michel Temer percebeu a manobra e adotou a mesma estratégia ao dizer à imprensa internacional que não há golpe no Brasil.

Do ponto de vista objetivo, o uso de mecanismos regionais e multilaterais, governos estrangeiros e correspondentes internacionais, não influenciam em absolutamente nada. Sequer terão peso no iminente reconhecimento de um governo conduzido pelo atual vice-presidente. O Brasil responde por cerca de 45% da economia latino-americana. Relacionar-se com o país não é uma opção, especialmente para os vizinhos.

Por outro lado, decisões no âmbito da UNASUL e do MERCOSUL somente são possíveis por consenso. E não há consenso em torno do assunto o que poderíamos interpretar como uma espécie de “poder de veto” dos seus membros. Ao não embarcarem neste discurso, países como o Paraguai “vetam” qualquer iniciativa mais ousada contra o Brasil.

Mas, digamos que algo prospere e o Brasil venha mesmo a ser suspenso do MERCOSUL. Quem ganha e quem perde? Ganha o Brasil que poderá firmar acordos de livre comércio com quem quiser durante este período e perdem aqueles que acreditam que isto funcionará como punição. Seria uma tremenda oportunidade para o país desvencilhar-se das amarras que o MERCOSUL lhe impõe e firmar acordos comerciais que realmente produzam benefícios para a sua economia e sua população.

Ressalte-se que mesmo aqueles que abraçam ideologicamente o governo Dilma, querem o MERCOSUL flexível e uma agenda extrarregional robusta, o que também revela que estamos em um processo de integração que carece de unidade, algo que não temos e pelo qual não trabalhamos.

Estamos vivenciando a velha estratégia de terra arrasada, onde vale tudo para manter-se ou chegar ao poder inclusive a própria presidente pedir que o seu país sofra sanções e seja punido. Tudo em nome de um projeto político que se revelou tão corrupto e incompetente quanto os que o antecederam.

Marcelo Rech é jornalista e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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