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Política

A manteiga, o homossexualismo e uma nação ao revés

Ucho Haddad

Quando o fator da filha desconhecida Lurian da Silva caiu como uma bomba na campanha do então candidato Lula, derrotado dias depois pelo polêmico Fernando Collor de Mello, a chamada tropa de choque do Partido dos Trabalhadores não demorou muito para entrar em ação, em especial nos bastidores da política palaciana, para infernizar a vida daquele que impusera a mais acachapante derrota ao metalúrgico que conheceu a fama por conta de suas atividades sindicais.

O governo Collor mal começava quando surgiu a famigerada república de Alagoas, reunião espúria de assessores presidenciais, todos nascidos na terra de Floriano Peixoto, com o estrito e claro objetivo de, para ser prudente e elegante, locupletar.

Na ocasião, as manobras escusas da tal república de Alagoas, denunciada com insistência pelo “tour de force” petista que sempre estocava os “colloridos” com o aríete da indignação e da pseudo-probidade, desaguou na maior crise política brasileira até então, levando Fernando Collor de Mello ao vexame da renúncia, atitude inócua do ponto de vista da preservação dos direitos políticos.

Os “caras-pintadas” ganharam as ruas das principais cidades do país no exato momento em que a crise atingiu o seu ápice, turbinados pelo maniqueísmo da esquerda brasileira, a qual, como sempre, condenou os métodos nada ortodoxos do “direitismo’ internacional como forma de reforçar os pilares de um ideal que, décadas mais tarde, mostrou ser uma reles balela discursiva e enganadora.

De lá para cá, ou seja, desde a época “collorida” até o começo da era “luliana”, o PT e seus integrantes sempre freqüentaram as redações dos principais veículos de comunicação do país, levando, com contumácia impressionante, denúncias contra aqueles que estavam no poder.

Nada a reclamar, pois à oposição cabe o papel de vigiar diuturnamente o situacionismo político, como forma de garantir ao eleitor uma suposta lisura no trato da coisa pública, desde que fundadas sejam as delações.

Já no poder, a esquerda tupiniquim juntou-se com alguns saltimbancos com mandato, os quais no passado eram alvo da ira petista, para saquear o país sob a desculpa de que o fim justifica os meios, teoria idêntica a do historiador escocês John Major, que em 1521 retratou como sendo o “modus operandi” de um fora-da-lei conhecido por Robin Hood, que agiu nas florestas de Sherwood durante a Idade Média.

Considerando que no Planalto Central raros são os esconderijos disponíveis para os Robin Hoods da nossa querida e amada Botocundia, é preciso começar admitir que algo de muito estranho vem ocorrendo no seio da sociedade brasileira.

Enquanto a Câmara dos Deputados livrava da cassação alguns parlamentares envolvidos na roubalheira denominada “mensalão”, uma parcela da sociedade, especialmente a da capital paulista, se indignou diante de um outdoor que exibia um beijo entre dois homens, o que muitos comunicólogos de plantão rotularam de beijo gay.

Vale lembrar que, até onde se sabe, não existe beijo heterossexual, bissexual ou homossexual, mas apenas uma forma de carinho corriqueira ente duas pessoas do mesmo sexo, essas, sim gays ou o que for.

Causou espanto a atitude bizarra e provinciana de parte da sociedade brasileira, pois um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo causa muito mais espanto do que uma roubalheira continuada exercida por pessoas que das urnas para o poder se transformam muito mais do que qualquer transexual.

Isso leva a concluir que os preceitos e preconceitos da sociedade brasileira são tão esdrúxulos quanto ínfimos, pois é mais fácil concordar com um ladrão com mandato do que admitir o amor entre duas pessoas do mesmo sexo.

A pequenez do raciocínio do cidadão sepulta toda e qualquer possibilidade de evolução social, pois uma nação supostamente democrática não avança se o retrocesso ainda impregna o pensamento de seu povo.

Beira o incompreensível a passividade do brasileiro diante dos repetidos e quase infindáveis anúncios de corrupção no Estado, como se roubar, locupletar ou prevaricar já estivesse integrado em definitivo no cotidiano virulento da política.

O que é possível concluir é que a sociedade brasileira – pasma diante do torpedear de notícias de corrupção – decide, vez por outra, de forma radical, para provar a si mesma que ainda lhe resta uma reduzida possibilidade de reação.

Se a polêmica de um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo deságua numa mobilização capaz de exigir mudanças, algo de extremamente errado acontece, pois a prostração social deve ter uma explicação.

A exemplo do que ocorria na finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas [URSS] – onde os czares do Politburo se refestelavam nas benesses da corrupção e nas areias do Mar Negro – sempre acompanhados de moscovitas e curvilíneas meninas que dormiam à tarde – o brasileiro parece anestesiado diante do que diuturnamente assiste, como se o conformismo fosse a mais nova coqueluche de um modismo político burro e criminoso.

Logo nos primeiros meses da era Lula, quando o governo do outrora metalúrgico, que trocou o macacão lambuzado de graxa por um elegante e bem cortado terno presidencial, começava a apresentar os primeiros sinais de fracasso, José Antonio de Souza, um ajudante de pedreiro de Cariacica, no Espírito Santo, ateou fogo ao próprio corpo, diante do Palácio do Planalto, para protestar contra a falta de emprego e principalmente contra as agruras que sua família enfrentava.

O governo Lula, por sua vez, como era de se esperar, minimizou a tragédia, até que o assunto sumisse da grande imprensa.

Meses mais tarde, foi a vez do desempregado Edivaldo Araújo, à época com 35 anos, que ameaçou se jogar de uma altura de quatro metros ou mais, pulando das galerias do Senado para um plenário cheio, durante sessão deliberativa da Casa legislativa.

Sempre atento e pronto para defender o governo do PT, o senador Aloízio Mercadante declarou: “Tem que se buscar políticas sociais para evitar que as pessoas cheguem a esse tipo de situação. Acho que o desemprego prolongado leva muitos trabalhadores a esse ponto”.

Agora, sem que algum avanço social de expressão tenha sido notado, o Brasil assiste a uma enxurrada de absolvições no plenário da Câmara dos Deputados, que salva de maneira irresponsável alguns parlamentares envolvidos no mais escandaloso esquema de corrupção já visto no país.

No contraponto, uma empregada doméstica paulista, presa há mais de cento e vinte e dias, por roubar uma lata de manteiga de R$ 3,10, continua a contemplar o nascer do sol de maneira geometricamente distinta, apenas porque, segundo a Justiça, a lei está sendo cabalmente cumprida.

Ora, a que lei se submetem, então, os saqueadores da Pátria, que diuturnamente se afogam nas benesses escusas do Estado e nos conchavos imundos dos bastidores?

À mesma lei que impediu que um trabalhador honesto – que resolveu jogar sobre o universo mundano da política a verdade que conhece – que certamente desestabilizaria o governo do presidente Lula.

Se o Supremo Tribunal Federal encontrou motivos para calar Francenildo Costa, o caseiro da mansão da república de Ribeirão, deveria ter encontrado motivos ainda maiores para evitar a manifestação da verdade por parte do pedreiro José Antonio de Souza, morto dias depois de se auto-incendiar, e do desempregado Edivaldo Araújo.

Mas a vida é assim mesmo, pois no Brasil do presidente Lula, onde proibido é revelar a opção sexual e roubar um pouco de manteiga para matar a fome, probo é aquele que saqueia o Estado em nome de uma ideologia política que não passa de uma roubalheira camuflada por um mandato qualquer.

O Brasil não há de mudar tão cedo, porque os caras-pintadas da era “collorida” foram substituídos pelos caras-de-pau do império de Dom Lula I.

Ucho Haddad, 46, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley No

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