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A militarização das fronteiras

A militarização das fronteiras

19 de maio de 2020 - 15:41:25
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Marcelo Rech

Na semana passada, a Colômbia decidiu militarizar as suas fronteiras, a exemplo do que já fazem Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai, por conta da expansão do coronavirus nas regiões próximas ao Brasil. Apesar das grandes diferenças no número de habitantes, a situação preocupa e deveria ser suficiente para que as autoridades adotassem medidas a partir de um planejamento regional.

A militarização das fronteiras revela, entre outras coisas, a falência dos organismos multilaterais. Era previsível que a região mais desigual do planeta, sofresse consequências duras por conta da pandemia. Além da desigualdade, grande parte da América Latina ainda padece de sistemas de saúde razoáveis. Muitos países lidam com problemas já erradicados há dois séculos, por falta de infraestruturas mínimas de serviços sanitários.

Para piorar, a América Latina lida com problemas comuns que se alastram muito mais rápido que o virus, como o narcotráfico, o contrabando de armas e tráfico de pessoas. Poderíamos nos perguntar o que mecanismos como a UNASUL ou a CELAC, por exemplo, fizeram a esse respeito durante mais de uma década. Até mesmo o que a Organização dos Estados Americanos (OEA), a mais antiga das instituições multilaterais, fez em relação à esta situação.

As Forças Armadas são instituições de Estado e assim devem ser tratadas por todos os governantes. Elas têm um papel fundamental na defesa da soberania nacional e atuar nas fronteiras cumpre com essa função. No entanto, estão sendo designadas para atuar numa situação limite, com a orientação única de impedir que as pessoas saiam ou ingressem. É, de certo modo, um reconhecimento da falência do diálogo e da cooperação. Os vizinhos do Brasil nos olham com desconfiança e medo. É como se apenas a morte estivesse do outro lado da fronteira. É assim que o país está sendo percebido no seu entorno geográfico.

A região está militarizando as suas fronteiras por entender que o problema não está sendo tratado com a devida seriedade do outro lado. Os militares estão sendo designados para operações que pretendem preservar a soberania nacional ante um virus que não respeita linhas imaginárias.

Tudo porque a percepção do outro lado, é que o Brasil optou por ideologizar o combate à pandemia. Lamentavelmente, os presidentes já não conversam. Não há troca de impressões, intercâmbio de ideias ou a adoção de medidas em conjunto. As chacelarias tampouco discutem qualquer tema que vá além da repatriação de seus nacionais.

Em condições normais, o Brasil estaria sendo visto como o gigante capaz de ajudar toda a vizinhança, acolhendo as pessoas, enviando ajuda, contribuindo para que superassem a pandemia. Estaríamos desenvolvendo pesquisas para abreviar o drama, além de estarmos juntos as grandes potências, nas discussões sobre como lidar com o momento presente e o futuro.

Até pouco tempo atrás, a Diplomacia de Defesa foi responsável por impedir que muitos conflitos e tensões escalassem. As Forças Armadas, especialmente sul-americanas, mantinham contato permanente, parte de um processo que logrou pôr fim às deconfianças e rivalidades.

Essa mesma Diplomacia de Defesa poderia, por meio da cooperação entre os países, contribuir para algo muito mais efetivo que simplesmente militarizar as fronteiras. O intercâmbio deveria ser fortalecido neste momento, pois, entre outras coisas, o crime organizado não respeita distanciamento social ou confinamentos. A situação deveria ser aproveitada como uma oportunidade.

Além disso, os centros tecnológicos e de pesquisas das Forças Armadas são avançados não apenas no Brasil. Os militares que continuam sendo tratados hoje por conta do que os mais antigos fizeram em toda a região no passado, têm um visão colaborativa muito mais ampla. Sabem que a cooperação é essencial para o combate aos problemas que são comuns. Têm essa disposição, mas precisam que seus comandantes, os presidentes, rompam com o distanciamento ideológico e dialoguem, para o bem de todos.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgência e o Impacto dos Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.