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Política Internacional

A Política Externa Brasileira: pesos, medidas e vergonha

Marcelo Rech

A Venezuela tem se convertido numa ditadura explícita que desrespeita todo e qualquer direito daqueles que simplesmente pensam diferente. Com um presidente ignorante e estúpido que só está no poder porque conta com o respaldo de países como a Argentina e o Brasil, para citar os mais próximos, a Venezuela fortalece sua ditadura de modelo cubano sem ser importunada.

Um país rico – sim, a Venezuela nunca foi um país pobre – e quinto maior exportador de petróleo do mundo, a Venezuela teve o azar de contar com governos corruptos por boa parte de sua história. A receita do petróleo abastecia uma elite antes de Chávez e hoje, abastece outra, a quadrilha chavista.

Há duas décadas o país é conduzido por um regime que tentou alcançar o poder por meio de um golpe de Estado com o então coronel Hugo Chávez nos anos 90. O mesmo que, vítima de um golpe em 2003, voltou ao poder graças à figuras como Luís Inácio Lula da Silva, Evo Morales, Cristina Kirchner, Rafael Correa, e os irmãos Castro de Cuba.

Um regime que não transformou o país. Os pobres e miseráveis continuam pobres e miseráveis, com a diferença de que agora são reféns do regime. Tal e qual os beneficiados pelo Bolsa Família brasileiro, um programa que transfere renda, mas que não dá as pessoas condições para saírem da pobreza.

À esquerda latina moderna o que interessa é criar feudos, batalhões de pessoas – ou milícias – que lhes sigam sustentando no poder. Ensinar a pescar nunca foi o propósito dessa gente, nem aqui e nem em lugar algum.

Hugo Chávez se acreditava Deus – como Lula – e nunca trabalhou com a hipótese de morrer. Mas, morreu. E muito antes do anunciado, não há dúvidas. Para o seu lugar, Nicolás Maduro. Um desses líderes sindicais que gostam de atacar a burguesia, mas que não abrem mão das benesses, do luxo e das delícias do capitalismo.

No entanto, Maduro nunca foi unanimidade dentro do chavismo. Limitado intelectualmente, fortaleceu o seu lado apelão. Tudo que de ruim se passa no país é culpa dos outros. Igualzinho ao PT que após 12 anos de poder continua debitando na conta de FHC as desgraças a que somos submetidos.

Tudo é obra de conspirações. Todo mundo quer matá-lo. A inflação de 70% não guarda nenhuma relação com a incompetência ou a corrupção enraizadas no regime. E para piorar, os arroubos de Maduro encontram eco na vizinhança com exceção de países como a Colômbia.

As prisões arbitrárias, as perseguições e as violações dos direitos mais fundamentais na Venezuela, têm o respaldo político do Brasil. A nota do MRE exortando a que os atores políticos naquele país encontrem uma saída por meio do diálogo é pura enganação. Primeiro, o Itamaraty sequer tem autonomia para emitir uma nota. Segundo, a política exterior brasileira chegou ao fundo do poço. Deixou de ser referência há muito tempo. Um país que não paga as contas de água e luz de suas embaixadas e consulados, não tem como influir na cena internacional.

O Brasil atual é cúmplice dos desmandos no país vizinho. É cúmplice e omisso ao mesmo tempo.

Incoerências

Na semana passada, a presidente da República negou-se a receber as credenciais do embaixador da Indonésia num gesto de retaliação pela execução de um traficante de cocaína brasileiro, portanto, de um bandido que já com mais de 40 anos decidiu traficar drogas para um país que pune este crime de verdade.

Ela tentou criar um clima de comoção junto aos brasileiros, mas as pessoas não são tão estúpidas. Ninguém deu a mínima para a execução de um bandido. Nem a sua ex-ministra de Direitos Humanos, a petista Maria do Rosário que fez questão de deixar claro que o sujeito deveria pagar pelo que fez.

A lei na Indonésia pune com pena de morte que trafica drogas e ponto. Trata-se, portanto, de uma questão interna do país. Uma lei aplicada por um país soberano.

Ao negar as credenciais de seu embaixador, a presidente mais uma vez intrometeu-se numa questão interna de outro país. Não se sabe ao certo quem foi o gênio que lhe soprou no ouvido essa estratégia tendo outro traficante brasileiro no corredor da morte. Agora, certamente ficará mais fácil evitar “por meio da diplomacia” a execução do bandido. Com certeza!

No entanto, ao receber no mesmo dia as credenciais da nova embaixadora da Venezuela no Brasil, a presidente não comentou as prisões absurdas executadas pelo regime chavista. A desculpa? Trata-se de não intrometer-se em assuntos internos de outro país. Ah, tá!

Quando o Paraguai decidiu legal e legitimamente pelo impeachment do esquerdista Fernando Lugo, o Brasil liderou o movimento regional pela expulsão do país do Mercosul. Na Venezuela mais de 100 pessoas apodrecem nas prisões do chavismo e todo mundo no Planalto acha isso normal e legítimo.

Quando a deputada Maria Corina Machado, usando o tempo destinado ao Panamá, discursou na OEA em Washington, o chavismo lhe cassou o mandato – ela fora eleita em 2010 com a maior votação do país. Em janeiro, na Cúpula da CELAC, o companheiro Daniel Ortega cedeu seu tempo a um representante de Porto Rico que não integra o bloco, e os esquerdopatas se divertiram.

No ano passado, um ministro venezuelano entrou no Brasil com armas e munições – apreendidas junto com a babá de seus filhos num avião da petroleira PDVSA – e material para organizar revoluções no campo, e o governo cúmplice e omisso sequer reagiu.

Armas e ideólogos do chavismo são infiltrados no Brasil todos os dias pela fronteira norte e ninguém se arvora contra as sistemáticas violações da nossa soberania.

Brasileiros são mortos, presos e extorquidos por milícias e militares das Forças Armadas da Venezuela na região de Santa Elena de Uairén, e o Itamaraty não move uma palha. Esses brasileiros a presidente ignora. Traficantes, ela move com dinheiro público, advogados e ativistas, para salvá-los.

Por fim, o governo brasileiro age em defesa de Nicolás Maduro por entender que se trata de um governante eleito pelo povo, com mandato legítimo. Ok! É algo defensável. Mas e quanto aos prefeitos e parlamentares que também foram eleitos legitimamente e que foram apeados do poder pela força bruta?

Ah sim, e quanto aos US$ 2 bilhões que a Venezuela deve a empresas brasileiras?  A presidente vai deixar os empresários brasileiros na mão para não irritar o colega em Caracas?

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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