Opinião

Abin
04/12/2005
Abin
04/12/2005

Guerra do Iraque

A retirada das tropas de ocupação do Iraque: desafio ou necessidade?

Marcelo Rech

É cada vez mais patente que os Estados Unidos e os países da chamada coalizão que depôs Saddam Hussein, encontram-se diante de um dilema que reside na permanência ou não das tropas militares naquele país.

A rejeição interna tem sido cada vez maior, e não apenas nos Estados Unidos, mas também na Grã-Bretanha, parceira carnal de Bush.

Na sexta-feira, 2, dez fuzileiros navais norte-americanos foram mortos na cidade de Faluja. Onze ficaram feridos, naquele que é considerado um dos mais sangrentos atentados contra as tropas de ocupação.

Até o momento, 2.125 soldados norte-americanos foram mortos no Iraque. Pelo menos 16 mil foram feridos. Ainda assim, o presidente George W. Bush, resiste a fixar uma data para a retirada das tropas.

“Não vou me contentar com nada além da completa vitória”, afirmou em discurso feito na Academia Naval de Maryland. Ele assegurou que só deixará o Iraque quando forem restabelecidas as condições de segurança.

Durante seu discurso, anunciou a “Estratégia Nacional para a Vitória no Iraque”, um documento de 35 páginas elaborado pelo Conselho de Segurança Nacional, com as diretrizes sobre como vencer os rebeldes. Bush explicou que deixar o Iraque é abrir caminho para os terroristas.

Até o dia 15 de dezembro, quando o Iraque deverá ter eleições legislativas, Bush deve falar pelo menos mais três vezes sobre como vencer rebeldes e terroristas e deixou claro que isso exige tempo e paciência.

O problema é que a guerra prolongada pôs fim à paciência daqueles que desejam ver restabelecida a ordem no Iraque. Além disso, o próprio conceito de vitória no Iraque é enviesado.

Para Bush, vitória significa entregar o país às suas forças de segurança para que elas enfrentem o terrorismo interno. Para o mundo, vitória seria deixar o país numa situação de estabilidade política, algo inviável.

A comunidade árabe, mesmo aquela sempre simpática aos Estados Unidos, já não esconde que o tempo para a retirada das tropas de ocupação passou e que o Iraque deve ser entregue a uma missão de paz sob gestão da ONU. Falta a ONU assumir seu papel no contexto.

A Espanha retirou suas tropas logo após o 11 de março e a vitória do socialista Rodríguez Zapateiro. Outros países anunciaram que deixarão a coalizão tão logo sejam realizadas as eleições de dezembro. A Itália de Berlusconi, por exemplo, inicia a retirada de seus três mil homens, em janeiro de 2006.

A Coréia do Sul já havia decidido retirar, no começo do ano, um terço dos seus 3.600 soldados e oficiais que servem no Iraque. Pressionado, Tony Blair comunicou Bush que os britânicos decidiram retirar-se completamente do Iraque ao longo de 2006.

Bush enfrenta problemas para manter a campanha, onde além das mortes, geram um custo de cerca de US$ 2 bilhões por semana.

Pesquisas de opinião revelam que mais de 60% dos norte-americanos acreditam que a guerra no Iraque não deveria ter acontecido. Além disso, afirmam que a tentativa dos Estados Unidos de montar um regime democrático estável no país vai fracassar. Os democratas exigem que as tropas deixem o país em seis meses.

Depois do consenso obtido por conta dos atentados de 11 de setembro, Bush perdeu popularidade, apoio político interno e externo e vê a guerra do Iraque como o grande equívoco de sua administração, como observou recentemente o ex-presidente Bill Clinton.

Ao manter as tropas no Iraque, Bush não terá como fazer seu sucessor em 2008, garantem analistas políticos norte-americanos. Enquanto isso, o vice-presidente Dick Cheney prefere acusar os opositores da guerra de oportunistas.

Apesar dos discursos inflamados, sabe-se que o Pentágono pretende reduzir as tropas dos atuais 160 mil soldados para 138 mil após as eleições. Entretanto, é importante ressaltar que os Estados Unidos não podem abandonar o Iraque nas atuais condições.

Encurralado, Bush busca uma saída com honra, pois esperava que a nova Constituição iraquiana fosse um fator de estabilidade, o que se revelou falso.

Não é exagero, afirmar que o Iraque pode ser o novo Vietnã dos Estados Unidos, pois o país foi dividido pela ocupação e as várias correntes étnicas e religiosas, lutam contra os ‘invasores’ e entre si, acelerando um processo de guerra civil que Bush prefere ignorar.

Por isso, os falcões preferem manter indefinidamente um contingente militar significativo no Iraque.

Qualquer que seja a decisão a ser tomada a partir de 15 de dezembro, é certo que os Estados Unidos enfrentaram sérias conseqüências no plano internacional.

Para 42% dos norte-americanos, os Estados Unidos deve ”se ocupar de seu próprio negócio no contexto do mundo e deixar outras nações vivas como podem e querem”. Esta seria a melhor maneira de resolver o impasse iraquiano tanto para os Estados Unidos quanto para o resto do mundo.

A restauração da paz e da ordem no Iraque é uma prioridade para o restante dos países, árabes ou não e a ONU precisa chamar para si essa responsabilidade, impondo um regime que permita aos iraquianos a busca pelo entendimento, o diálogo e a reconstrução do país.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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