Relações Exteriores

América do Sul
16/03/2005
Programa Espacial
16/03/2005

América do Sul

A verdade sobre a Colômbia, as Farc e o PT

O Partido dos Trabalhadores não tem vínculo algum com as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia [FARC].

Junto com uma centena de partidos e movimentos de esquerda da América Latina [entre os quais o PT, o PSB, o PPS e o PDT brasileiros], as FARC fazem parte do Foro de São Paulo.

No Foro, convivem organizações de perfil político ideológico bastante distinto. O Partido Socialista Chileno do presidente Ricardo Lagos, por exemplo, participou de algumas reuniões.

Todas estas organizações não estão unidas por nenhum laço orgânico, pois o Foro é, justamente, um foro de debate, e não uma estrutura de coordenação política internacional.

No passado, no entanto, houve contatos de dirigentes das FARC com políticos brasileiros.

Os contatos das FARC no Brasil

Alguns dos primeiros parlamentares brasileiros com os quais as FARC se encontraram, em final de 1998, foram os deputados tucanos Tuga Angerami [PSDB-SP] e Arthur Virgílio [PSDB-AM].

À época, Virgílio era secretário-geral do PSDB. “O Brasil tem grande importância diplomática na América Latina. Podemos ajudar a Colômbia a pôr fim aos conflitos”, disse Virgílio à Folha de São Paulo, para explicar sua atuação.

As FARC tentaram ser reconhecidas oficialmente como força beligerante pelo governo brasileiro, o que poderia ajudar nas negociações de paz – que naquele momento pareciam promissoras – com o governo colombiano. Poucas semanas antes, a intermediação brasileira havia levado a um histórico acordo de paz entre Peru e Equador.

Para tentar alcançar seu objetivo e serem autorizadas a abrir um escritório de representação em Brasília, as FARC enviaram um de seus comandantes, conhecido como Hernán Ramírez, para fazer contatos com políticos e diplomatas brasileiros. Ramirez encontrou, entre outros, dezenas e dezenas de deputados e senadores, de todas as forças políticas.

Os esforços das FARC não deram certo. O Itamaraty não aceitou reconhecer diplomaticamente a guerrilha colombiana, embora as Forças Armadas brasileiras – conforme declarou o general Alberto Cardoso em agosto de 1999 – considerassem seriamente a hipótese de que as FARC pudessem ganhar a guerra, e tomar o poder na Colômbia.

Ainda assim, segundo escreveu o Jornal do Brasil em 17/10/99, Arthur Virgílio [àquela altura promovido líder do governo no Congresso] continuou sendo um importante contato das FARC com o governo Fernando Henrique Cardoso. Ao JB, Virgílio explicou que aceitara esta “responsabilidade” com o objetivo de colaborar com o processo de paz na Colômbia. Ainda segundo o JB, Virgílio teria tentado interceder em favor das FARC junto ao Itamaraty, sem sucesso.

O fracasso da solução negociada do conflito na Colômbia

A luta armada na Colômbia tem uma longa história. Surge em 1948, quando teve início o chamado período da “violência”. É um fenômeno com raízes profundas da história e na sociedade colombiana.

A luta armada acentuou-se na última década, opondo, de um lado, dois grupos de esquerda – as FARC [Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia] e o ELN [Exército de Libertação Nacional] – e, do outro, o Exército colombiano e os chamados “paramilitares”, uma organização de extrema direita que, segundo denúncias generalizadas, é responsável pela maioria dos atos violentos do país, e é manipulada por setores do Exército e associada ao narcotráfico.

O conflito é tão grave que o governo colombiano anterior [do presidente Andrés Pastrana] decidiu levar adiante um processo de negociação com as FARC e o ELN para buscar uma solução negociada.

Pastrana encontrou-se nas montanhas com o dirigente da guerrilha, Manuel Marulanda, e propôs discutir um plano de paz. Concedeu um vasto território para os guerrilheiros [igual à superfície da Bélgica] e iniciou conversações com a presença de observadores internacionais.

Em junho de 1999, o presidente da Bolsa de Nova York, Richard Grasso, subiu a serra para encontrar-se com um dos comandantes das FARC, Raúl Reyes. Em fevereiro de 2000, uma delegação da guerrilha colombiana foi até recebida no Vaticano.

Infelizmente, o processo de negociações fracassou. Não cabe analisar as razões desse fracasso, ainda que o lamentemos. Pastrana decidiu reocupar a zona cedida às FARC e partir para o confronto armado com a guerrilha, com o apoio militar dos Estados Unidos. As negociações com o ELN também não avançaram.

Enfraquecido militar e politicamente, o candidato de Pastrana perdeu as recentes eleições presidenciais. O novo presidente, Álvaro Uribe, defende uma solução de força contra a guerrilha.

A omissão brasileira

Durante o período das negociações, o Brasil poderia – e deveria – ter contribuído de forma mais decisiva para obter a paz. O PT insistiu junto ao então ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, para que o Itamaraty assumisse uma posição mais ativa na região.

O PT citou o exemplo do México, que nas décadas de 80 e 90 interveio diplomaticamente nas crises da Nicarágua, El Salvador e Guatemala, tendo contribuído decisivamente para o estabelecimento da paz e da democracia na América Central – e com isso reforçou seu peso político na região. Isto é, o México exerceu de fato uma liderança que o Brasil não soube – e continua não sabendo – exercer.

O impasse atual

Hoje, a situação do conflito é mais complicada, pois a liderança colombiana optou por uma solução militar. Tendo em vista o poderio da guerrilha, a truculência dos paramilitares e o apoio bélico dos Estados Unidos, é provável que o conflito ganhe violência e duração cada vez maiores.

O governo dos Estados Unidos classifica as FARC como organização “narco-terrorista”, parte do “eixo do mal”. Com isso justifica a intensificação do “Plano Colômbia”, através do qual se pretende dar assistência “técnica” ao exército colombiano [helicópteros, armamentos sofisticados e assessores militares, além de treinamento de unidades de elite nos EUA].

Essa iniciativa é extremamente perigosa, já que pode produzir uma “vietnamização” da região, isto é, a extensão do conflito para os países vizinhos, especialmente o Brasil.

As FARC e o narcotráfico

Há informações contraditórias sobre as relações das FARC com o narcotráfico. O governo do ex-presidente colombiano Andrés Pastrana, de início, negou formalmente que existisse essa relação, a fim de permitir o estabelecimento de negociações políticas.

Em seguida, quando as negociações fracassaram, Pastrana acusou as FARC de serem vinculadas ao narcotráfico, e chegou a classificá-las de terroristas.

O PT é enfático no combate ao narcotráfico. Nossos governos têm sido constantemente ameaçados pelo narcotráfico [no Acre, por exemplo] e têm combatido intensamente o crime organizado.

Vale lembrar que mais de 90% da droga produzida na Colômbia é consumida nos Estados Unidos. O que os produtores de folha de coca ganham pela sua produção corresponde a menos de 5% do preço que a droga alcança na ponta, no “mercado” norte-americano.

Conclusões

1. A política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será pautada pela busca de soluções negociadas de todos os conflitos armados, especialmente aqueles no âmbito da América Latina que ameaçam diretamente nossas fronteiras;

2. Não nos cabe interferir em assuntos internos da Colômbia, mas, havendo solicitações nesse sentido, vamos colocar-nos à disposição para colaborar na busca de uma solução negociada do conflito. O governo brasileiro não hesitará em associar-se a outros países para uma ação conjunta que restabeleça a paz na região;

3. O futuro governo não se associará a iniciativas militares na região, nem permitirá que o território brasileiro seja utilizado para qualquer ação desse tipo;

4. Combateremos o narcotráfico, reprimindo a circulação e o consumo de drogas no Brasil, reforçando a vigilância em nossas fronteiras e o combate ao contraba

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