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15/01/2015
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28/01/2015

Ingerência

América Latina e conflitos militares

Marcelo Rech

Em 2008, as tensões entre Colômbia e Venezuela contribuíram para que fosse criada na região, a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e dentro dela, o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). Tais mecanismos puseram fim às tensões colombo-venezuelanas e mantiveram o foco no aprofundamento das relações militares com a geração de confiança.

Paralelamente, a América do Sul vem se consolidando como zona de paz, algo que indiretamente, teve sua partícula de contribuição para que o processo de paz na Colômbia fosse finalmente desatado. Trata-se do mais antigo conflito interno do mundo e não há dúvidas de que o seu prazo de validade está vencido há décadas.

No entanto, a região não se vê livre de problemas que podem envolvê-la em conflitos de caráter bélico. Narcotráfico, contrabando, tráfico de armas e de pessoas, enfim, há um corolário de problemas inerentes a todos os países da região.

Quando Álvaro Uribe era o presidente colombiano, os Estados Unidos fecharam um acordo – Plano Colômbia – que aplicou milhões de dólares naquele país. Tudo para pôr fim pela via militar, às guerrilhas das FARC e ELN.

De fato, o Plano Colômbia foi responsável pelos principais golpes aplicados contra essas organizações narcoterroristas. Foi na gestão de Uribe que as FARC cambalearam.

Hoje, esse apoio é muito menor embora a aliança entre Bogotá e Washington seja mantida no mais alto nível. Em dezembro, John Kerry foi à Casa de Nariño para ouvir do presidente Juan Manuel Santos e de seus negociadores, como avança o diálogo de paz levado a cabo em Havana.

Os Estados Unidos não ignoram o que se passa na região embora deem a ela um tratamento muito distante do mínimo necessário, inclusive em relação ao respeito à soberania dos Estados.

Igualmente, não é novidade que a presença militar norte-americana na região é algo contundente e torna-se uma ameaça real para o envolvimento dos países sul-americanos em conflitos extrarregionais. O alinhamento com os Estados Unidos cobra um preço alto.

O exemplo mais recente no hemisfério diz respeito ao Canadá que se viu vítima de ataques de extremistas do Estado Islâmico.

A presença militar norte-americana na América do Sul precisa ser refletida à luz dos fatos e não das especulações. Existe essa presença e ela é aceita por vários dos países. No passado, nasciam dali os golpes que derrubaram governos legitimamente eleitos.

Um caso mais próximo desta realidade seria a Venezuela. As tensões entre ambos os países tem subido e não é segredo que Washington apoia a oposição contra o regime chavista.

Esta presença poderia sugerir a violação da soberania desses países, mas isso é questionável na medida em que há relativa aceitação deste papel por parte dos Estados Unidos. Recordo-me de quando o Equador decidiu cancelar o acordo para uso da Base Aérea Militar de Manta pelos norte-americanos.

Não foram poucos os países latino-americanos que se ofereceram para receber novas bases militares norte-americanas.

Obviamente, esta presença agrega a CIA, uma vez que todo objetivo militar guarda um propósito político. Para que tais objetivos sejam alcançados, vale inventar arsenais de armas de destruição em massa, espionagem em escala industrial e ingerência explícita em assuntos internos de terceiros.

Além disso, atuam para contaminar relações como aquelas que dizem respeito aos interesses da União Europeia, da Rússia e da China, por exemplo.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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