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As eleições na Bolívia e o que escondem os candidatos

As eleições na Bolívia e o que escondem os candidatos

18 de setembro de 2020 - 08:48:41
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Marcelo Rech

No dia 6 de setembro, teve início a campanha formal para as eleições presidenciais na Bolívia que serão realizadas em 18 de outubro. A campanha começou com a inabilitação final da candidatura do ex-presidente Evo Morales pelo Tribunal Constitucional Plurinacional. Como Morales reside na qualidade de asilado político na Argentina, a lei boliviana veta a sua candidatura. Ele pretendia eleger-se senador por Cochabamba.

As últimas pesquisas indicam que o candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luis Arce lidera com 26,2%, seguido por Carlos Mesa com 17,1% e a atual presidente, Jeanine Áñez, em terceiro com 10,4%. Chama a atenção o baixo desempenho de Luis Fernando Camacho, um dos líderes dos protestos contra Evo Morales e nome forte na região de Santa Cruz de la Sierra, a menos indígena e a mais rica do país. Hoje, ele teria apenas 6,7% dos votos e se mantém em quarto lugar.

Camacho também acusou o golpe quando o Partido Democrata Cristão (PDC), em Santa Cruz, decidiu abandoná-lo para apoiar Mesa. O líder direitista também é alvo de várias denúncias de corrupção. No ano passado, por exemplo, foi iniciada uma investigação parlamentar contra Luis Fernando Camacho por acusações de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos.

Na Bolívia, também lembram que o seu nome está fortemente associado ao escritório panamenho Mossak Fonseca vinculado ao escândalo Panamá Papers. Sob sua liderança, teriam sido criadas três empresas de fachada – Navy International Holding, Media Overseas Corp, y Positive Real Estate -, por meio das quais eram realizadas as operações offshore.

De acordo com as investigações, em 2016, Camacho teria retirado da Bolívia, o equivalente a US$ 990 milhões, cerca de 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Ao que parece, os bolivianos não esqueceram do escândalo e o candidato da direita patina com poucas chances de chegar sequer a um segundo turno.

A situação pode piorar muito para Camacho se Jeanine Áñez decidir retirar-se da disputa em favor de Carlos Mesa. Há negociações nesta direção, embora seja uma equação complicada. Desde o início do processo de sucessão de Evo Morales, se discute na oposição uma forma de impedir que um candidato socialista chegue ao poder. A direita dividida tem facilitado o processo para Arce, que foi ministro de Morales.

Jeanine Áñez também tem perdido terreno por conta da gestão da pandemia, muito criticada internamente. Além disso, em dezembro, ela contratou a firma de lobby norte-americana CLS Strategies, com sede em Washington. A ideia era fortalecer a imagem internacional da presidente interina, mas o Facebook acusa a CLS de estar por trás de várias campanhas de notícias falsas, com o objetivo de entorpecer o debate eleitoral.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contrainsurgencia, e os Impactos dos Direitos Humanos nos Conflitos Armados. E-mail: inforel@inforel.org.