Brasília, 21 de outubro de 2018 - 07h20
As Forças Armadas e o acolhimento aos refugiados venezuelanos

As Forças Armadas e o acolhimento aos refugiados venezuelanos

31 de julho de 2018
por: InfoRel
Marcelo Rech

Em 2016, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, aprovou requerimento para que uma missão parlamentar fosse até o Estado de Roraima para checar a situação dos refugiados venezuelanos que começavam a fugir da crise no país vizinho.

À época, foi possível perceber como a classe política local já tratava do problema de acordo com os seus interesses particularistas. A missão nunca saiu do papel. Autoridades estrangeiras despertaram primeiro para o que poderia se converter em uma crise humanitária sem precedentes.

Com cerca de 500 mil habitantes, Roraima sentiu o peso de receber tantas pessoas de uma só vez. Desse total, 350 mil residem na capital, Boa Vista, que chegou a ter 10% da sua população formada apenas por refugiados. Pacaraima, porta de entrada dos venezuelanos, conta com apenas 12 mil habitantes e também sentiu a pressão sobre os serviços públicos básicos já enormemente ruins.

Em um contexto onde os políticos pretendem apenas lucrar com a desgraça alheia, coube, mais uma vez, às Forças Armadas, o papel de acolher aqueles que migram por total falta de alternativas. Exército, Marinha e Aeronáutica foram demandados e, diferentemente do que ocorre no serviço público em geral, assumiram a missão aliando “o Braço Forte com a Mão Amiga”.

Entre os dias 17 e 21 de maio, estive na região para conhecer melhor a situação e o trabalho daqueles que receberam a incumbência de oferecer tratamento digno aos venezuelanos.

Os militares brasileiros são os grandes responsáveis pelo controle da situação. Com a expertise adquirida no exercício AMAZONLOG 2017, um planejamento foi desenhado com o objetivo de minimizar os efeitos negativos que a onda migratória traria a um dos menores e mais pobres estados brasileiros. Além disso, para atender à demanda, os militares inseriram o comércio local no fornecimento de diferentes insumos, aquecendo a economia.

Abrigos foram construídos para receber homens, mulheres, famílias e indígenas. Áreas degradadas que já vinham sendo ocupadas de forma precária e onde o comércio de drogas era comum, foram totalmente recuperadas.

Com o apoio da Fraternidade Internacional Humanitária, os militares transformaram a realidade, por exemplo, do abrigo Tancredo Neves onde facções criminosas venezuelanas já davam as cartas. O abrigo chegou a receber mil pessoas em pouco mais de 50 m². Apenas deste local, o Exército retirou 21 caminhões de lixo e entulho.

Os abrigos agora oferecem serviço de saúde, aulas de português e espaços para crianças estão sendo organizados. As refeições ficam por conta da Força Aérea Brasileira. Na Base Aérea de Boa Vista, um contingente reforçado por militares voluntários que vieram de várias partes do país, inicia a produção do café às 3h da manhã para atender aos venezuelanos em seis abrigos. O trabalho consome as 24 horas para o preparo de três refeições diárias.

Os alimentos também são adquiridos no mercado local com recursos da FAB e da Operação Acolhida. A Força Aérea conta com uma nutricionista que elabora o cardápio das refeições tanto para os militares quanto para os refugiados. A comida é a mesma para todos.

Há ainda uma grande preocupação com a saúde dos venezuelanos, pois o país vizinho não vacina a sua população há anos. O acolhimento conta hoje com uma triagem que já começa em Pacaraima e há ainda atendimento para aqueles que ingressam com animais de estimação.

A exemplo do que aconteceu no Haiti onde o Brasil comandou as tropas da ONU por quase 14 anos, a forma de atender os venezuelanos tem feito toda a diferença. Dois exemplos marcantes ilustram essa máxima e atendem pelos nomes de Marília Negreiros, 36, capitão-tenente da Marinha, médica endocrinologista baseada na Policlínica Naval de Niterói (RJ), e Marina Thomaz Silva de Cuquejo, 31, pediatra no Batalhão de Operações Especiais de Goiânia (GO).

As duas se voluntariaram para atender aos venezuelanos em uma missão classificada por elas como de “caráter humanitário”. Com três filhos, a Dra. Marília amamentou a menor até a noite anterior à sua viagem para Roraima. Durante o período em que serviram na missão, as duas visitavam seis abrigos onde atendiam os refugiados em todas as suas necessidades.

Nenhum óbito foi registrado até hoje entre os venezuelanos e ambas asseguram que o trabalho impediu qualquer risco sanitário para os brasileiros.

A Dra. Marina sempre quis trabalhar em missões humanitárias e chegou a pensar em ingressar na organização Médicos Sem Fronteira, mas foi no Exército que encontrou o seu lugar no mundo ao lidar com crianças desnutridas, com difteria, diarreia e uma série de parasitas.

Esse trabalho na maioria das vezes é negligenciado, inclusive pelos meios de comunicação que preferem destacar o impacto “militarista” da operação, mas é fundamental no controle de situações extremas. Neste caso particular, há ainda o importante efeito integrador entre as diferentes Forças Armadas.

Associada à Operação Acolhida, está a Operação Controle que também pude conhecer em detalhes. Em se tratando de uma situação delicada como esta, a precisão das informações pode ser crucial. Neste sentido, o foco da Controle está no combate aos ilícitos transnacionais com a vigilância 24h por dia de toda a fronteira brasileira com a Venezuela.

Há patrulhamento em trilhas, nas proximidades dos rios, e em Bonfim, cidade na fronteira com a Guiana. Cerca de 800 militares são empregados neste esforço onde há ainda a implementação das ações cívico-sociais (ACISOS). Mais de 80 mil venezuelanos já foram atendidos apenas nestas operações.

De acordo com os militares, Roraima é o 5º destino dos venezuelanos. Após ingressarem no Brasil, a esmagadora maioria segue para os Estados Unidos, Europa, Colômbia, Chile, Argentina e Trinidade e Tobago. Conforme me disse um general, “apenas os mais desassistidos permanecem e há aqueles que desejam estar próximos da Venezuela, pois pretendem retornar em algum momento”.

Os militares também têm preocupação com a presença em Roraima, de membros do PCC e do Comando Vermelho, mas asseguram que o estado não é rota para o tráfico de armas e que as drogas que chegam não vêm da Venezuela.

Com as eleições se aproximando, a crise dos refugiados venezuelanos vai perdendo espaço nos meios de comunicação, embora o problema persista. No entanto, as Forças Armadas mantêm a guarda no acolhimento dos refugiados, e na atenção às questões de segurança na fronteira. Enquanto isso, os políticos só têm olhos para as eleições.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.

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