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As Revoluções no Mundo Árabe e o Irã: dois cenário

28 de fevereiro de 2011
por: InfoRel



Rafael Seabra



 



Governos, serviços secretos e analistas políticos foram surpreendidos quando a pressão popular levou à queda do ditador da Tunísia, Ben Ali.



 



O exemplo desencadeou movimentos que ganharam força pelo mundo Árabe.



 



No Egito, a população protestou durante semanas, até que o ditador Hosni Mubarack foi obrigado a deixar o poder. A Líbia de Kadafi parece tomar rumos semelhantes.



 



As revoluções em andamento têm como principal componente a insatisfação interna de populações empobrecidas e longamente submetidas ao jugo de ditadores.



 



Há ainda o maior fluxo de informações proporcionado pela internet como fator catalisador. Em uma região como o Oriente Médio, as consequências dos deslocamentos em curso deverão produzir mudanças significativas no atual quadro de forças.



 



O caso do Egito é emblemático. Mubarack deu continuidade ao posicionamento inaugurado por Anwar Saddat, mantendo o tratado de paz assinado com Israel e a aliança com os EUA.



 



Sob seu comando o Egito foi importante ator no diálogo entre Israel e Palestinos e representou contraponto à influência do Irã e de grupos radicais islâmicos como Hezbollah e o Hamas na região. Tal posicionamento e a ajuda financeira norte-americana não contribuíram, contudo, para a sustentação interna do regime, profundamente corrupto e opressor.



 



A queda de Mubarack e a continuidade das revoltas por outros regimes árabes trazem grande indefinição no que diz respeito aos rumos que o Oriente Médio irá tomar e de como ficarão as relações com o ocidente e com Israel.



 



Nesse sentido, um ponto determinante será o impacto das revoltas populares sobre o regime iraniano, com a aparente revitalização do chamado Movimento Verde, iniciado em 2009 após evidências de fraude na reeleição de Mahmoud Ahmadinejad.



 



Se a revolução iniciada na Tunísia atingir apenas o mundo árabe, a queda de regimes como o egípcio favorecerá forças anti-ocidentais, notadamente os radicais islâmicos, antes contidos com brutalidade pelos ditadores.



 



Os EUA e a Europa terão profunda dificuldade em convencer a opinião publica dos países árabes de que apóiam a legitima aspiração destes povos à democracia, uma vez que sustentaram a ordem anterior.



 



Assim, o Irã, cujo regime intenta exportar sua revolução pela região sob a bandeira do pan-islamismo, terá margem para consagrar as revoluções árabes como de libertação islâmica.



 



Haverá desta forma, maior espaço para influencia iraniana no mundo árabe, o que alteraria substantivamente o quadro de forças da região. Nessa hipótese, o equilíbrio militar se deslocaria de modo a reduzir o poder de dissuasão israelense, favorecendo a escalada de tensões.



 



É um contexto de enfraquecimento da solução de dois estados para a Questão Palestina e de declínio da hegemonia americana na região.



 



Outro cenário, inteiramente diverso, se dá na hipótese de a revolução atingir o Irã ao ponto de derrubar o regime.



 



Nesse caso surge situação paradoxal, na qual as revoluções árabes por um lado oferecerão maior liberdade de atuação política para seus radicais internos, e, por outro lado, terão iniciado o fim do modelo de estado proposto pela Revolução Islâmica iraniana.



 



Em qualquer dessas hipóteses os EUA terão dificuldades em lidar com a visível contradição entre seus ideais e o longo apoio que deram aos regimes autoritários em clássica realpolitik. Será possível, contudo, buscar conciliação por meio de valores comuns às democracias.



 



O colapso do patrocínio iraniano aos grupos radicais da região - em especial no Líbano e na Palestina - representaria oportunidade em termos da criação de ambiente favorável à resolução do conflito árabe-israelense e de nova inserção internacional das nações do Oriente Médio.



 



As duas possibilidades aqui elaboradas já se refletem de forma clara nas retóricas de EUA e Irã. A queda de Mubarack foi saudada pelo Irã como o início de revoluções islâmicas que moldarão um novo Oriente Médio.



 



Por sua vez, após ter perdido seu aliado no Egito, Obama valeu-se da onda revolucionária ao declarar que o povo iraniano tem os mesmos direitos que o povo egípcio.



 



O futuro do Oriente Médio é um quadro em aberto, mas é altamente provável que as revoluções árabes, iniciadas de forma autônoma, passarão a sofrer crescentes influências externas, que buscarão conformá-las aos seus interesses.



 



Rafael Seabra é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, economista pela UFRJ e membro do GAPCon

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