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Ascensão e queda dos Serviços Secretos e a China

Ascensão e queda dos Serviços Secretos e a China

Bernardo Wahl Gonçalves de Araújo Jorge

 

Em 19 de janeiro de 2010, foi assassinado, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), um importante líder da organização palestina Hamas: Mahmoud al-Mabhouh.

 

A equipe responsável pela morte de Mabhouh não conseguiu conduzir a operação em completo anonimato: é impossível operar em um ambiente moderno sem deixar nenhuma pista eletrônica.

 

A polícia de Dubai usou as imagens de equipamento de monitoramento de vídeo do aeroporto, hotéis e de um shopping center próximo ao local do ocorrido para traçar os movimentos dos operativos e definir suas identidades, conforme os passaportes que usaram.

 

Eram passaportes muito bem falsificados do Reino Unido, Irlanda, Alemanha e França.

 

Os cartões de crédito usados pelos operativos, aliás, estavam ligados a uma empresa chamada Payonner, cujo CEO (Chief-Executive-Officer) é um antigo membro das Forças Especiais das Forças de Defesa Israelenses (IDF, na sigla em inglês).

 

A descoberta dos passaportes fraudulentos criou um problema diplomático para Israel, considerando que o Mossad estava no topo da lista dos suspeitos.

 

A questão é que muitos detalhes da operação vieram à tona, colocando em perigo o anonimato que deve cercar este tipo de operação.

 

Outro episódio, ocorrido em junho do mesmo ano, nos Estados Unidos, também despertou nossa atenção.

 

Após a visita do presidente russo, Dmitri Medvedev, o FBI (Federal Bureau of Invesatigations) prendeu, em Arlington (Virgínia), dez “ilegais” suspeitos de espionarem para a Rússia, mais especificamente de agirem para o SVR (o Serviço de Inteligência Estrangeira russo).

 

A missão destes operativos era se infiltrar em círculos de poder dos Estados Unidos para tentar recrutar pessoas do alto escalão, as quais forneceriam informações para o centro em Moscou.

 

Para a Rússia, segundo alguns analistas, mais vale investir em espionagem do que em pesquisa e desenvolvimento.

 

Análises preliminares entenderam que, mesmo após vinte anos após o fim da Guerra Fria, o chamado “grande jogo” continua entre Moscou e Washington, e a Rússia ainda usa a coleta de inteligência como uma ferramenta fundamental de sua política externa.

 

Os Estados Unidos ainda são vistos com desconfiança por parte dos russos.

 

Não é à toa: a intromissão em assuntos dos Balcãs, a expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o leste europeu, a criação de um sistema de defesa anti-mísseis na Polônia e na República Checa e o envolvimento de Washington nas crises da Georgia, da Ucrânia e na Ásia Central, não agradaram a Rússia.

 

Operações deste tipo geralmente demoram muitos anos.

 

Para os russos é interessante viver infiltrados nos EUA, considerando a qualidade de vida.

 

Porém, para os norte-americanos, não é interessante viverem infiltrados em outras culturas.

 

Dessa forma, grande parte da inteligência estadunidense vem do monitoramento de comunicações (a chamada inteligência de sinais), principalmente através da NSA (National Security Agency), embora existam muitas outras agências (cerca de 16, sem contar todo o aparato privado revelado recentemente por reportagem do The Washington Post).

 

O que este episódio envolvendo operativos russos mostrou é que os “antigos métodos” ainda sobrevivem mesmo em um contexto no qual as ameaças avançam para o espaço informacional, ou ciberespaço.

 

E é aí que surge a questão China.

 

Pela primeira vez, segundo reportagem do The Boston Globe, o Pentágono tornou público um aviso sobre o uso, por parte do Exército Popular da China (PLA, na sigla em inglês), de especialistas civis em computação para conduzirem ataques cibernéticos clandestinos direcionados à agências do governo norte-americano e à empresas dos EUA.

 

Trata-se de “unidades de guerra informacional” que desenvolvem vírus para atacarem sistemas e redes de computadores, sendo que tais unidades envolvem profissionais de computação civis (ou “mercenários cibernéticos civis”, conforme o The Boston Globe).

 

E é uma ferramenta que será amplamente usada pela China: as novas tecnologias, conforme mostrado pelo jornalista Roger Faligot no robusto livro O Serviço Secreto Chinês, da editora Larrouse (2010).

 

Trata-se de uma leitura bastante densa, cheia de dados e informações, entre elas de que um sinal incontestável de abertura da China é que “livros históricos sobre a inteligência chinesa podem ser comprados em Pequim, na livraria das Edições do Exército Popular de Libertação, ou em qualquer banca da capital” (p. 142).

 

Enquanto o Mossad e o SVR “expõem” seus agentes, a China navega nos meandros e nas sombras da Sociedade em Rede, seguindo sua “ascensão pacífica”.

 

Referências

 

BALDOR, Lolita C. “Pentagon Warns Public About Cyber Attacks by China”. The Boston Globe, August 20, 2010. Notícia produzida originalmente pela The Associated Press.

 

BURTON, Fred; WEST, Ben. “Using Intelligence from the al-Mabhouh Hit”. Stratfor Global Intelligence, March 3, 2010.

 

FALIGOT, Roger. O Serviço Secreto Chinês. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

 

MCGREAL, Chris. “FBI breaks up alleged Russian spy ring in deep cover”. The Guardian, June 29, 2010.

 

MONIQUET, Claude. Briefing: First Lessons from the Affair of the Russians ‘Ilegals’ in the United States. European Strategic Intelligence and Security Center, 29 jun. 2010.

 

Bernardo Wahl Gonçalves de Araújo Jorge é professor Mestre em Relações Internacionais (FMU-SP). E-mail: bernardowahl@gmail.com

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