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Bolívia pode mergulhar em uma crise política

Bolívia pode mergulhar em uma crise política

01 de agosto de 2018
por: InfoRel
Marcelo Rech - 

A Bolívia busca reaproximar-se dos demais países da região, apesar da defesa intransigente feita pelo presidente Evo Morales, dos regimes cubano, venezuelano e nicaraguense, e de ter classificado o presidente Michel Temer de golpista. Morales busca sua quarta reeleição, mesmo após um referendo popular ter rejeitado essa possibilidade.

Para piorar, pesquisa realizada recentemente pela empresa Mercados e Muestras, revela que 70% dos entrevistados não quer mais uma reeleição do presidente por considerá-la inconstitucional. Ao desrespeitar uma norma introduzida por ele mesmo, Morales corre o risco de isolar-se cada vez mais e jogar a Bolívia em uma crise política.

Além disso, o ex-presidente Carlos Mesa sairia vitorioso em um eventual segundo turno das eleições previstas para 2019. Enquanto o presidente receberia 32% dos votos, Mesa ficaria com 48%. Hoje, Morales lidera a corrida com 27%, com Carlos Mesa em segundo com 25% das intenções de voto, configurando um empate técnico.

Em 2016, o governo boliviano promoveu um referendo com a certeza de que venceria e Evo Morales poderia não apenas concorrer pela quarta vez, mas tornaria a reeleição indefinida. Não deu certo e o governo foi derrotado. No entanto, em novembro do ano passado, o Tribunal Constitucional autorizou o presidente a concorrer nas eleições do ano que vem “em respeito aos seus direitos humanos”.

Para o Brasil, as eleições na Bolívia são estratégicas. Os dois países mantêm um acordo de compra e venda de gás natural que é fundamental para a economia brasileira. Não interessa ao Brasil nenhum tipo de instabilidade política no país vizinho.

Por outro lado, o desejo de perpetuação de Evo Morales no poder como parte de uma estratégia castro-chavista é considerado inaceitável. Difícil imaginar que projetos como o de construção de um Corredor Ferroviário Bioceanico, orçado em mais de US$ 10 bilhões, possa sair do papel neste momento.

O Brasil também enfrenta um processo eleitoral e Michel Temer não reúne as mínimas condições para assumir compromissos dessa envergadura. Além disso, há outras prioridades com a Bolívia, como a cooperação em temas de segurança pública, inteligência e defesa, que cobram urgência e resultados.

Os dois países dividem uma fronteira de 3.423 km de extensão onde a presença do crime organizado está consolidada. De acordo com diferentes autoridades de segurança e inteligência do Brasil, também por conta do apoio que os marginais recebem no âmbito do Executivo boliviano.

No plano regional, a Bolívia preside a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), que está paralisada há quase dois anos por falta de consenso em torno de um novo Secretário-Geral. La Paz não consegue pôr fim ao impasse que já provocou a suspensão de participação de seis dos 12 países-membros, incluindo o Brasil.

O país também não conseguiu sua integração plena ao MERCOSUL. O Protocolo de Adesão, aprovado no primeiro semestre na Câmara dos Deputados, está pendente de ratificação pelo Senado brasileiro. E não há pressa nem tempo para tratar do assunto em 2018.

O governo boliviano negou nesta terça-feira, 31, que o país esteja isolado politicamente na região como tem denunciado a oposição ao presidente Evo Morales. De acordo com o ministro de Relações Exteriores, Fernando Huanacuni, o país mantém relações normais com os seus vizinhos e discute temas de cooperação regional com foco na integração física.

Huanacuni informou que o país receberá neste mês as visitas dos chanceleres do Peru, Néstor Popolizio Bardales, no dia 10, e do ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, no dia 20. Além disso, Evo Morales pretende comparecer às posses dos presidentes da Colômbia, Iván Duque, no dia 7, e do Paraguai, Mário Abdo Benítez, no dia 15.

A agenda Brasil – Bolívia estará centrada no projeto de construção do Corredor Ferroviário Bioceanico. Nesta segunda-feira, 30, os ministros de Obras Públicas, da Bolívia, Milton Claros, e da Secretaria de Governo, do Brasil, Carlos Marun, se reuniram em Corumbá (MS), para revisar mecanismos que facilitem a habilitação de um posto fronteiriço entre os dois países, no marco do projeto ferroviário.

Marun assegurou o interesse brasileiro na execução da obra, considerado um dos projetos mais ambiciosos da América Latina. Apesar do pouco tempo que resta ao presidente Michel Temer, o ministro garantiu que “avançaremos neste desafio com determinação e apoio do governo brasileiro”.

Milton Claros acredita que o apoio do Brasil consolida o projeto e que este unirá vários países em torno do desenvolvimento comercial e econômico regional. O trabalho, neste momento, está focado nos temas aduaneiros e de migração.

No dia 5 de julho, o ministro boliviano reuniu-se com o seu colega de Transportes e Comunicações, do Peru, Edmer Trujillo, na cidade portuária de Ilo, com o mesmo propósito de habilitar postos de fronteira e melhorar as condições do porto peruano.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.

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