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Brasil, a nova estrela dos BRICs

Brasil, a nova estrela dos BRICs

Filipe LC Perruso

Quando o termo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) foi cunhado em 2001 pelo banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs para identificar os países em desenvolvimento que “responderiam por mais de 10% do PIB mundial ao final da década” muitas foram as críticas.

Como agrupar tão distintos países em um grupo fictício, que não possuía coordenação, políticas ou sequer objetivos comuns? Por que não México, África do Sul, Indonésia e Turquia? Mais: Por que o Brasil?

De fato, em relatório de Novembro de 2007 intitulado “BRICs and beyond”, o próprio Goldman Sachs questionava a presença do Brasil no grupo perguntando-se se era justificável a presença do ‘B’ no ‘BRICs”.

O País que nas três décadas anteriores crescera a módicas taxas era motivo de desconfiança generalizada. A alta taxa de juros, a alta carga tributária, a falta de infra-estrutura, o alto custo Brasil (em grande parte derivado dos fatores precedentes) entre tantas outras debilidades pareciam fazer da economia brasileira a menos promissora do grupo.

Dois anos e uma crise global depois, não somente o B do BRICs se justifica como se apresenta como a letra mais reluzente do acrônimo.

Ao atravessar a maior crise econômica dos últimos 80 anos de modo considerado satisfatório – o País é considerado um dos últimos a entrar em recessão e um dos primeiros a sair, em apenas dois trimestres.

Igualmente, o mercado acionário brasileiro é o que mais subiu no ano de 2009, gerando incertezas de se esteja criando uma bolha na bolsa Brasiléia.

Igualmente, as perspectivas para a economia brasileira são promissoras. As previsões que diziam que o País teria um crescimento negativo em 2009 foram revisadas para crescimento nulo, para crescimento de 1% e, hoje muitos já predizem crescimento de mais de 1%.

Em 2010, por sua vez, o País deverá retornar a taxas de crescimento próximas aos 5%. Tudo isso, sem precisar recorrer aos recursos do FMI, como d’antes (pelo contrário, o País, após tornar-se credor do Fundo, lhe emprestou US$ 10 bilhões de dólares, no âmbito do aumento de recursos do Fundo acordado no âmbito do G-20).

O ambiente institucional. Porquanto seja comum – e mais que justo – reclamarmos de nossos políticos, nossas práticas políticas e de nossas instituições, fato é que nosso ambiente institucional se encontra muito à frente daqueles dos outros países integrantes do BRIC.

A China, pelo simples fato de ser uma ditadura. A Índia, não obstante se auto proclamar “a maior democracia do mundo” ainda possui monumentais desafios à sua integridade político-democrática; notadamente: movimentos separatistas, uma (enorme) minoria de muçulmanos, e uma gigantesca massa de excluídos a incluir.

A Rússia, após 20 anos da queda do regime soviético, ainda resta a consolidar sua democracia.

A administração de Putin, não obstante tenha devolvido ao País certo protagonismo, também reverteu muitas conquistas democráticas alcançadas no período pós-Soviético; em particular, colocou interventores nos estados, aumentou a interferência estatal na economia e restringiu certas liberdades civis.

O Brasil, por sua vez, a despeito dos enormes desafios, possui práticas e instituições bem consolidadas.

No que se refere à economia, a situação é mais intrincada. O capital é atraído, basicamente, pelo retorno, ou melhor, pela promessa de retorno.

E nos últimos anos, poucos países ofereceram maiores promessas de retorno do que a China.

A gigantesca oferta de mão de obra barata aliada a incentivos governamentais, a uma decidida política de desenvolvimento e de inserção no mercado internacional levou milhares de empresas a se instalarem no país asiático.

Ao mesmo tempo, os enormes excedentes do comércio internacional geram uma poupança crescente que permite a ampla oferta de dinheiro barato para o investimento.

Não obstante as altas taxas de crescimento, as exorbitantes taxas de investimento (alcançando até 42% do PIB), a pujança chinesa escondia uma debilidade que agora se torna mais evidente: a enorme dependência do setor externo.

Com o eclodir da Crise de 2008 e a queda na demanda dos países desenvolvidos, resta à China desenvolver um mercado interno que possa absorver sua oferta.

O plano de estímulo econômico anunciado por Beijing em meio à crise conseguiu, decerto, um sucesso significativo; no entanto, o mesmo se sustenta amplamente no setor de construção pública; o consumo das famílias permanece como um grande limitante ao desenvolvimento do País.

A Rússia, por sua vez, sofre com uma economia amplamente dependente do setor de petróleo e gás que se viu fortemente abalada pela queda de nos preços médios do petróleo nos últimos anos.

Ademais, Rússia, China e Índia possuem sérios desafios de abastecimento; a Rússia, no campo alimentar e a China e a Índia (além, do abastecimento alimentar) no campo energético.

A China que até o início da década de 90 era um exportador de petróleo, hoje já é o segundo maior importador mundial, caminhando a passos largos para a liderança.

O gigante asiático padece, ainda, de diversos tipos de matérias-primas, notadamente o ferro (essencial para alimentar a sua economia de alto crescimento e sua indústria siderúrgica – a maior do mundo).

Estes problemas também são comuns à Índia, que ainda sofre com os constantes blecautes em suas grandes cidades, decorrentes da insuficiente – e ineficiente – infra-estrutura e da escassez de petróleo, gás e carvão.

No que toca à Rússia, a grande debilidade reside no abastecimento de alimentos – problema comum aos três países. O Brasil, por sua vez, se apresenta como o único país do BRIC auto-suficiente (se é que isso ainda existe, independentemente de juízos de valor) agrícola e energeticamente.

Some-se a isso, o fato de a matriz energética brasileira ser considerada uma das mais limpas do mundo – em decorrência, principalmente, do amplo uso da energia hidroelétrica (ainda não totalmente explorada), bem como do amplo uso do etanol; some-se a isso, as grandes reservas de urânio do Brasil, a qual, nas próximas décadas, poderá sustentar uma ampla base de energia nuclear (uma vez mais, independentemente de juízos de valor).

Finalmente, a pergunta, talvez, mas importante é: o que garante que os BRICs manterão o seu crescimento e, de fato, cumprirão a promessa de se tornarem grande potências no novo século?

Bem, a resposta mais simples e verdadeira é: nada. A história não está escrita.

Assim como o Brasil muitas vezes pareceu próximo de tornar real a promessa de País do futuro nada garante que Rússia, Índia e China conseguirão superar os enormes desafios existentes.

A própria Rússia sabe que nada impede retrocessos. O Japão que nas décadas de 80 era tido como a próxima grande potência econômica do mundo, hoje periga cair para a terceira posição, atrás da China, a qual segue inexoravelmente rumo à liderança econômica mundial.

Talvez, a grande diferença seja que agora também o Brasil parece estar rumo a uma posição de destaque no cenário internacional.

Filipe LC Perruso é acadêmico de Direito e de Relações Internacionais em São Paulo, SP. Correio eletrônico: f_perruso@hotmail.com.

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