Brasília, 10 de dezembro de 2018 - 08h03

Diplomacia

29 de dezembro de 2015
por: InfoRel
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por Eliane Oliveira, Jailton de Carvalho e Mariana Timóteo da Costa



BRASÍLIA E SÃO PAULO — As queixas e ameaças de autoridades de Israel de retaliação ao Brasil pela demora na aceitação de Dani Dayan como embaixador em Brasília não sensibilizaram o governo. Ao contrário, a avaliação interna é de que Israel quebrou o protocolo na escolha de Dayan, ao torná-la pública antes da resposta brasileira. Por isso, dificilmente ele receberá o agrément, a aceitação do Itamaraty. Procurados, Palácio do Planalto e Ministério das Relações Exteriores não se manifestaram.



— Os israelenses estão fazendo o pior jogo possível. A maneira como tudo foi feito, a quebra do protocolo, a pressão, isso não funciona no mundo diplomático — afirmou uma autoridade brasileira.



A demora do Brasil na autorização gerou mal-estar diplomático. Dayan comandou o conselho de assentamentos de colonos israelenses na Cisjordânia, o que seria outro fator de desagrado a Brasília.



Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, é preciso que o desconforto termine para que o impasse não atinja o acordo entre Mercosul e Israel, um dos únicos que o bloco mantém fora da América do Sul e que prevê redução de tarifa de importação. De janeiro a novembro deste ano, o Brasil exportou US$ 851 milhões para Israel e importou US$ 24,7 milhões — superávit favorável de US$ 826 milhões.



— Espero que tudo possa se revolver dentro de limites razoáveis — ressaltou Monteiro.



Há algumas semanas, um grupo de parlamentares brasileiros, a convite da Federação Israelita de São Paulo (Fisesp), esteve em Israel e constatou o incômodo com o impasse. O assunto foi tratado numa conversa com o premier Benjamin Netanyahu.



— Sentimos que Israel quer trabalhar, quer comprar, quer gerar emprego importando do Brasil, quer exportar tecnologia de água, de irrigação. E estão surpresos com a atitude brasileira — disse o deputado Darcisio Perondi (PMDB-RS), que estava na viagem. — O embaixador (Dayan) participou da conversa. O Itamaraty continua errando. Perdemos muitos mercados internacionais nos últimos anos por conta dessa gestão pragmática-ideológica.



Também na comitiva, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) defende uma saída negociada:




— A relação entre os dois países tem muito a melhorar, independentemente da questão palestina que, claro, o Brasil defende. Esta tensão é pequena perto de tudo o que os países podem trocar. Foi gafe de Israel? Foi. Mas isso precisa ser superado.




PREJUÍZOS PARA O MERCOSUL



O jornalista Marcelo Rech, analista internacional e de defesa, acha que a decisão de Israel em não indicar outro nome para o lugar de Dayan pode transformar-se numa crise de dimensões internacionais.



— É preciso entender que o Brasil deflagrou a onda de reconhecimentos do Estado palestino, na América Latina e na Europa. Israel não pode se dar ao luxo de perder um aliado como o Brasil, tradicionalmente mais simpático aos palestinos. Com um mínimo de informação, daria para saber que Dayan seria inviável em Brasília. Além disso, não pode interessar a um país, por teimosia, um embaixador que não logre melhorar relações bilaterais.



O GLOBO fez contatos com as embaixadas de Israel e palestina, em Brasília, mas não obteve retorno. A última crise diplomática entre Brasil e Israel foi em julho de 2014. O Itamaraty divulgou nota condenando a ofensiva militar na Faixa de Gaza, e chamou de volta o embaixador em Tel Aviv, Henrique Sardinha Pinto, para demonstrar descontentamento, alegando uso de força desproporcional, atingindo civis, incluindo mulheres e crianças. Autoridades israelenses reagiram. O então porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, chamou o Brasil de “anão diplomático”.



Ontem, um editorial do jornal “Jerusalem Post” saiu em defesa de Dayan e afirmou que “as relações bilaterais entre Israel e Brasil movem-se em direção a uma crise de grandes proporções”. Os britânicos “The Guardian”, “BBC” e “The Telegraph” também repercutiram o assunto, com este último citando o atual porta-voz da Chancelaria de Israel, Alon Lavi, ressaltando a importância da relação entre os dois países. Segundo o israelense “Haaretz”, na quinta-feira haverá uma nova reunião para tratar do caso, na presença de Netanyahu.



Diplomatas de Israel já haviam criticado a indicação do governo, como o ex-embaixador do país na África do Sul, Alon Liel, em entrevista ao “Haaretz”:



— Dayan é o ministro das relações exteriores dos assentamentos.



Segundo o presidente da Fisesp, Mario Fleck, Israel errou ao não consultar o Brasil antes da nomeação. Entretanto, defende que o processo não fique no limbo e frisou que Israel já pediu desculpas:



— É mais difícil para Israel do que para o Brasil. Num momento em que Israel funciona como uma espécie de fronteira entre o Ocidente e países que enfrentam problemas com o extremismo (Síria, Egito, Iraque), o Brasil precisa pensar se não abrirá um precedente perigoso ao colocar um país democrático nessa situação de desconforto.




O presidente da Fisesp disse não acreditar que Israel abrirá mão da indicação de Dayan:




— Por conta do conflito com os palestinos, há muita desinformação sobre Israel, ao que se faz pela paz. Retirar a indicação abriria uma avenida ao boicote por parte de outros países e instituições a tudo que seja israelense. O fato de ter defendido assentamentos não faz dele um terrorista.



Fleck lembra que o Brasil nunca adotou postura semelhante em relação a países com “questões complexas em relação aos direitos humanos, como o Irã e a Venezuela”. Dayan publicamente já disse não acreditar na solução dos dois Estados. Em artigo para o “New York Times”, em 2013, escreveu que qualquer negociação era “fadada ao fracasso” e que “a fórmula dos dois Estados é uma miragem”. Procurados, integrantes de organizações palestinas em São Paulo não foram localizados. (Colaborou: Jaqueline Falcão).


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