Relações Exteriores

Chile
11/04/2006
Cooperação
11/04/2006

Aliança Renovada

Brasil e Chile reafirmam parceria estratégia

Luiz Inácio Lula da Silva

Excelentíssima senhora Michelle Bachelet, presidenta da República do Chile,

Senhoras e senhores integrantes das comitivas do Chile e do Brasil,

Jornalistas presentes,

Meus amigos e minhas amigas,

Quero dar as boas-vindas à presidenta Michelle Bachelet e à sua delegação. É uma alegria recebê-los no Brasil no momento em que Vossa Excelência assume a direção dos destinos do Chile.

Segundo um conhecido chaṿo Рque tem um grande fundo de verdade РChile e Brasil ṇo partilham fronteiras, mas t̻m uma amizade sem limites.

Hoje, essa frase resume o excepcional momento de nossas relações. Nunca nossos países conviveram de forma tão harmoniosa e inovadora.

Nossas relações transpõem a Cordilheira dos Andes para unir o Atlântico ao Pacífico e confirmar a vocação de nossos países e de nosso Continente para a integração.

Antes mesmo de tomar posse, ainda em 2002, visitei o Chile para sinalizar o lugar que seu país iria ocupar na política externa de meu governo.

Houve quem achasse que nossas relações não tinham futuro, por conta das diferenças de nossas políticas comerciais.

Nestes três anos e três meses de minha presidência, pude constatar o imenso potencial de nossa parceria. Reforcei essa percepção na reunião que acabamos de manter.

A visita de Estado da presidenta Bachelet sinaliza nossa determinação de explorar novas possibilidades de cooperação. Em 2005, nosso comércio bilateral ultrapassou os 5,2 bilhões de dólares anuais e, o que é importante, segue crescendo.

Os homens de negócio chilenos confiam no Brasil e investiram mais de 4 bilhões de dólares aqui. Empresas brasileiras também têm explorado as oportunidades do parque exportador altamente competitivo do Chile.

A pujança de nosso comércio se funda em economias em franca expansão, graças a políticas que abriram caminho para um crescimento saudável e duradouro. O aumento das freqüências aéreas e dos fluxos turísticos entre Brasil e Chile é outro indício de que nossos países estão se descobrindo cada vez mais.

Por meio da Aliança Renovada que estamos lançando hoje, reafirmamos compromissos e adotamos novos instrumentos que sintetizam e consolidam esse elevado grau de cooperação e de integração.

Também na esfera regional estamos aprofundando nossa parceria. A negociação Mercosul-Chile sobre o tema de serviços abre caminho para agregarmos valor e competitividade a nossas exportações. O acordo para facilitar a residência de cidadãos dos países do Mercosul reforça os laços do Chile com nosso bloco.

As viagens que Vossa Excelência está fazendo aos quatro membros fundadores sublinham esse seu compromisso.

O Chile e o Brasil acreditam numa América do Sul que tem forte vocação para a convivência democrática e harmoniosa entre povos unidos pela cultura e pela história.

Queremos construir um espaço de estabilidade e prosperidade, capaz de moldar o destino de nossos países, de nossa região e de nossa presença no mundo. Estamos empenhados em avançar projetos de infra-estrutura que promovam a integração e sustentem o crescimento da região.

Queremos aproveitar o potencial produtivo e de complementaridade de uma região rica em recursos naturais e em fontes de energia. Estamos assinando um acordo para estabelecer uma Comissão Mista Permanente em Matéria Energética, Geológica e de Mineração.

Essa iniciativa faz parte de um projeto mais amplo para garantir o suprimento regional de energia necessário para continuarmos crescendo, em forma acelerada, para renovar nossos parques produtivos e enfrentar a grande dívida social que ainda possuímos.

Adotamos, também, instrumento de Cooperação Técnica na Área do Meio Ambiente, no entendimento de que a preservação do patrimônio ecológico é uma responsabilidade que temos em relação ao futuro.

Por todas essas razões, estamos empenhados na consolidação da Comunidade Sul-Americana de Nações. E o Chile deverá sediar a sua próxima reunião ministerial ainda este ano. O Chile vem dando uma contribuição inestimável para tornar realidade a nossa Comunidade Sul-Americana de Nações.

O diálogo que está desenvolvendo com a Bolívia para normalizar as relações bilaterais é simbólico de uma vontade coletiva regional de superar as divisões do passado e avançar na construção de um futuro solidário.

Esse futuro começa com a consolidação de nossas conquistas democráticas por meio de políticas de justiça social e equidade econômica.

Temos certeza de que as eleições deste ano no Continente reafirmarão o empenho maior na redução da desigualdade e no crescimento com distribuição de renda e geração de empregos. Esse é um desafio a mais que aproxima Chile e Brasil, países onde ainda persistem fortes desigualdades sociais.

Queremos transformar essas afinidades em atuação concreta no plano internacional, patrocinando iniciativas no âmbito da Ação contra a Fome e a Pobreza, em cuja origem o governo chileno esteve presente.

Já temos um resultado concreto: a proposta de contribuição solidária sobre passagens aéreas. Também estamos empenhados em favor de um sistema internacional mais solidário, fundado na legitimidade, na justiça entre povos e no diálogo entre nações.

Aceitamos o grande desafio da missão das Nações Unidas no Haiti, que é coordenada por um diplomata chileno e comandada, na parte militar, por um general brasileiro.

Com o apoio do povo haitiano, estamos criando um novo paradigma de cooperação internacional para a solução de conflitos. A realização de eleições livres e transparentes, com participação maciça dos haitianos, é a prova de que estamos no caminho certo.

O país avança na constituição de um governo democrático, em ambiente de respeito aos direitos fundamentais. Não trabalhamos com prazos mas, sim, com objetivos: a responsabilidade da comunidade internacional não termina com a retirada das tropas.

A reunião de países doadores para o Haiti, em 23 de maio próximo, em Brasília, reforçará nosso engajamento em projetos de cooperação técnica e de apoio institucional voltados para a reconciliação e reconstrução da nação haitiana.

Num mundo marcado por uma globalização desigual e por novas ameaças, Chile e Brasil apostam no fortalecimento do multilateralismo.
Seu país falou por todos os latino-americanos e encheu-nos de orgulho quando no início da crise iraquiana defendeu, nas Nações Unidas, soluções de paz e de respeito ao Direito internacional.

Queremos uma ONU mais representativa e, portanto, mais legítima e eficaz. Agradeço, assim, o voto de confiança que significa o apoio, reiterado pela presidenta Bachelet, a que o Brasil torne-se membro permanente do Conselho de Segurança.

Juntamos esforços também em prol de maior equidade e democracia nas negociações comerciais internacionais. Por meio do G-20, estamos lutando para garantir aos países em desenvolvimento o direito de fazer do comércio uma ferramenta para o crescimento sustentado.

Podemos hoje olhar com confiança para nosso futuro comum, graças à dedicação daqueles que sempre acreditaram nesse projeto, como o meu amigo, presidente Ricardo Lagos.

Ele soube combinar a abertura do Chile para uma economia crescentemente globalizada e competitiva com um sólido compromisso sul-americano.

Estou certo de que sua visão e liderança serão fonte de inspiração para a presidenta Bachelet e para todos nós. Quero terminar reiterando minhas congratulações à presidenta Bachelet por sua eleição.

Trata-se de um marco na história do Chile e da América do Sul. Reflete o amadurecimento da sociedade chilena, que passou nestes últimos anos por significativas mudanças culturais e sociais.

Sua vitória é um símbolo e uma homenagem para todos aqueles que resistiram à tirania, como os muitos brasileiros que encontraram, em seu país, asilo contra a opressão. Minha amiga Bachelet superou grandes dificuldades pessoais e soube transformá-las em exemplo e lição de vida.

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