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Brasil – China: os EUA por trás da crise

Brasil – China: os EUA por trás da crise

23 de março de 2020 - 12:25:19
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Marcelo Rech

Na noite da última terça-feira, 17, uma crise diplomática entre o Brasil e a China começou a ser deflagrada. Exatamente quando o país começava a dar mostras de que iria reagir para mitigar os efeitos da pandemia de coronavirus. Acusação para cá, respostá de lá. Réplica e tréplica. A crise promete escalar. Mas, o que estaria por trás desse embate?

Os Estados Unidos viram na chegada de Jair Bolsonaro ao poder, o momento perfeito de implementar uma estratégia capaz de frear a expansão chinesa na região. Não é de hoje que autoridades norte-americanas pressionam os países da América Latina, Brasil incluído, para que não confiam na China.

No ano passado, o Secretário de Comércio, Wilbur Ross, esteve no Brasil e, em reunião com o ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro, afirmou de maneira contundente que o Brasil deveria ter cuidado em suas relações com Pequim. O mesmo foi repetido pelo senador republicano Rick Scott, também no Palácio do Planalto.

Washington vinha monitorando os passos dessa aproximação entre Brasil e China, desde a reunião do G-20, em Osaka, em junho do ano passado, quando Bolsonaro e Xi Jinping acabaram não se vendo. No entanto, em outubro, o presidente brasileiro realizou uma das mais exitosas viagens ao exterior, justamente à China, onde recebeu um tratamento tão especial que retornou com outra imagem do gigante asiático. Ato seguido, Xi Jinping foi o primeiro em confirmar presença na Cúpula do BRICS, realizada em novembro em Brasília.

Esses encontros resultaram na abertura do mercado chinês para diversos produtos brasileiros, especialmente do agronegócio, além de parcerias em áreas consideras sensíveis como ciência, tecnologia e inovação.

Esses eventos incomodaram de forma especial aos Estados Unidos. No início de março, quando esteve em Miami, Bolsonaro foi recebido no Comando Sul, o braço armado norte-americano para o hemisfério. Lá, firmou um dos mais amplos e completos acordos de cooperação em Defesa, após ter sido recebido por Danald Trump.

Um detalhe chamou a atenção: as palavras do almirante Craig Faller, chefe da unidade. Segundo ele, este acordo servirá para frear as ambições da China na América do Sul. E que ambições seriam estas? Quando Cristina Kirchner era a presidente da Argentina, Yang Wanming, era o Embaixador da China em Buenos Aires. Ele negociou o acordo para a instalação de uma base de satélites em Neuquén, na Patagônia argentina.

O projeto integra o Programa Nacional da China de Exploração da Lua e Marte, a base é operada pelo Exército chinês e o acordo prevê a cessão da área por 50 anos. Para os Estados Unidos, trata-se de uma base militar com soberania chinesa bem ao lado do Brasil. Além disso, há elementos de confidencialidade de equipes, atividades e programas, o que gera muitos questionamentos sobre o alcance dos “fins pacíficos” da iniciativa.

Estados Unidos e China travam uma guerra que não é apenas comercial, mas geopolítica. O Brasil poder ganhar muito com esta guerra se souber jogar o jogo, uma vez que não tem cacife para entrar numa bola dividida entre os dois gigantes.

Por isso, a diplomacia é essencial, deve ser discreta e orientada para os interesses nacionais. O Brasil não deve associar-se à política hostil levada a cabo pelos falcões da Casa Branca e do Pentágono.

Agora, os Estados Unidos atuam nas sombras e nos levam a um grau de envolvimento que pode representar prejuízos catastróficos. Os investimentos chineses no Brasil podem ser traduzidos pelos milhares de empregos que geram. Se o Brasil entender que é danoso manter relações com um  regime comunista, precisa, antes, reduzir a sinodependência. Mas terá de avaliar bem o passo a ser dado: normalmente, os Estados Unidos usam os países apenas para o bem estar dos seus interesses.

Marcelo Rech é jornalista e editor do InfoRel. E-mail: inforel@inforel.org.