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Brasil perde referência ética e reserva moral

Brasil perde referência ética e reserva moral

Marcelo Rech

A tragédia que se abateu sobre o Haiti deixa o mundo consternado não apenas pelo número de vítimas fatais, pela destruição e pelo caos, mas também pelas personalidades que perdemos.

O Brasil perdeu 14 militares da força de manutenção da paz que há pouco mais de cinco anos comanda naquele país. Oficiais e soldados destacados para uma das mais difíceis e complexas missões sob mandato das Nações Unidas.

Além deles, perdemos uma referência ética e uma reserva moral ímpar: Zilda Arns que falava de dentro de uma igreja e morreu junto aos pobres do Haiti.

A perda de Zilda Arns dói mais quando nos deparamos com um país mergulhado em seus mensalões, onde a classe (?) política chafurda na lama da corrupção, onde a impunidade sobressai e onde a Justiça é de fachada.

Fica mais complicado entender uma perda como a de Zilda Arns que em 75 anos só fez o bem.

Não se deslumbrou com o assédio da mídia ou dos políticos oportunistas que pretendiam colar suas péssimas imagens à de uma pessoa do bem.

A Pastoral da Criança, criada por ela, é um soco no estômago dos corruptos que embolsam o dinheiro público em meias, cuecas e bolsas.

Os de hoje e os de ontem. Aqueles que estão nos partidos de direita e também na esquerda. Os políticos para quem a única ideologia é o benefício pessoal.

Zilda Arns fez pelas crianças do Brasil mais que qualquer governo jamais fez.

Enquanto os tecnocratas se perdem em toneladas de papéis, carimbos e uma burocracia necessária apenas para a própria sobrevivência, o trabalho de Zilda Arns literalmente salvou vidas.

Lamentavelmente, as tragédias se tornam ainda mais tristes quando essas referências são perdidas.

Precisamos multiplicar o exemplo de Zilda Arns que como Irmã Dulce, transformaram realidades.

O Brasil é um país onde os estadistas, líderes e ídolos, são fabricados muito rapidamente. Basta um único e isolado gesto para que determinadas personalidades sejam alçadas à fama e a glória.

No entanto, os verdadeiros heróis da Pátria são os milhões de anônimos que a cada dia sobrevivem apesar do governo, dos políticos e da parafernália que criam para enriquecerem ainda mais rapidamente.

São os brasileiros que apesar de uma taxa de juros descomunal e obscena, pagam em dia os seus compromissos enquanto uma casta de ricos políticos prefere sonegar, superfaturar, tirar proveito próprio.

Zilda Arns faz muita falta. Seus gestos simples e verdadeiros são raros.

E a cada mentira propalada por nossas autoridades (em quê?), sentiremos essa dor mais profundamente.

Lamentavelmente, a mesma mídia que espetaculariza a dor e o sofrimento, logo esquecerá a brasileira despojada que fazia o bem gratuitamente.

E aos poucos, o Haiti voltará a ser o Haiti, esquecido e abandonado.

Marcelo Rech é o editor do InfoRel. Correio eletrônico: inforel@inforel.org

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