Brasília, 29 de setembro de 2020 - 04h06
Brasil teme que crise na Argentina afete MERCOSUL e acordo com UE

Brasil teme que crise na Argentina afete MERCOSUL e acordo com UE

29 de agosto de 2020 - 14:18:20
por: Marcelo Rech
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Brasília – O governo brasileiro teme que a crise econômica argentina afete o comércio bilateral, no âmbito do MERCOSUL e as negociações finais do acordo com a União Europeia, já bastante ameaçadas pelas críticas da Alemanha, França, Bélgica, Irlanda, Áustria e Luxemburgo.

Nesta semana, o vice-presidente Hamilton Mourão, afirmou que a crise na Argentina tem gerado “um momento particularmente complicado para o MERCOSUL” que põe em xeque o acordo comercial alcançado com o bloco europeu, onde crescem, ainda, as críticas ao Brasil por conta dos incêndios na Amazônia.

“O MERCOSUL está vivendo um momento particularmente complicado porque o nosso grande sócio comercial, que é a Argentina, vive uma crise contínua”, destacou Mourão, deixando claro que não se referia às diferenças ideológicas entre Jair Bolsonaro e Alberto Fernández.

Em 2019, a corrente de comércio totalizou US$ 20,34 bilhões (-21,6% em comparação ao ano anterior), regredindo ao patamar de 2006. Cumpre assinalar, porém, a forte composição industrial da pauta de exportações (93,8%) e de importações (79,5%). O Brasil exportou US$ 9,79 bilhões (-34,3%) e importou US$ 10,55 bilhões (-4,5%), resultando em déficit comercial de US$ 760 milhões.

No ano passado, a Argentina foi o quarto principal destino de nossas exportações (4,34% de participação) e a terceira principal origem de nossas importações (5,95%). Após ter o Brasil acumulado superávit de US$ 16,4 bilhões no período 2016-2018, em 2019 observou-se déficit pela primeira vez desde 2003. A recessão econômica argentina iniciada em 2018 afetou o consumo interno e o comércio exterior, reduzindo os fluxos comerciais com o Brasil, particularmente as importações.

Em uma teleconferência organizada pelas câmaras de comércio dos dois países, Mourão aproveitou para reclamar que empresas brasileiras estão sofrendo com os atrasos na renovação de licenças de exportação, o que estaria travando o ingresso de alguns produtos brasileiros na Argentina, principalmente o setor automobilístico que tem no país vizinho, um dos seus principais mercados externos.

Na avaliação do vice-presidente, esses problemas podem impactar negativamente nas negociações finais do acordo de livre comércio do MERCOSUL com a União Europeia. “Esse grande esforço de negociação do ano passado pode começar a fazer água”, disse.

Hamilton Mourão também reconheceu que dentro da União Europeia existem interessados em fazer com que o acordo, negociado por 20 anos, naufrague. Entre esses interessados, estariam “agricultores incapazes de competir com o Brasil e os ativistas ambientais que creem inocentemente que a Amazônia está sendo destruída e que isso repercute no aquecimento global”, afirmou.

O governo brasileiro está considerando eliminar temporariamente as tarifas de importação de arroz, milho e soja, disse o ministério da agricultura na quinta-feira. A medida visa combater a inflação, já que os preços dos três produtos subiram recentemente.

Tarifas

O Brasil analisa eliminar temporiamente as tarifas sobre a importação de arroz, milho e soja. O assunto será tratado em setembro. As importações do MERCOSUL, que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, já estão isentas.

A medida não teria grande impacto na Argentina, pois os principais produtos agrícolas que o país exporta para o Brasil são trigo e cevada. Segundo dados oficiais, em 2019 a Argentina exportou apenas 95.925 toneladas de milho e 116.097 toneladas de arroz para o vizinho, e não registrou embarques de soja.

No entanto, para a Câmara Argentina de Exportadores e Processadores de Grãos, qualquer redução da Tarifa Externa Comum deve ser negociada no âmbito do MERCOSUL.