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Buzanelli deixa Abin e prega profissionalismo

Buzanelli deixa Abin e prega profissionalismo

Nos próximos dias, o novo diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o ex-superintendente da Polícia Federal, Paulo Lacerda, deverá assumir o cargo no lugar de Márcio Paulo Buzanelli, o primeiro servidor de carreira da agência a ascender ao posto.

Em sua última entrevista (Exclusiva), Márcio Buzanelli recebeu o InfoRel num dos prédios da agência na manhã desta quarta-feira, 12, quando reconheceu sua frustração por deixar o cargo com uma série de projetos inconclusos, admitiu a falta de apoio político e manifestou seu otimismo em relação ao futuro da atividade de inteligência no Brasil.

Marcelo Rech

Com 30 anos no serviço secreto, o senhor atingiu o ápice da carreira ao dirigir a Abin. Como avalia essa trajetória?

Olhando em retrospectiva, eu me sinto bastante honrado de ter assumido este cargo, particularmente porque eu fui o primeiro do quadro de servidores da instituição a assumir. Antes, essa posição não foi em nenhum momento ocupada por companheiro nosso.

Quando eu assumi, eu me lembro que no discurso de posse, eu mencionei que esta era uma disposição evidente do governo, de prestigiar essa categoria, essa classe de servidores. E, sempre assim, entendi o gesto. A carreira é construída aos poucos, com características muito peculiares, um trabalho anônimo, sempre silencioso.

Não existem louros, os vencedores não são saudados. É uma peculiaridade da carreira não ser conhecido. Uma vitória, um trabalho bem feito, tudo fica restrito a um grupo muito pequeno de pessoas. Não existem grandes eventos para saudar, é algo muito pessoal, não há compartilhamento.

“O fator humano”, de Graham Greene, trata de uma faceta particularmente importante e muito pouco abordada pelos autores do gênero, sobre o que acontece depois do expediente com um oficial do serviço de inteligência.

Ele não pode compartilhar com familiares, assuntos do serviço, não pode aparecer, ser reconhecido. Tudo isso cobra um preço alto, que depois de 30 anos, olhando em retrospectiva, a gente percebe como vai mudando, se ajustando.

Eu me sinto muito gratificado em ter conseguido chegar a ocupar esse cargo e principalmente por ter, ao longo desses 30 anos ter tido condições de observar, executar, fazer correções. Nos últimos três anos, um como diretor de inteligência e dois como diretor-geral, tive a oportunidade de, dentro dos limites do possível, executar algumas ações no sentido de prover melhorias de há muito necessárias.

Ao indicar um delegado da Polícia Federal para o comando da Abin, o governo estaria recuando em sua política de valorização da carreira?

Essa é uma leitura inicial que ocorre com todos. Mas eu quero entender que o governo, ao colocar um funcionário público de outra carreira, mas considerado bem sucedido nesta outra carreira, que ele pretende demonstrar que está disposto a promover algumas mudanças que nesta outra carreira, nesta outra instituição, foram possíveis.

Inicialmente a minha leitura foi esta que ocorre à todos. É frustrante, sem dúvidas! Mas depois me pareceu que o governo quer colocar alguém de sua confiança, indepentendemente da questão de ser ou não da carreira.

Dentro dessa ótica, qual o futuro do serviço secreto com as mudanças anunciadas? Como foram percebidas pela comunidade de inteligência que passa a ser comandada por alguém que pertence a uma outra corporação?

Ainda não foi possível mensurar isso. Nós estamos num momento de análise, estudo e observação. A comunidade de inteligência é bastante cautelosa, espera para ver o que vai acontecer e só depois, extrair as conclusões.

Tendo em vista ser uma pessoa que tem um passado conhecido, embora em outra instituição, não é vista como em momentos anteriores. É de fora do quadro, mas é de dentro do serviço público, uma pessoa que vem com uma biografia positiva e que também já é bem conhecido dentro dos órgãos de segurança. Não vai ser rechaçado, pelo contrário, será bem aceito.

A Agência Brasileira de Inteligência é vista como um exemplo de serviço secreto pela comunidade internacional. No entanto, internamente os conceitos são negativos. Por quê?

Esse é um fenômeno interessante e que merece ser estudado. Eu atribuo a uma crise de imagem que a Abin projeta dentro do Brasil, mas que buscamos trabalhar para mudar. Ela é devida a uma cultura, ao pouco conhecimento, a uma percepção equivocada por parte da sociedade e a atribuição à Abin, de algumas visões que não correspondem à realidade atual desse órgão.

E aquilo que a gente costuma dizer: o passado que não passa. O passado que não fica para trás e que é constantemente evocado. E cooperam para isso alguns formadores de opinião que têm uma imagem equivocada da instituição e a vêem como órgão de segurança que em algum momento, um antepassado desta instituição foi, se esquecendo de que é necessário sempre contextualizar historicamente fatos e situações.

Não dá para compreender fatos do passado usando os instrumentos de análise do momento presente, são outros. A visão do momento presente não compreende fatos do passado. Tem que se reportar ao passado para também entender o que ali aconteceu. Então isso acontece aqui com a nossa instituição.

Como se ela ainda tivesse culpa, herdasse uma culpa coletiva, um pecado herdado como no exemplo que nós conversamos outro dia de os turcos de hoje serem culpados pelo genocídio Armênio.

Primeiro, a questão do genocídio Armênio é uma questão que tem que ser discutida com mais sinceridade. Segundo, por que isso aconteceu há exatos 93 anos. Não eram turcos os que fizeram, eram otomanos, era um outro regime. E uma série de circunstâncias envolvidas e a Turquia de hoje é um outro país. É como Heráclito dizia, “não se atravessa um rio duas vezes no mesmo lugar”.

O rio é o mesmo, mas a água é outra. Os turcos de hoje não são os turcos que fizeram o genocídio. Assim também a nossa instituição é completamente diferente do seu antepassado histórico que foi por sua vez bastante diferente dos antecedentes também.

O serviço de inteligência que o presidente Juscelino reorganizou tinha um outro caráter. Ora, desse ninguém se lembra! O serviço criado em 1946 pelo presidente Dutra, ninguém associa à Abin. Por que a Abin é associada ao SNI?

Em primeiro lugar, há uma falta de perspectiva histórica, uma dificuldade de se entender os contextos diferentes em que esta história se produziu e uma indisposição de procurar entender em profundidade, compreender, estudar o papel do serviço de inteligência numa democracia, em Estados democráticos e modernos como o nosso.

E isso é confundido. A Abin não é compreendida e isso não é uma lamentação é uma constatação. E ao perceber isso, nós procuramos atuar sobre esse problema. De que forma?

Com os instrumentos à disposição, com alguma ousadia e com uma mudança cultural. Eu via a nossa instituição como um ser introvertido. Quase em posição de feto, encolhido sobre o umbigo e olhando para ele. Evitando olhar extra-muros e aparecer.

Nós tentamos trabalhar nessa questão da crise de imagem e também na questão da auto-estima do servidor. Hoje, é uma Abin diferente. Trabalhando na crise de imagem nós procuramos uma série de iniciativas para mostrar que a Abin é uma instituição diferente.

Claro que é um trabalho dentro do alcance de uma instituição pequena, trabalhando num seguimento estudantil, na universidade, procurando que essa juventude fosse propagadora não só aqui na sede em Brasília, mas nos Estados.

Esta é a imagem que a Abin quer projetar. Não é mais como ela é vista. Trabalhando com estudantes de jornalismo, enfim. Isso tem um poder de multiplicação. É evidente que não tão grande quanto uma campanha de divulgação que poderia ser feita.

A edição de uma série de publicações destinadas a diferentes públicos, a exposição buscada, a execução de seminários abertos, seminários internacionais, encontros internacionais, enfim, vários setores. A atração de segmentos diversos também no Congresso Nacional, senadores e deputados.

Assim trabalhou a Abin nesses dois anos para gerar mudança dessa imagem que ela projeta. E no campo interno, um fortalecimento da relação entre o servidor e a instituição que sempre foi muito quebradiça, sempre foi distante, desgastada.

Nós procuramos aproximar um pouquinho mais para que o servidor tenha orgulho de pertencer à Abin. Tem que gostar do lugar onde ele trabalha, por isso algumas medidas foram executadas, outras se encontram em execução e algumas a serem executadas nos próximos meses. Então, as pessoas têm que gostar daqui. Têm que gostar do que fazem e uma série de mudanças foram promovidas neste sentido.

Durante este período muito se explorou os rachas dentro da agência. A velha guarda, aqueles que pertenceram ao antigo SNI que não estariam satisfeitos com os novos oficiais, que vieram por meio de concurso público. Como foi lidar com isso, trabalhar estas duas culturas, o velho e o novo, em defesa da instituição e da atividade fim?

Esta foi uma busca incessante, de evitar que aflorassem sentimentos que são nocivos ao fortalecimento da instituição. Um deles é esse, criar segmentos grupos, igrejas, enfim, procuramos sempre sufocar isso. De que forma?

Mostrando que as oportunidades são iguais. Nesta administração, pela primeira vez assumiram diretorias, jovens egressos de concurso. Ou seja, um hiato de carreira bastante rápido na composição dos cargos de direção.

Nunca procurei verificar se a pessoa é de concurso, se não era de concurso, se era do SNI ou se entrou depois, mas sempre pela competência. Tem os cursos de formação e aperfeiçoamento, então está apto a assumir chefias.

Hoje o nosso oficial de ligação nos Estados Unidos é um jovem egresso de concurso, ele tem o quê? Doze anos no serviço e já assumiu várias funções aqui, de chefia, era um chefe aqui da área externa e hoje é oficial de ligação.

O que os leva a ascender, ou ocupar postos é a própria carreira, não se fazendo distinção de origem, de forma alguma. Assim como também não fazemos distinção entre o requisitado e o orgânico. Todos têm o tratamento igual, têm a mesma identidade.

Agora, evidente que privilegiando o orgânico porque, afinal essa é a casa dele, é a carreira dele. Bem entendi que havia isso e procurei trabalhar para eliminar essas diferenças. O que eu vejo que distingue um do outro é a competência, o comprometimento.

No início deste ano, nós impusemos uma política de capital humano, bastante discutida e o eixo desta política é o mérito. A meritocracia no serviço público é uma meta. Tem que ser atingida. Claro que se trata de quebrar barreiras culturais que são difíceis de serem forçadas.

Aqui, aos poucos, nós estamos conseguindo isso. Era a nossa intenção agora em novembro fazer uma grande mudança. Já estava programada a estruturação de uma área de recursos humanos efetiva para tratar desta questão e para conduzir esta política de capital humano de forma efetiva.

Então, as atribuições de missões, enfim, tudo depende de uma questão de mérito. A nossa carreira, como propusemos ao Ministério do Planejamento, ela nos leva a uma figura piramidal em que só atinge o topo aqueles que têm mérito colecionado, que ao longo da carreira demonstraram disposição, comprometimento, e não outro fator.

O senhor não acredita que dentro desta lógica, aquele que está hoje na carreira, que ingressou por meio de concurso público, passou por todos os cursos de formação e está passando, exerceu funções e executou missões importantes, vê que de repente o novo diretor é de uma outra corporação, isso não cai como um balde de água fria naquele que aspirava um dia poder chegar ao posto que o senhor chegou?

Certamente. Entendo que é uma aspiração legítima do oficial de inteligência, ascender a postos importantes, receber missões. Nós costumamos dizer que as pessoas aqui não são escolhidas para assumirem postos, mas recebem desafios.

E estes desafios são cada vez gradualmente mais complexos ao longo da carreira. Então, o desafio de ser um adido no exterior, de ser um oficial de ligação é uma aspiração legítima, assim como o desafio de assumir um cargo de alta direção.

É legítimo se tornar o chefe um dia. Assim é na Polícia Federal, assim é em alguns dos serviços mais importantes, se espera que seja assim. A vida das instituições tem ciclos.

As instituições e as organizações são constituídas por pessoas, têm ciclos vitais também, altos e baixos. Eu tenho certeza que amanhã, quando atingirmos um estágio em que a Abin será efetivamente consolidada, todas essas mudanças ocorrerão dentro da instituição.

Nesses dois anos como diretor-geral, qual foi a sua principal prioridade, o que pôde ser implementado e o que ficou pelo caminho que o senhor lamenta?

O Brasil havia, no começo do período republicano, se descuidado de algo muito importante para o Império, que era a esquadra. E algumas pessoas que tinham uma visão de mundo um pouco transcendente, entendiam que um país com as dimensões do Brasil, tinha que ter uma esquadra, não tinha vias interiores.

Havia uma corrida armamentista entre Alemanha e Inglaterra, entre a Rússia e a Alemanha, entre a Rússia e a França, o Império austro-húngaro também participava.

E essa corrida se notabilizava pelo fortalecimento de suas esquadras. Rui Barbosa, procurando mostrar que o governo não havia acordado para isso, fez um célebre discurso no qual destacava que as esquadras não se improvisam.

Então, parafraseando Rui Barbosa, não se improvisam serviços de inteligência. Serviços de inteligência têm de ser constituídos como tal. Os objetivos do serviço de inteligência também não são improvisados. Para quê um serviço de inteligência?

O governo e a sociedade têm de discutir isso. Isso foi em 2005. Ontem (11 de setembro) transcorreram seis anos dos atentados nos Estados Unidos. Para quê um serviço de inteligência?

O Brasil é um ator importante no cenário internacional e tem que contar com instrumentos adequados para exercer esse protagonismo, pelo menos regional. Um dos instrumentos é um serviço de inteligência.

Eu fui nomeado em 25 de agosto, mas propositalmente pedimos para que a posse fosse no 6 de setembro, Dia do Oficial de Inteligência, falamos das nossas prioridades, como o combate à crise de imagem, resgatar a auto-estima dos servidores da Abin que era baixíssimo, reestruturar o serviço de inteligência, direcioná-lo para um foco; assegurar com isso uma presença maior na Amazônia, principalmente, priorizar determinados temas como prevenção ao terrorismo, contra-espionagem, combate a biopirataria, a prevenção de conflitos sociais, e o que fizemos nestes dois anos foi perseguir esses objetivos.

Transformar estruturalmente a Abin, criar condições objetivas e subjetivas para transformá-la numa instituição com valores morais, principalmente, e projetar uma imagem adequada da agência, de forma que a sociedade gradualmente veja a necessidade e importância de ter esse instrumento.

Não dá para enfrentar tantos desafios sem ter um serviço de inteligência confiável, ágil, jamais onisciente. O papel que nós pretendemos para o serviço de inteligência não é o da onisciência, mesmo porque, este não é o Estado onipresente como era no período 1964 – 1985.

Não é o grande Leviatã, como foi aquele. Este é um Estado menor, então tem que ser focado. Agora, cobrar onisciência de um instrumento como este que não tem os meios, nem o objetivo de ser onisciente, também é inadequado. É falta de compreensão.

De que instrumentos o senhor mais se ressente e que impedem a Abin de cumprir sua missão?

Basicamente meios operacionais. Por uma circunstância da lei, a Abin não dispõe dos meios operacionais. A Lei 9.296 de 1996 trata da escuta ambiental e interceptação telefônica e comunicações para a obtenção de provas judiciais. E, ela trata daquilo que a Constituição bem previu em 1988.

A Abin não está na Constituição porque não existia. Essa é uma lacuna que tem de ser preenchida. Não adianta, no momento em que vivemos, descuidar. Não é possível não cuidar disso. Quando se faz uma investigação de inteligência é preciso que seja completa, que os recursos sejam exauridos e os meios todos empregados.

Não adianta fazer um acompanhamento visual de um suspeito de terrorismo, por exemplo, e não de forma integral desvendar tudo que essa pessoa é, faz ou pode fazer. Isso inclui determinadas técnicas operacionais que à Abin não é facultada. Isso é necessário. Outros serviços fazem.

É claro que com todos os freios e contrapesos necessários, com autorização judicial, controle do que é buscado para evitar exposição e invasão de privacidade não pertinente ao objeto da investigação.

Também faltaram recursos que só vieram agora nesse segundo ano, para emprego em 2008. Nós tivemos nos últimos cinco anos, o mesmo orçamento. Sempre R$ 34 milhões, embora os custos operacionais tenham aumentado.

Nós passamos no último ano para R$ 44 milhões e agora, R$ 54 milhões, o que nos permite executar uma série de atividades como a recuperação dos equipamentos obsoletos, a depauperação dos edifícios e instalações.

Nunca tivemos condições de fazermos reformas aqui. E hoje o serviço de inteligência não tem a feição que tinha há 20 anos. Ele precisa ser ajustado e as coisas devem se ajustar à modernidade. Agora que nós vamos poder investir em algumas áreas que não pudemos antes.

Além de recursos, faltou apoio político para o senhor?

É uma questão que merece uma reflexão profunda. Talvez eu faça isso nos próximos meses e extraia as conclusões. Como sou um quadro do serviço, sou um técnico, não transito com a desenvoltura que talvez devesse, em determinados segmentos políticos.

O órgão de inteligência deve até evitar isso para não quebrar alguns dos compromissos morais que tem. Mas, talvez quando nós precisamos que tivesse aqui um aumento salarial digno para evitar a evasão de quadros importantes, talvez devêssemos ter recebido cuidados adicionais para evitar que essas coisas acontecessem.

Em nenhum momento me ressenti…mas acho que poderíamos ter tido um apoio político maior, mas…nesse momento não consigo ter nenhum tipo de ressentimento….

O que o senhor espera que seja mantido com a nova administração?

Como sou um otimista, espero que tudo. Espero que tudo seja mantido, melhorado, corrigido. Entendo que quem chega, chega com suporte, esse sim com suporte político porque o próprio presidente foi quem indicou o novo diretor. Claro que não deve vir com as mãos vazias.

Como temos uma série de projetos que estão no governo, imagino que tudo seja acelerado para ser concretizado no curto prazo. Isso é benéfico, é positivo. Entre outros, temos o nosso Plano de Carreira, uma reivindicação antiga.

A Abin não tem o que considero inacreditável uma instituição do Estado não ter: um Plano de Carreira. Propusemos isso há alguns meses atrás, muito semelhante à maioria das carreiras de Estado que nós temos.

Apresentamos uma proposta de emenda constitucional, inserindo a Abin no texto da Constituição, possibilitando à agência realizar escutas ambientais e interceptação de comunicações, sob autorização judicial, para determinados tipos de atividades, basicamente a contra-espionagem, a prevenção ao terrorismo e a segurança corporativa.

Também institui formas de proteção e sigilo da identidade do agente. São necessidades que um serviço de inteligência tem principalmente este com referência à proteção da identidade, pois os agentes não podem ser expostos.

Essas propostas eu acredito que serão alavancadas. Há outras medidas que são mais internas, de fortalecimento da estrutura, a melhoria das condições de trabalho das diversas unidades.

Renovamos toda a frota de veículos, infra-estrutura tecnológica, computadores, sistemas de comando e controle, um centro de monitoração de crises que funciona 24 horas por dia, um centro de fontes abertas.

Ampliamos nosso relacionamento com serviços estrangeiros. Hoje temos convênios com mais de 70 serviços, uma expansão de quase 100% em relação ao que tínhamos em 2005.

Valorizamos a simbologia da instituição com a adoção de uma bandeira, hino, distintivos, brasões, identidade, porte de armas, que a Abin não tinha. A relação entre a instituição e os servidores não deve ser meramente mercantilista, de contratante e contratado.

Uma instituição é muito superior a isso. Gostaria que fosse mantido o compromisso moral, que os servidores entendem como algo importante.

Uma das brigas que o senhor travou foi para permitir o trabalho dos oficiais de ligação em outros países. Esse projeto deve ser ampliado?

Primeiro temos que fortalecer isso. O que nós conseguimos tem que ser fortalecido e obtidos aqueles para os quais já temos autorização e ainda não conseguimos estabelecer, como Paraguai e Bolívia.

As outras já estão em fase de consolidação. Entendo que a nossa área de interesse é a América do Sul, onde devemos consolidar nossa presença antes de almejarmos outras coisas.

A África Meridional é importante, a África do Sul, Angola, Namíbia e Moçambique, que é um passo que vamos tentar no futuro, mas precisamos consolidar uma parceria melhor aqui na América do Sul.

O trabalho dos oficiais de ligação e dos adidos é basicamente este de favorecer a interação, a integração, a ligação com serviços congêneres e o tratamento de determinados assuntos num canal privilegiado, rápido, que assegure as oportunidades e sempre dentro do princípio da reciprocidade.

A presença de alguém nosso no exterior, ajuda a instituição a compreender fatos que ali ocorrem. É claro que não baseamos o conhecimento que o Brasil deve ter desses países, unicamente no trabalho do oficial de ligação ou do adido, que têm atividades abertas. Ele é reconhecido, se apresenta ao serviço anfitrião.

Entendo que foi um bom passo, pois almejávamos isso há muitos anos e conseguimos destravar, fruto de um relacionamento muito construtivo com o Ministério das Relações Exteriores.

Trabalhamos muito proximamente com o Itamaraty em algumas áreas e eles puderam perceber a seriedade, o profissionalismo e comprometimento do nosso pessoal, o que ajudou bastante.

O senhor deixa a Abin frustrado?

Claro! Muito! Frustrado porque não consegui completar essas reformas que eu almejava. Frustração de todo aquele que antes de completar o seu trabalho, o destino opera e impede que a obra seja concluída.

Fico frustrado não porque outro fará, mas porque eu deixei de fazer. Eu tenho um compromisso com a obra. Quando essa relação é fortuita, eventual, é um sentimento, mas quando essa relação é duradoura, profunda, antiga, o sentimento de frustração é muito maior.

É uma relação interrompida abruptamente e isso marca mais. Mas, como somos profissionais bem entendemos o funcionamento da máquina administrativa. Isso faz parte da vida de todos nós.

Em função de quem me substitui, no final vai ser benéfico para a instituição por que essa pessoa vem trazendo algo. É bem-vindo aquele que vem para fazer as mudanças que se esperam. Sem nenhum espírito de renúncia, mas essa é a percepção dos fatos.

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