Brasília, 18 de setembro de 2020 - 07h47
Câmara de Comércio debate relações dos árabes com o Brasil na pandemia

Câmara de Comércio debate relações dos árabes com o Brasil na pandemia

30 de junho de 2020 - 15:03:15
por: Marcelo Rech
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Brasília – No último dia 24, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira, promoveu debate com vários embaixadores que debateram o estado das relações entre os países árabes e o Brasil em plena pandemia. Alguns projetos que envolvem Brasil e países árabes ficaram em suspenso ou foram adiados em função da Covid-19, mas as relações entre as duas regiões seguiram se desenvolvendo em vários aspectos no período e o comércio com determinados mercados até aumentou.

De acordo com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira, a pandemia afetou a implementação de uma linha aérea direta entre Brasil e Egito e provocou o cancelamento de viagens para aproximação diplomática entre os países, mas, por outro lado, a importação de fertilizantes árabes pelo Brasil seguiu firme, os jordanianos compraram mais produtos brasileiros, e o Brasil se fortaleceu como fornecedor de alimentos dos Emirados Árabes.

A entidade considerou extremamente positiva a participação de 12 diplomatas que apresentaram a realidade imposta pela crise da Covid-19. A conversa foi mediada pelo vice-presidente de Relações Internacionais da Câmara Árabe, Osmar Chohfi, e pelo secretário-geral, Tamer Mansour. Também participaram o presidente da Câmara Árabe, Rubens Hannun, o decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Ibrahim Alzeben, e o subsecretário de Negociações Bilaterais no Oriente Médio, Europa e África do Itamaraty, Kenneth da Nóbrega.

Rubens Hannun foi claro ao se dirigir aos embaixadores: “Vocês têm essa extrema responsabilidade, essa missão da diplomacia, e da diplomacia econômica, na qual têm que entender do país que representam e do país onde estão sediados, entender da cultura, dos negócios, da economia, dos problemas sociais, das soluções, e fazer esse equilíbrio, fazer essas relações funcionarem”, defendeu.

Egito

O ex-ministro das Relações Exteriores e Embaixador do Brasil no Cairo, Antonio Patriota, informou que uma linha aérea direta entre São Paulo e o Cairo encontra-se em fase de implementação pela companhia EgyptAir e não fosse a Covid-19, já poderia estar sendo implementada. Patriota também destacou as boas perspectivas para a economia do Egito, apesar da pandemia. “É uma das poucas economias da região e do mundo que não vão entrar em crescimento negativo”, afirmou, em referência ao ano fiscal 2019/2020, que se encerra neste mês e ao ano fiscal seguinte. O país implementou uma série de reformadas econômicas recentemente apoiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Embaixador do Egito em Brasília, Wael Ahmed Kamal Aboul Magd

 

Patriota acredita, no entanto, que é preciso dinamizar e tirar melhor proveito da relação Brasil-Egito. O país árabe tem um acordo de livre comércio com o METCOSUL, mas os principais produtos que o Brasil exporta ao Egito já eram livres de taxas antes do tratado, segundo ele.

Já o Embaixador do Egito em Brasília, Wael Ahmed Kamal Aboul Magd, defendeu um comércio mais equilibrado entre os dois países. Atualmente, o Brasil exporta muito mais ao país árabe do que importa dele. “A balança comercial é de números significativos, porém, há um desequilíbrio na nossa relação, as exportações do Brasil ao Egito são bem maiores”, explicou. Na sua avaliação, os resultados do acordo MERCOSUL - Egito estão muito abaixo do esperado.

Marrocos

O Embaixador do Brasil em Rabat, Julio Bitelli, advogou pela diversificação da pauta comercial, considerada fundamental para os dois países. “Por enquanto, nós dependemos, na pauta bilateral, muito ainda da importação de fosfatos e derivados de fosfatos do Marrocos, e vendemos sobretudo produtos agrícolas como açúcar e milho”, revelou.

“A experiência na embaixada em Rabat, com a presença do adido agrícola, tem rendido frutos muito importantes. Nós conseguimos introduzir, por exemplo, importações pelo Marrocos de produtos de soja brasileira e estamos trabalhando em outros produtos também. É preciso pensar que certas tarifas ainda são bastante elevadas, e que o Marrocos tem tratados de livre comércio com mais de 50 países, inclusive EUA, União Europeia, Turquia, países importantes, e isso é um desafio adicional para as exportações brasileiras”, explicou.

O diagnóstico apresentado pelo representante brasileiro no Marrocos, é endossado pelo Embaixador do Marrocos em Brasília, Nabil Adghoghi. “As indústrias automobilística e aeronáutica têm potencial muito promissor, levando em conta a alta competitividade brasileira nessas duas indústrias, e o rápido crescimento marroquino em ambas”, disse.

Adghoghi aponta como promissor o setor de maquinário agrícola e mencionou forte intenção de cooperação junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para intercâmbio de conhecimento em relação ao agronegócio. “Nossa região é semiárida, temos escassez de água e a Embrapa deve desenvolver uma alta expertise no Nordeste do Brasil. E seria bom vender esse conhecimento para os empresários árabes na área agrícola”, sugeriu.

Jordânia

O Embaixador do Brasil em Amã, Ruy Amaral, afirmou que 2019, “foi um ano excepcional para o comércio entre o Brasil e a Jordânia. As exportações brasileiras cresceram 26%, atingindo um nível recorde na história, somando US$ 330 milhões, no mesmo momento em que os embarques da Jordânia para o Brasil cresceram 230%, e nestes cinco primeiros meses de 2020 tiveram crescimento de 1.780%. Essa é uma grande notícia, nosso comércio ainda continua desequilibrado, mas muito menos desequilibrado que no ano passado, e nós sabemos que o comércio equilibrado é mais saudável, mais sustentável”, enfatizou. Praticamente 100% das exportações da Jordânia são fertilizantes, segundo Amaral, e do lado brasileiro, estão concentradas em carne, frango, milho, celulose e café.

Kuwait

O Embaixador do Kuwait em Brasília, Nasser Almotairi, afirmou que falar do Kuwait é falar da região do Golfo Árabe. “Todos os países do Golfo visam diversificar e não depender totalmente do petróleo, e se transformar em centro financeiro e econômico”, declarou.

Ele disse que há incentivos para atrair investimentos estrangeiros oferecendo isenção de impostos para toda região do Golfo, com a possibilidade de empresas brasileiras de participarem na Visão Kuwait 2035. “Qualquer país que tenha uma visão como essa tem instrumentos, nós temos o fundo soberano kuwaitiano, que está muito interessado em investir em infraestrutura, e há conversas sobre este assunto”, revelou.

Almotairi explicou que, durante a visita da ministra Tereza Cristina ao Kuwait, ano passado, foi apresentado um projeto para apoiar pequenos agricultores das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Tamer Mansour reconheceu nesta medida, uma grande notícia para a iniciativa privada brasileira. “Sobre o interesse dos fundos em investir na infraestrutura e na segurança alimentar, acredito que a Câmara Árabe pode trabalhar juntamente ao governo brasileiro para tentar incrementar cada dia mais essa relação”, afirmou Mansour.

Emirados Árabes Unidos

O Embaixador do Brasil em Abu Dhabi, Fernando Igreja, falou sobre a importância da relação entre o Brasil e os Emirados na questão da segurança alimentar na pandemia. “Houve certo temor de que a pandemia pudesse afetar de alguma maneira essa relação, mas o que nós vimos é que isso não aconteceu. Os Emirados procuraram o Brasil neste período, preocupados com a questão de segurança alimentar”, afirmou.

O Brasil é um grande exportador de alimentos para os Emirados Árabes, o comércio foi de US$ 2,8 bilhões ano passado, e houve uma preocupação evidente com todo o fechamento das rotas comerciais. “O Brasil foi parceiro dos Emirados neste momento, nossas exportações não se reduziram, a Câmara Árabe teve um papel importante nisso, e nós continuamos nessa parceria, unidos aos Emirados para continuar sendo fornecedores de alimentos”, declarou.

Líbano

O Embaixador do Líbano em Brasília e vice-decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Joseph Sayah, falou um pouco sobre a queda nos embarques para o Líbano. “Infelizmente, como todos sabem, a relação com o Líbano caiu muito em 2020 por causa de várias situações do Oriente Médio e especialmente por causa da pandemia. Em outubro passado já começamos as negociações com o MERCOSUL e completamos quase 75% dessas negociações. Agora estamos ansiosos para terminar as negociações técnicas”, disse. Ele espera que a situação com a Argentina no MERCOSUL não afete o acordo. “Mas estamos olhando para frente para assinar com o bloco, que vai aumentar muito o intercâmbio comercial entre o Líbano e o MERCOSUL e o Líbano e o Brasil”.

Mauritânia

Representando a Mauritânia, o Embaixador em Brasília, Wagne Abdoulaye, afirmou que a relação entre os dois países é excelente. “Temos excelentes relações comerciais e econômicas, e realmente a Mauritânia pode desempenhar um papel importantíssimo como hub para produtos brasileiros nos países do Maghreb e nos países da África; podemos desempenhar esse papel importantíssimo no estreitamento da relação Brasil-países africanos”, disse.

Bahrein

O Encarregado de Negócios da Embaixada do Bahrein em Brasília, Bader Alhelaibi, também participou dos debates. Segundo ele, essa é a embaixada mais recente do Brasil, e que conseguiu rapidamente triplicar as relações econômicas entre os dois países”. Alhelaibi reafirmou o compromisso da embaixada em apoiar esforços para estreitar as relações econômicas e comerciais entre os países e deu as boas-vindas a investimentos brasileiros na região.

“Gostaria de mencionar que pela localidade estratégica e pelas leis que facilitam investimentos externos, e suas relações com outros mercados do Golfo, o Bahrein tem atrativos para outros investimentos no país. A nossa embaixada apoia empresários brasileiros e do Bahrein na troca de visitas para conhecerem de perto as oportunidades existentes nos dois países. É muito importante que nos conheçamos e conheçamos os meios de estreitar essas nossas relações”, disse.

Liga Árabe

O Embaixador Osmar Chohfi parabenizou a Liga dos Estados Árabes pelos 75 anos de sua criação e convidou o Embaixador da Liga no Brasil, Qais Shqair, para falar algumas palavras no evento. Shqair afirmou que o trabalho político acompanha o trabalho econômico, e lembrou que cerca de 5% da população brasileira tem origem árabe. “Existe também uma longa história de relação e da participação do Brasil nas causas árabes, existe uma aceitação do Brasil no mundo árabe e isso reflete na economia. O consumidor árabe prefere produtos brasileiros”, reiterou.