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Guerra Fria

28 de janeiro de 2015
por: InfoRel

Marcelo Rech, especial de San José, Costa Rica



Em 17 de dezembro do ano passado, o mundo foi positivamente surpreendido pelo duplo anúncio feito pelos presidentes Raúl Castro, de Cuba, e Barack Obama, dos Estados Unidos, da retomada do diálogo bilateral com o objetivo de normalizar as relações entre ambos.



Na verdade, como antecipou o InfoRel cinco dias antes do anúncio, em 12 de dezembro, Cuba e Estados Unidos têm conversado secretamente há muito tempo. Foram dezenas de encontros exploratórios que permitiram que o diálogo fosse retomado. A normalização das relações estava sendo preparada. E os cubanos garantem que não usaram emissários. A aproximação foi tratada diretamente entre eles e seus inimigos.



Por outro lado, dificilmente Cuba e Estados Unidos atingirão um nível de relacionamento baseado em confiança, cooperação e parceria. Nesta segunda-feira, 26, Fidel Castro escreveu que não confia nos Estados Unidos. Em que pese o seu afastamento do poder, suas palavras precisam ser suficientemente refletidas. Não é a única voz dissonante.



Uma casta importante da linha-dura cubana não vê com bons olhos essa aproximação. Curiosamente, esses oficiais e um contingente significativo de anti-castristas estão juntos contra o propósito de Obama e Raúl.



Cuba entende que é preciso buscar outras alternativas à Venezuela que enfrenta um processo de pré-colapso. Havana sabe que o Brasil não tem como ajudar mais o regime e a Rússia quebrada economicamente, está fora de questão.



Para os Estados Unidos, especialmente para o presidente Obama, normalizar as relações é entrar para a história, deixar um legado, uma marca que até agora não conseguiu imprimir à administração.



Cumpre, além disso, outra função geoestratégica: os Estados Unidos precisam conter a China que despeja milhares de milhões de dólares na América Latina tirando proveito da crise que ainda inibe os movimentos norte-americanos.



No entanto, é preciso ir devagar com o andor. Cuba e Estados Unidos numa boa pode impactar positivamente na região, mas pode ser apenas o começo de uma tremenda dor de cabeça.



Deve-se ter em mente que a normalização das relações entre Havana e Washington passa pelo retorno de Cuba à OEA, o que não é necessariamente um fato. Castro já avalia este quadro e não deve se entusiasmar muito com ele.



A CELAC consolidou-se como um espaço político de relevo para latino-americanos e caribenhos. Todo mundo quer dialogar com a CELAC. A China já começou. Em junho teremos o primeiro encontro CELAC – União Europeia, em Bruxelas, e ainda estão encaminhadas conversas com Índia e Rússia.



Mas, por que Raul Castro não se entusiasma pela OEA? No âmbito da organização hemisférica, um dos incômodos é a Corte Interamericana de Direitos Humanos que funciona na Costa Rica. Retornar significa submeter-se e isso Cuba não pretende fazer.



Ainda no escopo da OEA funciona o Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e Caribe (OPANAL), que há um ano é comandada pelo diplomata brasileiro Luiz Filipe de Macedo Soares, Secretário-Geral. Trata-se de um tema que não interessa aos Estados Unidos, mas tem total respaldo da CELAC, assim como a Zopacas.



Estamos diante de um jogo de xadrez onde todo e qualquer movimento está sendo demoradamente calculado. Ninguém quer entrar para a história pela porta dos fundos.



Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.


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