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Celso Amorim despede-se do Itamaraty defendendo po

Celso Amorim despede-se do Itamaraty defendendo política externa de Lula

Discurso do Embaixador Celso Amorim na cerimônia de transmissão do cargo de Ministro de Relações Exteriores

 

Eu hoje me sinto duplamente contente. Em primeiro lugar, porque, na seqüência da passagem da faixa do Presidente Lula para a Presidenta Dilma, eu transfiro o cargo de Ministro das Relações Exteriores a um grande funcionário do Itamaraty, um intelectual brilhante e um homem que comunga dos nossos ideais de transformação e de humanismo que inspiraram esses oito anos.

 

Ele certamente saberá levar adiante, com seu estilo próprio, com a sua maneira própria de enfrentar e resolver os problemas, uma política externa que ajudou a colocar o Brasil num novo patamar do cenário internacional.

 

Não pense o nosso Ministro que terá menos problemas: ao contrário, porque faz parte do crescimento termos sempre mais problemas e termos também a capacidade de resolvê-los.

 

Somente as crianças têm um só problema, que em geral os pais resolvem. Quem cresce, tem mais problemas – mas tem também mais capacidade de resolvê-los.

 

E certamente o Brasil está crescendo e terá mais problemas do que tivemos, mas também terá mais capacidade de enfrentá-los e resolvê-los.

 

A segunda razão pela qual estou especialmente contente é o sentido de dever cumprido. Fizemos o que dissemos que iríamos fazer.

 

Quem tiver a paciência ou a pachorra de ler o discurso de posse que eu fiz – ou a parte, naturalmente menor, correspondente à política externa do discurso do Presidente Lula de oito anos atrás -, verá que realizamos o que prometemos.

 

Enfrentamos o desafio de negociações comerciais complexas que vinham sendo conduzidas de forma que faziam prever resultados muito negativos para o desenvolvimento de nosso País.

 

Voltamos a fazer do Mercosul e da América do sul uma prioridade efetiva.

 

Redirecionamos o foco da nossa diplomacia, buscando explorar novos horizontes, sem abandonar parcerias tradicionais – ao contrário, reforçamos essas parcerias.

 

Entre esses novos horizontes, quero destacar, entre outros, a África, onde não fomos buscar apenas novos parceiros comerciais – fomos buscar a nós mesmos, nossas próprias origens, freqüentemente esquecidas.

 

Também desenvolvemos relações novas com os países do Oriente Médio, com a Índia, com a China, com quem formamos o IBAS e o BRICS.

 

Talvez o mais importante de tudo é que praticamos uma política externa altiva e ativa, na qual o povo brasileiro se reconhece.

 

Tenho tido a oportunidade de constatar esse fato nas ruas e nas praças, onde ando sem segurança e sem assessores, nas manifestações positivas de parte da nossa elite intelectual e também da parte de gente simples, que antes talvez nem sequer ouvisse falar no tema das relações exteriores.

 

Uma política que foi também desassombrada e solidária, como muito bem resumiu o nosso maior poeta a um tempo erudito e popular, Chico Buarque: “não fala fino com os poderosos e não fala grosso com os mais fracos”.

 

Nessa política em que o foco se dirigiu bastante para a cooperação sul-sul, alguns fatos são ilustrativos. Poderia falar das muitas viagens do Presidente Lula, mas elas certamente farão parte dos relatórios.

 

Nessa cerimônia, em que estou envolvido mais diretamente, menciono apenas duas coisas. Fui mais vezes a Porto Príncipe do que a Londres, e estive em São Tomé e Príncipe tanto quanto em Washington.

 

Meus queridos amigos,

 

Não vou me arriscar a um exercício de avaliação. Deixo isso para os historiadores que, com distância e isenção, poderão olhar para esses oito anos e dizer o que a política externa significou ou deixou de significar para o salto qualitativo dado pelo Brasil.

 

Neste momento, recorro à frase de um filósofo que li em livro que me foi presenteado anteontem por uma das minhas colaboradoras mais jovens: “prefiro o silêncio da convicção à retórica dos discursos.”

 

Mas não posso calar alguns agradecimentos.

 

Em primeiro lugar, ao Presidente Lula, sem cuja inspiração, apoio e iniciativa não existiria a política externa que é hoje reconhecida em todo o mundo. Tive o privilégio de ter com o Presidente Lula uma comunicação constante, que às vezes, em palavras dele, se dava até por telepatia. Em mais de uma ocasião, em Cancun, em Genebra, em Teerã e em outras situações, tive de tomar decisões cruciais sobre situações imprevistas ou imprevisíveis.

 

Neste agradecimento ao Presidente Lula, quero também envolver o seu Assessor direto de longos anos, o Professor e meu amigo Marco Aurélio Garcia, que continuará a dar os seus bons conselhos à Presidenta Dilma Rousseff.

 

Quero agradecer muito especialmente à equipe do Itamaraty e aos que colaboraram comigo de maneira mais direta.

 

Aos meus dois Secretários-Gerais, ao hoje ex-Ministro de Assuntos Estratégicos Samuel Pinheiro Guimarães, e ao também ex-Secretário Geral e atual Ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota.

 

Aos vários e às várias Chefes de Gabinete com que contei: Mauro Vieira, o próprio Embaixador Patriota, Maria Nazareth, Maria Laura, e também aos Subsecretários, na pessoa do Embaixador Ruy Nogueira, que hoje é elevado a Secretário-Geral do Itamaraty.

 

A eles devo a ajuda indispensável, não só nas tarefas do fazer diplomático, mas nesse outro empreendimento, tão difícil quanto: transformar o Itamaraty, renovando-o e tornando-o mais parecido com a sociedade brasileira, e isso foi feito sem deixar de lado as boas tradições da Casa, sem afetar a excelência de seus quadros. Esses, ao contrário, alem das qualidades intelectuais e morais, revelam hoje um entusiasmo que raramente encontrei em outras funções que já tive no Itamaraty.

 

Quero agradecer à mídia brasileira, que, com sua crítica constante – se justa ou injusta, os historiadores dirão –, me forçou a aguçar ainda mais os argumentos, e a estar alerta às armadilhas múltiplas que se criam, algumas vezes, por nós mesmos.

 

Em muitas ocasiões, lendo os nossos jornais, pude até antecipar, e preparar-me para enfrentar, as opiniões que seriam defendidas por nossos interlocutores – ou, em algumas vezes, nossos opositores.

 

Graças, em parte, à mídia, e a seu indefectível e implacável escrutínio, a política externa gozou de uma publicidade e mesmo de uma popularidade que, como diria o Presidente Lula, nunca se vira antes na história deste País.

 

O mesmo desafio político e intelectual tive dos nossos parlamentares, que me ajudaram a abrir os olhos para aspectos da realidade que poderiam ter passado despercebidos e, em mais de uma ocasião, me assinalaram oportunidades de ação que, sem esse estímulo, talvez tivesse hesitado em adotar. E quero na pessoa do Senador Inácio Arruda, a quem vejo aqui, agradecer por esse trabalho.

 

Tudo isso nós devemos à nossa democracia pujante, com participação crescente do povo, e de gente humilde, de onde provêm os nossos sonhos e a nossa força.

 

Agradeço a você, Ana, que não só me encorajou, e às vezes até me empurrou, e que soube, com meus filhos e netos, compreender que a missão de servir ao País impõe sacrifícios não só a quem se dedica a ela, mas também àqueles que o cercam.

 

Sei que vocês estiveram comigo em todos os momentos, nos de celebração e nos de decepção ou de frustração, pois, como lembrou a nossa Presidenta ontem – e com as palavras naturalmente mais refinadas de Guimarães Rosa, por sinal, um diplomata –, “a vida é tecida por anos”.

 

Não posso deixar de dar uma palavra aos jovens diplomatas, com quem procurei conviver o máximo que pude, e de quem procurei extrair, sem talvez que eles próprios soubessem, a energia de que necessitava para levar adiante uma política externa à altura do nosso País.

 

A eles, somente posso dizer que abraçaram a mais apaixonante das carreiras, da qual hoje me despeço de forma definitiva. Uma carreira que permite, a cada dia e a cada momento, ter-se a justa sensação de servir ao País. É essa, aliás, a maior recompensa que ela oferece, como poucas outras.

 

Ao meu querido amigo e companheiro, Ministro Patriota, não darei conselhos ou sugestões, ele não precisa deles. Se, entretanto, ele me permitir, uma lembrança, um pensamento apenas, eu diria que procure sempre em si mesmo, no silêncio de suas convicções, nos seus amigos e nos seus familiares mais próximos, e naturalmente no apoio da Chefe da Nação, a força para agir de maneira correta – sem se deixar levar, o que é sempre muito tentador, pela expectativa do elogio fácil ou da crítica maldosa. Confie no seu julgamento, como fez a Presidenta Dilma ao nomeá-lo, e você estará, na grande maioria dos casos, tomando a decisão certa.

 

Essa, meus amigos, é a segunda vez que me despeço da vida pública. Não vou mencionar quando deixei de ser Ministro, porque àquela época eu ainda era diplomata da ativa, de modo que continuei atuando.

 

Na primeira, há trinta anos eu saía da Embrafilme por ter autorizado a realização de uma película que denunciava a tortura no Brasil.

 

Por isso, hoje tenho certa dificuldade não em ouvir críticas, mas em ouvir reparos às minhas convicções sobre direitos humanos – e muitos dos que fazem as críticas hoje estavam calados naquela época.

 

Daquela vez, falando aos cineastas que sempre reclamavam por mais verbas, eu disse a eles que o bem mais precioso nem sempre se percebe. Na realidade, só os percebemos quando nos fazem falta. É como o ar e a liberdade.

 

Dirigindo-me aos diplomatas e Ministros estrangeiros, a diplomatas brasileiros, a você, Antonio, e também à mídia, eu preciso dizer que a paz é como a liberdade e é como o ar: nós só sentimos falta dela quando não está presente.

 

Quando está presente, parece algo natural. Parece que não custa nada, que é gratuita, que não requer esforço de nenhum país.

 

Nós estamos na sala Portinari. Não sei se foi inspiração sua, Ministro Patriota, mas não poderia haver inspiração melhor. Outro dia, nas minhas notas, escrevi que praticava meu último ato como Ministro – na realidade, acabou não sendo, houve outras coisas que eu não esperava –, que era participar da inauguração, ou melhor, da reabertura para o público brasileiro do grande mural “Guerra e Paz”, pintado por Portinari, e que ornamenta as Nações Unidas, advertindo os delegados que entram pela escada vendo o mural da guerra e saem vendo o mural da paz.

 

E eu me pergunto se, há cerca de cinqüenta anos, já se achou necessário e cabível pedir a um brasileiro que ele fizesse o mural “Guerra e Paz”, não tendo nós sofrido as agruras da guerra como os habitantes de tantos outros países, se isso não significa que há no mundo uma expectativa sobre a nossa capacidade de contribuir para a paz.

 

Não só a paz interna, não só o convívio das raças – sobre o qual também trabalhamos, e eu me orgulho muito de ter feito isso –, não só sobre a presença das mulheres em nosso Ministério, como nunca houve antes, mas também da paz mundial.

 

Muitas vezes nós ouvimos dos nossos críticos: “por que o Brasil está se envolvendo no Oriente Médio?”, “o Brasil já tem tantos problemas internos”, ele já os tinha há cinqüenta anos, quando vieram pedir a um grande pintor brasileiro que representasse com a sua magia de cores a tristeza da guerra e a alegria da paz.

 

E eu acho que a diplomacia tem um papel nisso, não pode deixar de ter um papel nisso. É o papel mais importante que temos. Todos os outros, mesmo trabalhar para o desenvolvimento, se tornam impossíveis se não tivermos um ambiente de paz.

 

Por isso, o Brasil tem e terá cada vez mais uma presença no cenário internacional. Caberá a você, caberá naturalmente à Presidenta Dilma, e a todos os seus auxiliares, fazer com que isso seja realidade.

 

No mais, meu querido amigo Antonio Patriota, Senhor Ministro de Estado, seja feliz. Seja feliz com Tania e seus filhos, pois de sua felicidade, de sua tranqüilidade de espírito, dependerá a felicidade de muitos brasileiros – inclusive daqueles que, como nós, seguimos de perto e com enormes esperanças esse crescente papel do Brasil no mundo em favor da paz e da liberdade.

 

Muito obrigado.

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