Brasília, 22 de agosto de 2019 - 16h37
Chanceler é advertido na Câmara dos Deputados sobre relações com a China

Chanceler é advertido na Câmara dos Deputados sobre relações com a China

03 de junho de 2019 - 15:05:51
por: Marcelo Rech
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Brasília – Na quarta-feira, 28, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi advertido na Comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, da Câmara dos Deputados, sobre as relações do Brasil com a China. “Mas vossa excelência e o próprio presidente também perceberam que estavam indo num caminho errado e estão tentando consertar. Nós vamos olhar para frente. Eu sou um grande entusiasta do governo. Agora eu não sou obrigado a concordar com algumas ideias loucas que não tenham dados técnicos. Se eu tenho um cliente que é o cliente que compra mais, gostando ou não gostando dele, eu tenho que manter uma boa relação”, disse o parlamentar.

A advertência veio depois que Araújo ter elogiado os chineses ao afirmar que os brasileiros precisam aprender com eles a negociar. Além disso, destacou que a guerra comercial entre China e Estados Unidos pode trazer oportunidades para o agronegócio brasileiro.

O ministro foi convidado para esclarecer as possíveis repercussões para o comércio externo do agronegócio brasileiro, por iniciativa dos deputados Marcon (PT-RS) e Carlos Veras (PT-PB). Ele aproveitou a oportunidade para criticar a imprensa internacional por divulgar "informações erradas" sobre a sustentabilidade ambiental do agronegócio no país.

Araújo passou boa parte de seu tempo detalhando sobre recentes negociações com a China e com os países árabes, como forma de desfazer a impressão de que haveria uma posição ideológica contra os governos desses países, um dos motivos do requerimento de audiência.

O ministro disse aos deputados que o objetivo do governo é elevar a participação agrícola brasileira no comércio mundial de 7% para 10% em dois anos e que há um esforço do Itamaraty para contrapor o que tem sido divulgado pela imprensa internacional sobre a sustentabilidade ambiental do agro. De acordo com Araújo, apenas 30% do território brasileiro é usado para a produção de alimentos e mais de 60% da vegetação é nativa.

Ele informou que irá mobilizar as embaixadas para divulgar outras informações e trazer novos mercados. “Estamos tentando implementar na mentalidade de trabalho de toda a diplomacia brasileira no exterior. Isso a gente vê claramente em outros países que são muito presentes em agricultura. Qualquer evento nas embaixadas argentinas tem sempre o vinho e a carne argentina, por exemplo. Temos que ter esse tipo de coisa nas embaixadas brasileiras”, observou.

Ernesto Araújo disse ainda que o objetivo do governo é elevar a participação agrícola brasileira no comércio mundial de 7% para 10% em dois anos.

Clima

Na opinião do ministro, outro problema seria uma versão parcial relacionada à questão das mudanças climáticas, o que estaria justificando medidas comerciais protecionistas.

“E o que se verifica é que basicamente todos os modelos, eles têm - desde o começo dos anos 90 - eles preveem uma curva muito abrupta de aumento de temperatura que não tem se verificado. Em muitos casos, algumas dessas pessoas apontam que não existe uma mudança de clima global, mas várias mudanças de climas locais. O que acontece nesse contexto - e é o que eu procurei apontar um pouco - é às vezes a manipulação política e o uso político desse alarme em relação à temperatura”, disse.

Em relação ao Oriente Médio, assegurou que as exportações para a região cresceram 18% no primeiro trimestre em relação ao ano passado. Mas, para o deputado Marcon, o governo brasileiro atrapalha ao fazer declarações polêmicas sobre a região. Ele lembrou comentário de um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, sobre o Hamas, que controla a Faixa de Gaza:

“Teria que alguém aqui do agronegócio pudesse tirar os telefones, os microfones da família Bolsonaro porque o senador Flávio Bolsonaro, no seu twitter diz: queremos que vocês se explodam - para os extremistas árabes. O Brasil nunca se meteu com essas guerras. Não vimos nenhuma colocação do ministro sobre essa questão”, observou.

China

Um dia após a audiência do ministro das Relações Exteriores, a Comissão de Agricultura recebeu uma comitiva integrada por quatro integrantes do Parlamento da China, que atuam na Comissão homóloga. O vice-presidente da Comissão de Agricultura chinesa, Ma Zhongping, explicou que o objetivo da visita foi acompanhar os trabalhos dos parlamentares brasileiros e trocar experiências, além de reforçar a cooperação entre os dois países.

“A China está importando do Brasil anualmente 60 milhões de toneladas de soja, representando 80% da importação total da China”, afirmou. A deputada Aline Sleutjes (PSL-PR), integrante da Frente Parlamentar da Agricultura e que integrou a comitiva da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na China, explicou que, devido à peste suína que atingiu aquele país, o Brasil aumentou no mês passado as exportações de suínos em 44%.

Na sua avaliação, há um bom momento para o Brasil ampliar as vendas externas não apenas de carne suína, mas também de aves e carne bovina. “Avançamos muitos nas negociações, principalmente na questão da carne. Eles perderam mais de 40% da produção, e vai demorar de 3 a 5 anos para se estabilizarem”, observou.

Além disso, o ministério da Agricultura encaminhou ao governo chinês uma lista com 30 frigoríficos brasileiros indicados a exportar para a China. Os suinocultores chineses tiveram que matar mais de 1 milhão de porcos por causa do surto de peste suína africana, que surgiu em agosto do ano passado. A China é o maior produtor de carne suína do mundo: são cerca de 54 milhões de toneladas por ano.

Para o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Fausto Pinato (PP-SP), o diálogo entre os dois parlamentos ajuda a regionalizar a relação com a China, com incremento nos negócios. “Os deputados em seus estados poderão ter um contato direto com eles (os chineses). Tendo essa relação direta, tentando buscar recursos e investimentos, (a negociação) se torna mais democrática e mais efetiva, tendo em vista que você acaba pegando a casa de leis e se aproximando, tirando só a institucionalidade do Poder Executivo”, disse.

Segundo ele, no segundo semestre, uma delegação da Comissão de Agricultura deve retribuir a cortesia e visitar a China. O presidente Jair Bolsonaro deverá visitar o país também no segundo semestre e o líder chinês, Xi Jianping, estará no Brasil em novembro para a Cúpula dos BRICS, em Brasília.