Turismo e Negócios
17/10/2005
Diplomacia
17/10/2005

Programa Nuclear

CNEN nega transferência de tecnologia nuclear à Venezuela

Se depender do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear [CNEN], Odair Gonçalves, a tecnologia nuclear desenvolvida pelo Brasil, de enriquecimento de urânio não será repassada à Venezuela como quer o presidente Hugo Chávez.

Por ocasião da XV Cúpula Ibero-americana, realizada em Salamanca [Espanha], Chávez propôs um acordo trilateral com Brasil e Argentina, país do qual pretende adquirir um reator de média potência.

Segundo Gonçalves, “a tecnologia de enriquecimento de urânio está protegida por tratados internacionais e não pode ser compartilhada. Na sua avaliação, o governo brasileiro precisa redefinir os rumos do programa nuclear antes de tratar de cooperação com outros países. Ele garantiu que as especulações sobre um possível acordo nessa área, residem no campo político e não técnico.

Entre as decisões que o governo brasileiro precisa tomar, está a construção ou não da usina de Angra 3 e se o modelo para o programa será exportador ou importador de energia. “A transferência de tecnologia do enriquecimento de urânio está fora de cogitação”, garantiu.

O Brasil integra um grupo restrito de nove países de detêm o domínio do ciclo do combustível nuclear e a revisão do Programa Nuclear Brasileiro está com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o primeiro semestre. O país também possui a sexta maior reserva de urânio do planeta, com 309 mil toneladas.

Pela revisão, o programa poderá custar até US$ 13 bilhões e a participação da energia nuclear no volume da energia produzida no país subiria de 3,7% para 5%.

O texto que se encontra com o presidente prevê um desenvolvimento de 17 anos para o programa até 2022 e a exportação do produto no futuro. Para tanto, a CNEN defende a construção de Angra 3 onde já foram investidos US$ 700 milhões e de outras seis usinas nucleares, sendo duas de grande porte e quatro de pequeno porte.

Há 20 anos que a construção de Angra 3 está parada e os equipamentos, a maioria importados, segue armazenada e sob cuidados dos militares. Só para reiniciar as obras de Angra 3, o governo precisaria dispor de US$ 2,5 bilhões.

No governo não há consenso sobre a obra. A ex-ministra de Minas e Energia, Dilma Rouseff, hoje na Casa Civil, disse ao InfoRel que é contra a obra. Ela travou uma batalha contra o ex-ministro José Dirceu, favorável ao empreendimento.

Assunto Estratégico

Para o diretor de Produção do Combustível Nuclear das Indústrias Nucleares Brasileiras [INB], Samuel Fayad, o acordo com a Venezuela “é uma questão de política externa e fortalecimento das relações na América Latina”. José Goldemberg, ex-ministro da Ciência e Tecnologia teme que este acordo prejudique a credibilidade do programa brasileiro, gerando desconfianças em relação aos reais interesses da Venezuela.

Especialistas no assunto garantem que o Brasil não tem nada a ganhar com esse possível acordo, pois a Venezuela não possui nenhum programa e a Argentina tem algo muito aquém do nível alcançado pelo Brasil.

Enquanto isso, o presidente Nestor Kirchner que já deixou clara sua posição de vender um reator nuclear à Venezuela, estuda um negócio similar com o Vietnã. Os vietnamitas querem adquirir um reator por US$ 180 milhões. Na opinião de técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA], o interesse pela energia nuclear tende a crescer graças à alta nos preços do petróleo e gás natural.

Energia Nuclear no Mundo

No momento, 24 usinas nucleares estão sendo construídas em todo o mundo. Na Finlândia, está sendo construída uma usina capaz de gerar até 1.600 MW de energia. Trata-se da primeira usina nuclear construída na Europa ocidental desde 1991, e deve entrar em operação até 2009.

A França pretende começar a construção de uma nova usina em 2007 e na Itália, ganha força a campanha para a retomada do programa nuclear abandonado em 1987.

Os Estados Unidos estão investindo pesado na construção de usinas termonucleares e a China pretende construir 40 usinas até 2020. Coréia do Sul, Japão e Rússia são outros exemplos da expansão dos programas nucleares mundo afora.

O Brasil pretende ser fornecedor para as 34 usinas que estão sendo construídas e para as outras 103 que ainda estão no papel. No total, existem 440 usinas nucleares em atividade no mundo.

Além disso, as usinas nucleares podem ser a resposta dos governos que firmaram o tratado de Kioto, comprometendo-se a reduzir a emissão de gases. Essas usinas queimam algo em torno de seis gramas de carbono por quilowatt/hora, praticamente o mesmo que as energias solar ou eólica. O problema está nos rejeitos radioativos, para os quais ainda não se avançou em termos de segurança.

A produção mundial de concentrado de urânio movimenta algo em torno de US$ 2,8 bilhões, o enriquecimento de urânio, US$ 5,5 bilhões e o elemento combustível, outros US$ 5 bilhões.

Segundo dados da AIEA, a demanda mundial de concentração de urânio é de 75 mil toneladas por ano, enquanto a produção chega a 35,8 mil toneladas. O restante é obtido de ogivas nucleares da Rússia, fruto do acordo de desarmamento firmado com os Estados Unidos.

A Rússia converte urânio enriquecido a 95%, em urânio utilizado em reatores nucleares, a 5% e essa transformação deverá suprir as necessidades mundiais até 2013.

Exportação

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende admite que o Brasil pretende atingir o grau de exportador de urânio enriquecido em dez anos. No entanto, o governo teria de conseguir mexer na Constituição que proíbe a comercialização de material nuclear.

Na sua opinião, essa energia será cada vez mais necessária e lucrativa. Ele afirmou, no entanto, que o Brasil não possui qualquer projeto para construir a bomba atômica.

O mercado de urânio enriquecido movimenta cerca de US$ 14 bilhões por ano. Sérgio Rezende disse que o Brasil integra um clube de elite por dominar essa tecnologia e não pode desprezar as possibilidades de ganhos com ela.

Na prática, o Brasil já exporta urânio para a Argentina, enriquecidos a 2,6% e 3,6%. Em agosto, foram vendidos 800 quilos. O produto é misturado na Argentina para a produção de toneladas de urânio com baixo enriquecimento, de 0,8%.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *