Guerrilha tem força, mas espinha dorsal está quebr
14/05/2008
As diferenças étnicas no Oriente Médio
15/05/2008

Códigos de Guerra

Como as Farc recrutam e punem meninos e meninas na Colômbia

La Macarena – Que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) recrutam meninos e meninas de nove aos 14 anos, não é nenhuma novidade, mas que aplicam o seu Código de Guerra para puni-los, poucos sabem.

Esta entrevista com J.F, 18 anos, realizada na localidade de La Macarena, Departamento de Meta, Colômbia, marca o início das reportagens especiais que o InfoRel publica a partir desta semana, sobre a luta colombiana contra a guerrilha.

Entre os dias 1 e 7 de abril, o jornalista Marcelo Rech percorreu diversas regiões colombianas com o propósito de oferecer um retrato atual da guerra travada pelo governo daquele país contra a mais antiga guerrilha latino-americana.

J. F (por questões de segurança, não revelamos o nome verdadeiro nem o apelido do ex-jovem guerrilheiro), desmobilizou-se no dia 1 de abril e se entregou ao batalhão do Exército em La Macarena, região que foi o coração da então conhecida Zona de Distensão, área de 42 mil quilômetros controladas pelas Farc durante a gestão do presidente Andrés Pastrana, que antecedeu Álvaro Uribe.

Ele foi recrutado à força pelas Farc no município de Mecetas, em La Julia, aos 13 anos. Estudou até o sexto ano primário e trabalhava com a família no cultivo de bananas. Segundo revelou se não abandonasse a família para trabalhar para a guerrilha, todos seriam mortos.

A família continua em La Julia, mas J.F será beneficiado pelo programa de reintegração de guerrilheiros e deve voltar aos estudos em Bogotá. A exemplo de milhares de outras crianças recrutadas pela guerrilha, ele espera por um futuro de oportunidades. Acompanhe a entrevista.

Como você entrou para as Farc?

Me recrutaram em La Julia. Eu estava estudando. Eles (as Farc) recrutam todos os “chinos” (forma como a guerrilha chama as crianças recrutadas) que possam ser bons de trabalho. Os que tinham de 20 a 35 anos também eram recrutados. Eu tinha 13 anos. “Chinos” de 9 anos são obrigados à ingressarem nas Farc. No dia em que fui recrutado estava de comandante Mono Jojoy, do Secretariado das Farc. Ele fez uma reunião e disse que os “chinos” que fossem bons precisavam se organizar. Isto valia para os que também tinham mulheres e filhos.

Neste período em que esteve na guerrilha, o que tinha de fazer?

Muitas coisas. Era muito jovem, passei muita fome, estive muito doente e passei por muitas guerras. Minha família vive em La Julia. Nunca me levaram nos combates, mas me obrigavam a lançar bombas nas vilas e povoados. Eu quando me entreguei, não tinha armas. Nunca me deram armas.

Por que decidiu abandonar as Farc?

Porque já não agüentava mais os maus-tratos. Os comandantes tratam muito mal aos “chinos”, meninos e meninas. Se você se comporta mal, eles te amarram a uma árvore por até nove dias com apenas uma refeição diária.

O que as Farc fazem com aqueles que se negam a ingressar?

Os que se não querem, eles pegam e matam.

Chegou a ter contato com algum seqüestrado?

Não. Nunca. Nenhuma vez. Ali havia muitos meninos e meninas.

E como funcionava esse código de guerra das Farc?

Se um menino ou menina se comporta mal, amarram num tronco de árvore por nove dias. Eles dizem aos guerrilheiros e guerrilheiras que se abandonam as Farc, o Exército os tortura e os lançam de helicópteros na selva. Eles têm uma psicologia forte para evitar que os insatisfeitos deserdem. Há uma lavagem cerebral o tempo todo.

Como viviam os comandantes das Farc?

Muito bem, alimentados, com seus anéis de prata. A maioria dos guerrilheiros rasos que não tem posto de comando, estão muito aborrecidos já. Agora, se um deseja abandonar a guerrilha não pode contar a nenhum de seus companheiros, pois eles fazem chegar aos comandantes que então julgam esse guerrilheiro e geralmente o fuzilam.

Como é a rotina de um guerrilheiro jovem como você?

Jornadas de trabalho muito grandes. Somos obrigados a carregar cargas, cortar lenha, estar de guarda dia e noite. São regras muito rígidas e duras.

Apesar do seu recrutamento ter sido forçado, em algum momento você se identificou com a ideologia das Farc?

Há momentos que você se sente como um guerrilheiro e eles sempre dizem que a guerrilha é muito boa, que vamos lutar que vamos ganhar. Mas, depois de uns quatro meses, você vê que não é assim e começa a se aborrecer. Também os comandantes que te recebem bem, já mudam muito e vida fica mais difícil. Qualquer coisa pode ser razão para eles (os comandantes) te punirem. Se você tem relações com uma guerrilheira, te castigam por isso. Se a guerrilheira se nega a ter relações com um comandante, a castigam duramente. E se ela fica grávida de um comandante, é punida por isso. Primeiro, abortar a criança e depois a sancionam. Se não a matam, a castigam com 15 dias presa a uma árvore com cadeados. Às vezes, a obrigam a cozinhar para 50 guerrilheiros e não a deixam descansar. Ocorreu-me ver uma menina de 11 anos ser obrigada a ter relações com um comandante de mais de 40 e ela foi, obrigada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *