Brasília, 29 de setembro de 2020 - 03h48
Cooperação em Defesa fortalece relações do Brasil com o Mali

Cooperação em Defesa fortalece relações do Brasil com o Mali

29 de agosto de 2020 - 11:36:47
por: Marcelo Rech
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Na madrugada de quarta-feira, 19, uma junta militar derrubou o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, em mais um golpe de Estado clássico na África. O Mali, um país da África Ocidental sem saída para o mar, conta com vasto território, de mais de 1.240.000 km2, e população de aproximadamente 19 milhões.

Muitos dos seus problemas estão nas fronteiras que compartilha com a Argélia, ao norte; o Níger e Burkina Faso, ao leste; a Costa do Marfim e a República da Guiné, ao sul; e o Senegal e a Mauritânia, ao oeste. Trata-se de uma ex-colônia francesa marcada por grande diversidade geográfica e étnica.

O Mali enfrenta, desde 2012, o desafio de estabilização política e securitária diante de conflito contra grupos armados terroristas sob o comando da Al Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI) e do Estado Islâmico do Grande Sahara (EIGS).

De acordo com o atual Embaixador do Brasil em Bamako, Rafael de Mello Vidal, “desde aquele ano, cristalizou-se cenário de insegurança pública, diante da penetração de células terroristas de ambos os grupos mencionados em território do Mali, por meio das fronteiras leste, com Níger e Burkina Faso, e norte, com Argélia”, afirmou.

Antes do golpe que derrubou o presidente malinense, Vidal destacava que “em 2020, Keita deverá seguir mostrando a sua habilidade política em costurar acordos, inclusive a anunciada intenção de iniciar mesa de diálogo com os líderes da Al Qaeda do Magreb, organização mais predisposta a possíveis entendimentos políticos”. No entanto, isso não foi possível.

Rafael de Mello Vidal revela que o Brasil faz parte hoje de um segundo anel de interesses do Mali. O que inseriu o Brasil nesse anel foram as exportações de aeronaves Super Tucano, recebidas em 2018 (quatro unidades em operação, no valor de US$ 70 milhões), a formação e treinamento de pilotos militares e mecânicos do Mali em São Paulo e o suprimento de armas e munições que equipam essas aeronaves, em contratos que devem se estender no tempo (foguetes e artilharia).

Ele relata que “a incorporação das aeronaves militares à Força Aérea do Mali mudou o perfil das relações com o Brasil. Além dessas aeronaves, o Mali conta apenas com helicópteros chineses. Nesse sentido, o Brasil hoje equipa a Força Aérea do Mali, com todos os desdobramentos comerciais que isso significará no futuro da relação bilateral, dada a necessidade constante de peças e munições. Empresas brasileiras como AVIBRAS, ATECH (Embraer) e AEQ engrenam acordos comerciais com a aeronáutica do país. Os foguetes da AEQ equipam os Super Tucanos. A ATECH desenvolve projeto de exportação de radares de monitoramento. A AVIBRAS pretende incorporar-se ao suprimento de armamentos”, explicou.

Além disso, na sua avaliação, a entrada em operação dessas aeronaves tem sido essencial no tabuleiro geoestratégico do combate ao terrorismo no Sahel. “Segundo informação recebida diretamente do Chefe do Estado Maior da Força Aérea, os Super Tucanos estão "mudando o jogo" no combate aos grupos guerrilheiros, pois substituem com eficiência as tropas em terra, reduzem as baixas militares e aumentam a precisão dos ataques, já tendo logrado importantes vitórias em combates desde dezembro de 2019, quando entraram em operação”, assinalou.

Antes do golpe de 19 de agosto, acreditava-se que, a partir da presença da Embraer-militar no Mali, poderiam ser explorados novos potenciais negócios com a área de defesa. “Em 2019, visitaram com regularidade missões comerciais da ATECH, do grupo Embraer, e da AVIBRAS. No caso da ATECH, existem em fase adiantada estudos para aquisição, pelo Ministério da Defesa, de sistema de radares móveis e fixos capazes de apoiar os sistemas de vigilância e rastreamento. Várias reuniões foram realizadas na Embaixada do Brasil junto aos operadores militares do Ministério da Defesa, do Estado Maior da Força Aérea, inclusive com os respectivos ministros, para a apresentação do sistema”, confirmou Vidal.