Opinião

Chávez versus Uribe
26/07/2010
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26/07/2010

Crise Colômbia – Venezuela: um desafio à UNASUL

Crise Colômbia – Venezuela: um desafio à UNASUL

Marcelo Rech

O presidente colombiano Álvaro Uribe deixa o poder no dia 7 de agosto após oito anos de governo.

Se não transformou social e economicamente o país, Uribe travou uma luta sem tréguas contra as guerrilhas, especialmente as Farc, reduzindo sua letalidade a níveis históricos.

Durante esse período, suas idas e vindas com o vizinho Hugo Chávez, colocaram a região sob tensão.

Ambos divergem em quase tudo.

Um é aliado dos Estados Unidos que nos últimos dez anos, destinou mais de US$ 8 bilhões para a luta contra o narcoterrorismo na Colômbia.

O outro chegou ao poder no final dos anos 90 após um intento fracassado de golpe de Estado e não se sabe quando deixará o poder.

Na última década, não faltaram denúncias e elementos para se acreditar que as guerrilhas colombianas atuavam extraterritorialmente, embora nunca ninguém tenha admitido publicamente isso, exceto a própria Colômbia.

No Brasil, as Farc mantêm ao menos cinco integrantes que se dividem entre Brasília, a região Sudeste e áreas fronteiriças.

Durante as três edições do Fórum Social Mundial, realizadas em Porto Alegre (RS), sob o patrocínio do Partido dos Trabalhadores (PT), ocuparam espaço, realizaram debates e firmaram alianças.

Os governos – estadual e municipal – de Olívio Dutra e Tarso Genro receberam os porta vozes das Farc com status diplomático na capital gaúcha.

Em Manaus (AM), a guerrilha é velha conhecida. Até apartamentos ocupam na cidade.

Acampamento da guerrilha no Brasil não se tem notícia, mas sua presença no país é explícita.

Olivério Medina, antigo padre católico e um dos mais importantes enlaces da guerrilha na América do Sul, recebeu do atual governo, status de refugiado o que lhe dá o direito de ter inclusive salário bancado pelo contribuinte brasileiro.

A Colômbia lutou para obter sua extradição, mas vários partidos de esquerda bancaram advogados e influenciaram na decisão do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), subordinado ao ministério da Justiça, há época ocupado por Tarso Genro.

Medina casou-se com uma brasileira filiada ao PT que do Paraná foi requisitada para trabalhar em Brasília na Secretaria Nacional da Pesca, comandado pelo partido.

O mesmo governo que foi incapaz de impedir o ingresso da guerrilha no Brasil e desta forma dar um exemplo contundente contra o narcoterrorismo, fala em mediar a crise que tem as Farc como pivô, envolvendo Colômbia e Venezuela.

Em muitos aspectos, a política externa do atual governo emite sinais contraditórios.

Escorado na Constituição que fala em autodeterminação dos povos e não ingerência, o governo escolhe cirurgicamente onde e como se meter.

Mais importante neste caso é o papel que a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), vai desempenhar.

Uma reunião extraordinária de chanceleres está marcada para 5ª feira, em Quito.

O Brasil não aceita que a crise seja solucionada com a participação de atores externos, portanto, terá de chamar para si a responsabilidade de ver Colômbia e Venezuela recompondo-se.

A Venezuela sabe que as provas apresentadas na Organização dos Estados Americanos (OEA), são fortes. Há pouca margem de manobra.

Chávez terá de aceitar os fatos e mostrar habilidade para convencer a região que os 80 acampamentos e 1.500 guerrilheiros no seu país, não têm o seu consentimento e menos ainda, financiamento.

Tanto Colômbia como Venezuela tendem a diminuir o tom até que Uribe entregue o poder ao seu ex-ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, a quem caberá de fato, restabelecer as relações difíceis com Chávez.

O fato concreto é que as Farc constituem-se num problema regional que como tal deve ser atacado.

Colocar o tema sob a mesa num mecanismo regional que ainda não mostrou a que veio, é fundamental para a sua sobrevivência e para a credibilidade da América do Sul.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e contra-insurgência. Correio eletrônico: inforel@inforel.org

 

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