Opinião

Relações Internacionais
30/08/2005
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30/08/2005

Política

Crise política: oportunistas e incompetentes

Marcelo Rech

A crise política detonada pelo deputado Roberto Jefferson a quem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou entregar um cheque em branco, apressando-se a prestar solidariedade logo que um corrupto dos Correios aparecia na TV recebendo R$ 3 mil, chega aos 100 dias sem punições. Lula transformou-se de líder político num retórico incapaz de neutralizar a incompetência do próprio governo.

Além disso, José Dirceu, responsabilizado pelos próprios petistas de ser o mentor intelectual dos crimes cometidos neste governo, não aceita entregar a própria cabeça numa bandeja.

Na mesma esteira, estão petistas que mentiram sobre suas próprias mentiras e não aceitam a cassação simplesmente por que fizeram o que todo político fazia. Para isso, têm o aval do presidente da República!

Enquanto isso, o presidente Lula continua vivendo num mundo paralelo como se não tivesse nenhuma responsabilidade com tudo isso. Ele não governa e não controla, e já não se convence do que diz e defende. Enquanto isso, ganham apenas os oportunistas que surfam na onda dos incompetentes petistas.

Com receio de terem seus nomes colados aos esquemas, um deputado e um senador abandonaram o partido governista. Tarso Genro foi humilhado por Dirceu e teve de abandonar o barco, pois não teria condições de promover a limpeza ética prometida. Delúbio, leal aos asseclas do presidente, continua desfrutando do prestígio e dos privilégios pagos pela militância petista.

Por que ninguém ousa mexer com Delúbio? Sequer o presidente da República conseguiu defenestrá-lo. Talvez porque sua afirmação de que não era delator, tenha soado mais como um aviso. O governo é refém de um ex-tesoureiro do PT.

Por outro lado, é preciso deixar claro que a oposição não tem qualquer moral para criticar o atual governo. Estão aí os registros dos oito anos de gestão tucana. Entretanto, devemos reconhecer: quem alimenta a crise não é ela.

Quem insiste em responsabilizar a oposição pela crise, comete um erro tão deprimente quanto equivocado. A oposição assiste o circo pegar fogo sem precisar jogar um único graveto, algo simplesmente desnecessário.

A guerra de egos no PT e o deslumbramento daqueles que chegaram ao poder em 2002, atirou a esquerda na lama da corrupção. A oposição aproveita o vácuo e vai pavimentando seu caminho rumo às eleições de 2006. Culpa do governo, de Lula e dos incompetentes que tomaram o poder.

É lamentável ver o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sob quem pesam graves denúncias de corrupção, apelar para o PT tentar salvar sua história. Pior é depender de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, como tábuas de salvação.

Bem disse Olívio Dutra, para quem o governo atraiu más companhias, dentro e fora do Planalto. Ele que dançou para que Lula fizesse as vontades de Severino Cavalcanti, o presidente da Câmara que tem sido inflamado para ficar com a cadeira de Lula.

Para piorar, jornalistas que até pouco tempo despachavam no Planalto, na Esplanada e na Câmara, escrevem sobre a crise política e entrevistam parlamentares com os quais, outro dia, negociavam a liberação de emendas e até cargos no governo.

Um deles integrava o Conselho Fiscal do Banco do Brasil e foi quem substituiu Waldomiro Diniz na Subchefia de Assuntos Parlamentares do então ministério da Coordenação Política.

Entre outras coisas, acompanhava in loco, as votações no Plenário da Câmara, conversava com líderes governistas e da oposição e tentava ‘ajeitar’ as coisas para o governo. Outro, ocupava a assessoria de imprensa da Liderança do Governo na Câmara. Há ainda, uma jornalista que foi expurgada de um ministério e que hoje encontra confiança numa das revistas semanais.

Esses são tão oportunistas quanto os pefelistas e tucanos que saem em defesa dos servidores públicos, dos trabalhadores rurais e dos mais de 40 milhões de miseráveis que apostaram em Lula como o novo Messias.

Levam para as redações, verdadeiros bancos de dados sobre reuniões sigilosas, conversas comprometedoras e acordos políticos imorais. Como disseram vários deputados ao InfoRel, “esses não entrevistam. Intimidam”. O mínimo que se espera é que essas pessoas, que precisam trabalhar, busquem o sustento longe da crise, pois estiveram no olho do furacão há não muito tempo.

Por essa razão, entendo que a crise política é digna dos incompetentes e dos oportunistas. Poucos são aqueles que estão dispostos a trocar seus projetos políticos em nome do país, ou em nome da ética.

Capazes de declinarem de certos postos por convicção. Pelo contrário, se o currículo ajuda, melhor ainda.

Ignoram a retração dos investimentos estrangeiros no Brasil e a queda da confiança e da credibilidade do país e contribuem significativamente para que a descrença da sociedade cresça a cada dia. A exemplo de Lula e do PT, têm apenas um projeto de poder. Nunca tiveram um projeto para o país.

Em muito boa hora, nos chega a sentença do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal [STF], em defesa do direito da imprensa criticar. Melhor ainda: podemos criticar a própria imprensa que cobra ética dos políticos mas não titubeia se pode lucrar com a crise.

Antes portanto, de se tentar inflar a sociedade sobre uma delirante conspiração da direita contra o presidente operário, de macacão, é preciso ver o que esse governo fez com a UNE, a CUT e o MST, por exemplo.

Em troca de recursos, ministério, cargos e créditos, cala aqueles que sempre foram decisivos na história política do país. Tudo para preservar um governo que morreu faz tempo e que só os oportunistas e incompetentes teimam em não velar.

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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