Opinião

Ministro destaca regulamentação da Lei do Abate
19/07/2006
Mercosul
21/07/2006

Culturas Populares, Governo e Democracia

Culturas Populares, Governo e Democracia

Bruno Peron Loureiro

As culturas populares são sábias, não só em relação a técnicas tradicionais de tratamento de doenças e provérbios imprescindíveis à existência, mas também como forma de resistência e crítica a qualquer tipo de opressão praticada pelos governos.

Através dela, ser político no Brasil virou sinônimo de “entrar para a roubalheira”, ou seja, o povo não é ingênuo e reconhece que não é tão bem representado e há esquemas de corrupção por trás de cargos públicos (desvio de verbas para candidaturas, propinas, superfaturamento de obras, manutenção de privilégios em cargos públicos; enfim, vaidades daqueles que puderam chegar ao topo, mas se esqueceram de suas origens e das suas funções representativas).

O Brasil possui condições extremamente propícias para seu desenvolvimento, inclusive feito de forma sustentável, embora este termo seja discutível da forma como fora idealizado.

Matérias-primas em abundância, excesso de contingente de mão-de-obra em idade ativa, posição estratégica com saída para o mar e fronteira com vários países latino-americanos, uma diversidade étnico-cultural como em poucos outros países.

Contudo, há pressões, camufladas e explícitas, de grupos de interesses poderosíssimos que inibem o país de promover aquilo que tem em potencial, e, por isso, mantém-nos numa posição de subdesenvolvimento e aquém das nossas expectavivas enquanto “país em desenvolvimento”.

Um país populoso, e quanto mais seja, definitivamente é problema para a confecção de políticas públicas no Brasil, que é atribuição do Estado, porém interessa a grandes corporações empresariais que se preocupam sobretudo com a gestão comercial e, portanto, precisam de mercado consumidor em abundância.

Hoje em dia, pode faltar comida nas casas de famílias de classes baixas e médias, porém o televisor e o rádio estarão sempre ligados. Pode-se dizer que as culturas populares são sábias para reconhecer sua posição de subalternidade, mas não possuem fôlego suficiente para reverter a situação.

Talvez o que falte mesmo neste país seja uma liderança de esquerda, digo uma verdadeira e não aparente liderança. Ou senão, em segundo caso, alguma que pense o sistema de dentro, mas que ponha o povo brasileiro em primeiro plano, e não da forma como está sendo feito: só com políticas assistencialistas de “dar o peixe, em vez de ensinar a pescar”.

Se esta for a forma como o povo é encarado e será nas próximas décadas, então não há perspectiva de mudança neste país das condições de pobreza e desigualdade. Somente o exercício do voto não pode fazer com que um país seja considerado democrático, pois isto é o mínimo que deveria existir numa democracia.

Ou senão vamos acreditar que plebiscitos, como aquele último sobre desarmamento, são úteis para alguma coisa; talvez para desperdiçar dinheiro público com a falsa impressão de democracia.

As esquerdas falam, ou falavam, de lutas sociais, greves e revoluções, no entanto, assim que tomam o poder, uma névoa obscurece todo esse potencial ideológico que fez o povo colocá-los nessa posição de destaque. Como defende o sociólogo Marcelo Ridenti, creio que, neste país, paira somente um “romantismo revolucionário”.

Será também uma atmosfera “estrutural”, em que Kenneth Waltz afirma que a estrutura determina o comportamento das unidades, que reverte e abafa os ideais com alto potencial modificador ou pura e simplesmente a hipocrisia de falsos demagogos que só queriam usufruir do poder em cargos de elite?

Primeiramente, existe o político das causas populares, que prega as igualdades e o socialismo; de repente, assim que entra para o governo, molda seu plano de gestão de acordo com os imperativos corruptos e opressores de uma “estrutura”? Tem algo errado nisso.

Enfim, o povo é sábio, mas parece que a sabedoria bem aplicada tem seu reino em outros confins do universo, pois o que manda mesmo é o dinheiro e o gostinho pelo poder, num sistema que, a meu ver, ainda se mostra demasiadamente temperado pela corrupção.

Problema complexo, de fato. Porém, se não for pela educação, e não aquela praticada nos moldes da mídia eletrônica, qual será o caminho: privatizar o Brasil? Não mesmo. Mas se deixar, fazem-no! Afinal, quem tem privilégios quer perdê-los?

A saída ainda encontra-se no povo como crítica ao governo, porém a democracia, como está sendo conduzida no país, deverá ser bem discutida e reformulada. Resta saber por quem.

Bruno Peron Loureiro é acadêmico em Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *