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08/04/2015
Diplomacia
08/04/2015

Contraponto

Cúpula das Américas: um teste para a diplomacia regional

Marcelo Rech

Nos dias 10 e 11 de abril, a Cidade do Panamá receberá a sétima edição da Cúpula das Américas, uma iniciativa do governo dos Estados Unidos que perdeu força com a ascensão da esquerda ao poder em vários países da América Latina, em especial, na Argentina, Brasil e Venezuela.

O evento tem tudo para ser histórico. Será a primeira vez em mais de 50 anos que Cuba e Estados Unidos estarão sentados à mesma mesa num fórum de concertação política hemisférica desde a expulsão de Havana da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1962.

A Cúpula das Américas será um teste para a diplomacia regional. Ocorre num momento em que os Estados Unidos sentem os efeitos da presença chinesa na região financiando desde projetos agrícolas até a compra de armamentos de última geração para as Forças Armadas locais.

Também acontece após as tensões entre Washington e Caracas subirem significativamente por conta das evidentes violações de direitos humanos na Venezuela. No entanto, a ordem executiva de Barack Obama contra sete funcionários venezuelanos era tudo o que queria e precisava Nicolás Maduro.

Cada vez mais contestado dentro do chavismo, o presidente da Venezuela viu cair em seu colo uma bandeira ofertada pelo líder norte-americano sem a devida avaliação dos seus prós e contras. Foi um tiro no pé, não há dúvidas.

A ordem executiva que sanciona os venezuelanos ligados ao governo, dá ao presidente Maduro o discurso anti-imperialista que buscava. A velha estratégia do inimigo externo para acalmar os ânimos internos, desta vez, foi entregue de bandeja por Washington.

Além disso, a Cúpula das Américas será realizada tendo a OEA, o principal e mais contestado mecanismo regional, um novo Secretário-Geral. Eleito há pouco mais de uma semana, Luís Almagro, ex-chanceler do Uruguai, assumirá em maio com as bênçãos dos governos bolivarianos, assim como Ernesto Samper assumiu a Secretaria-Geral da UNASUL.

Ainda que os resultados práticos e objetivos sejam limitados, não se pode negar que o evento será uma excelente oportunidade para a diplomacia hemisférica.

Os Estados Unidos sabem que a Venezuela não representa uma ameaça para a sua segurança nacional tanto quanto Cuba sabe que Caracas não tem mais como subsidiar o petróleo que lhe entrega. A região experimenta crises políticas mescladas com crises econômicas, resta saber quem está verdadeiramente disposto ao diálogo e à temperança.

Marcelo Rech é jornalista, especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa, Terrorismo e Contra-insurgência, Direitos Humanos nos Conflitos Armados, e diretor do Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org.

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