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Crise Política

Da Indignação à Independência

Marcelo Rech

A crise política avança sem que o governo tenha cumprido a promessa de cortar na própria carne. O presidente Lula tem insistido na retórica e esquece dos gestos práticos e concretos que poderiam, pelo menos abreviar a dimensão da crise. Lula trocou sua biografia pelo poder, deixou-se deslumbrar pelas viagens e entregou o governo a uma quadrilha.

Quem quiser ver, que veja. Quem não quiser, que se contente com a mediocridade política de um presidente vesgo e um governo marcado pela corrupção em doses cavalares. Não por acaso, o vice-presidente José Alencar já se prepara para assumir o posto. Imaginem o que pode ocorrer quando os gastos com a família presidencial virem à tona.

Em vez de governar, Lula escora-se nos bons números da economia e nos recordes das exportações, quando qualquer graduando em economia sabe que a situação mundial favorece a economia brasileira. Não há praticamente nenhuma ação concreta deste governo para festejar.

Pelo contrário, não são poucos os empresários que pedem apenas para o governo parar de atrapalhar. As taxas de juros na estratosfera só engordam as contas de quem aplica para especular. Não é dinheiro que fica no país para ser investido em obras e nas transformações prometidas.

Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores se engalfinha entre suas várias tendências e facções e o ex-ministro José Dirceu não aceita assumir sua parcela de responsabilidade no maior escândalo político já vivenciado pelo país.

As eleições internas tendem a explicitar ainda mais essa briga de foice no escuro. Por outro lado, ao final desse traumático processo, poucos sobrarão para contar a história.

Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pessimamente assessorado, insiste em enxergar um país que não existe e nega as imagens [capa do jornal O Estado de São Paulo do dia 8, com uma bandeira pedindo o impeachment do presidente] que desnudam a insatisfação popular.

Em carta ao jornal, o Palácio do Planalto, numa clara demonstração de amadorismo, garante que a foto não retrata o que aconteceu no 7 de setembro. Mais uma demonstração que o governo perdeu o rumo de uma vez.

Hoje, queiram ou não, Lula é refém das velhas oligarquias que ele e seus conselheiros políticos levaram para dentro do Planalto, embora seus poucos aliados no Congresso prefiram sustentar outra tese.

Com a corrupção enraizada no governo e a paralisia explícita, ex-ministros deslocados para o Congresso para ‘reforçar’ o time de Lula, preferem – pasmem – jogar a responsabilidade para a população.

Isso mesmo! Não aceitam críticas ao presidente ou ao PT, e acreditam que é preciso defender o indefensável simplesmente por que os tucanos serão os beneficiados com a falência do governo petista. Para eles, a luta pelo poder é mais importante que a dignidade.

Lula, o PT e seus fracassados articuladores políticos ressuscitaram a direita. Essa conta não pode ser debitada para a senadora Heloísa Helena, o senador Cristovam Buarque ou o deputado Fernando Gabeira. Estes, aceitaram encarar os fatos e confronta os poderosos de plantão.

Dizer que a população será a responsável pela interrupção de um projeto político da esquerda, além de injusto, desnuda uma estratégia covarde. O cadáver está fedendo há tempos, mas essa gente que se fartou das benesses do poder, se nega a velá-lo.

Se o projeto político de Lula fracassar em 2006 e os tucanos retomarem o poder, a responsabilidade não será da população, que está indignada, frustrada e angustiada em ver que a esperança evaporou-se. Os responsáveis serão os corruptos que infestaram a esquerda, pulverizaram a ética e destroçaram o patrimônio político histórico do PT.

Já passou da hora de alguém assumir as responsabilidades pela corrupção monumental que se montou no governo que deveria ser democrático. Se, de fato, nunca se investigou tanto os casos de corrupção como na gestão do presidente operário, também é verdade que nunca se mentiu tanto e se armou tantas farsas, como a entrevista do próprio presidente na França.

O que os ex-ministros de Lula insistem em não enxergar é que a população deu à Lula e à esquerda, a oportunidade de transformar o país. Não foi dado ao presidente, o direito de cometer os mesmos erros, enxovalhar a sociedade aliando-se com gente da pior espécie.

O compromisso de Lula era com os 52 milhões de brasileiros que lhe deram um mandato histórico e não com os oportunistas de sempre. Agora, não sabe se fica com a ética ou salva o mandato de Severino Cavalcanti. Pior: não sabe quando voltará a ter uma base governista e como terminará o ano.

O desfile pela Independência foi mais uma demonstração da insatisfação popular que cresce. Lula foi vaiado e só tem sido poupado por que a CUT controla o ministério do Trabalho e os sindicatos. A UNE, quem diria, recebe mais de um milhão de reais para fazer uma manifestação chapa-branca e até uma claque é levada ao Peru para aplaudir um presidente divorciado da realidade.

Se a direita ou a elite como esses caras preferem, estiver lucrando com a crise, os culpados são eles mesmos. A população tem a obrigação de tirar o traseiro da cadeira e mudar. Essa foi uma ordem do presidente da República, lembram?

Marcelo Rech é Editor do InfoRel

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