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De excessos e carências

De excessos e carências

Bruno Peron Loureiro

 

Não pude conter a emoção enquanto lia virtualmente uma nota de um jornal jamaicano.

 

Ela estampava que, no Sudão, nada menos que 2.000 pessoas morreram e 250.000 tiveram que abandonar suas casas devido à violência somente este ano de 2009.

 

O país sofre de uma grave crise humanitária. O mundo sensibiliza-se quando a vítima é notória.

 

No dia 11 de setembro de 2001, foi assim. Por que quase não se fala do genocídio que toma lugar no Sudão?

 

Atravessado pelo caudaloso rio Nilo, que noutros tempos proveu civilizações pomposas, o Sudão completa o mapa da pobreza na África.

 

Não obstante a função de berço da humanidade que se lhe atribui a este continente, os indicadores mais tristes de desenvolvimento no mundo residem nas margens banhadas pelo Nilo.

 

Entre outras mazelas, a região hospeda o analfabetismo, a desnutrição e a seca.

 

Toda brisa que sopra de ultramar rebate no excesso de problemas que cultivamos por aqui na América Latina. Porção de terra de uma imitação descomedida.

 

Enquanto isso, a cara-metade que um dia nos conectou na Pangéia sofre conflitos étnicos, disputas territoriais e desrespeitos ao semelhante. Vozes opacas só se referem aos piratas da Somália e outras ameaças ao maldito livre mercado.

 

Já não podemos aceitar visões tão encobertas e interesseiras.

 

Pensar na harmonia mundial não é só bandeira para a realização de conferências sobre mudanças climáticas.

 

Queremos saber o que está acontecendo no Sudão, por que tantos morrem ou fogem anualmente, quem pode fazer a diferença para um plano de assistência humanitária neste país e que destino têm milhões de crianças que se entregam involuntariamente aos urubus.

 

O Sudão não possui um único conflito.

 

Ao menos dois despertam a atenção: um deles é a guerra civil entre o norte e o sul do país que durou mais de vinte anos e reaparece na busca de independência do sul, que votará por ela no início de 2011; o outro é o conflito étnico-cultural que se iniciou oficialmente em fevereiro de 2003 na região de Darfur, oeste do Sudão, e espalha a violência.

 

A região tem atraído grupos pacifistas e defensores dos direitos humanos.

Houve uma missão de paz organizada pelas Nações Unidas, porém o procedimento de repartição política do continente africano rendeu divisões e rixas incontroláveis.

 

No mesmo espaço geográfico pertencente ao Sudão, cercaram-se grupos rivais dispostos a promover o massacre para alcançar seus objetivos.

 

A guisa de recapitulação, a nota que li sobre o Sudão na imprensa caribenha me fez recordar a persistência do problema. Tão grave e tão ignorado. No Brasil, as enchentes trazem infortúnios e perdas; alhures, milhares morrem de falta de água.

 

De excessos e carências, temos história para contar.

 

Ursos polares encurralam-se em geleiras, enquanto corpos depositam-se em valas no Sudão. Notas jornalísticas sobre fatos de outros países induzem-nos a uma leitura idílica da desgraça.

 

Quando não a um passar de olhos apressado. Por que nos preocuparia este acontecimento? Ainda mais sobre o Sudão: país pobre ao qual muitos duvidam que haja solução.

 

A Terra, porém, obedece a um ciclo de rotação. Copenhague lotou em dezembro. É bom lembrar.

 

Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-Americanos

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