Relações Exteriores

Declaração Conjunta por ocasião da visita do presi
02/04/2007
Memorando de Entendimento sobre Educação entre o B
02/04/2007

Declaração à Imprensa do presidente Lula, por ocas

Declaração à Imprensa do presidente Lula, por ocasião da visita aos EUA

Luiz Inácio Lula da Silva

Agradeço o convite do presidente Bush. Minha visita a Camp David nos permitiu tratar de temas de interesse bilateral, regional e global.

Eu penso que o século XXI será marcado pela mudança que nós teremos que fazer e também pelo aperfeiçoamento das coisas que fizemos corretas no século XX.

Já não temos mais a Guerra Fria, já não vivemos mais a bipolaridade que permeou as nossas vidas durante meio século e portanto, agora, é tratar de fazer do século XXI o século da inclusão dos deserdados no século XX.

E falo dos países mais pobres da América Latina, da América do Sul, da África e da Ásia.

Temos um assunto a ser tratado no século XXI, que não tratamos bem no século XX e que pode permear as nossas relações para os próximos anos, que é a questão climática do planeta Terra.

Há vinte anos, quando éramos alertados dos problemas que estávamos causando ao mundo, chamávamos de irresponsáveis os que nos alertavam, criticávamos os grupos, às vezes minoritários, que saiam à rua com suas bandeiras defendendo a preservação ambiental.

Agora, chegou a hora e a vez dos países do mundo inteiro levarem à sério a questão ambiental, porque a Humanidade enfrenta um dos maiores riscos da sua história.

O aquecimento global é uma realidade que nos ameaça pela terra, pelo ar e pelas águas, um abraço enigmático que enlaça a todos, indistintamente, em qualquer ponto do planeta Terra.

O problema é assustadoramente concreto e atual, mas sua solução ainda é viável. Parte dela está ao alcance de nossas mãos. Já conversamos sobre isso duas vezes.

Conversamos sobre os biocombustíveis e sobre nossa determinação em aprofundar a cooperação nesse setor. O Memorando de Entendimento assinado em São Paulo constitui a base de uma parceria ambiciosa que permitirá enfrentar os grandes desafios deste século que começa.

Primeiro, a resolução da crise energética que afeta quase todos os países do mundo; segundo, a proteção do meio ambiente, ameaçado pelo aquecimento global do Planeta.

Finalmente, a redução da pobreza e da exclusão social, com a criação de novos empregos e expansão da renda para os trabalhadores mais pobres do mundo.

Realizaremos missões de cientistas e pesquisadores brasileiros a laboratórios nos Estados Unidos e vice-versa. Vamos criar um fundo, com apoio de organismos internacionais, para financiar a cooperação com os países mais necessitados.

Estamos também comprometidos com o fortalecimento do Fórum Internacional de Biocombustíveis. Convidei os Estados Unidos a participarem da conferência internacional sobre o tema, que o Brasil sediará em 2008.

A preocupação com o meio ambiente é crescente no Brasil e no mundo, sobretudo, depois dos últimos relatórios do Painel da ONU sobre mudanças climáticas.

O estímulo à produção sustentável de biocombustíveis é parte decisiva do esforço para resolver esse problema.

Os biocombustíveis oferecem, igualmente, uma oportunidade ímpar de democratização energética do mundo, diversificando os centros de sua produção. Temos também obtido bons resultados em várias outras frentes.

É importante dizer ao presidente Bush, aqui em Camp David, na sua residência, que para mim a questão dos biocombustíveis é quase uma obsessão.

Não sei por que, mas já se falava em biocombustíveis em 1925, já se falava em biodiesel em 1943.

Entretanto, como não tínhamos dimensão dos males que o petróleo poderia causar ou outro tipo de energia poderia causar ao mundo e também porque era muito barato, isso não foi levado para a frente por nenhum país, nem pela indústria automobilística de nenhum país.

E agora estamos diante de um momento em que essa nova matriz energética poderá tornar o mundo mais independente, poderá tornar o mundo mais gerador de riqueza porque a experiência que nós temos no Brasil é que, para cada trabalhador que trabalha numa usina de biodiesel, é preciso mil trabalhadores no campo.

Significa que nós poderemos gerar uma quantidade de milhões de empregos pelos países mais pobres do mundo que não estava previsto em nenhum documento assinado por nós no século XX.

No Brasil, nos últimos quatro anos, reduzimos o índice de desmatamento da Amazônia em 52%. Mais de 2 milhões de hectares deixaram de ser desmatados e, prestem atenção, mais de 400 milhões de toneladas de gás carbônico deixaram de ser emitidas na atmosfera.

Sabemos que as florestas estão entre as grandes vítimas das mudanças climáticas. Nas negociações da Convenção sobre Mudança do Clima propusemos incentivos financeiros para cada tonelada de gás carbônico que deixe de ser emitida, como resultado da redução do desmatamento.

Esperamos que nossa proposta tenha o apoio da comunidade internacional e, obviamente, especialmente dos Estados Unidos da América do Norte.

Poderemos, assim, estabelecer uma parceria tanto na promoção de biocombustíveis quanto no combate à intensificação do aquecimento global e do próprio desmatamento, com pleno respeito à soberania de cada país.

O Brasil possui a maior e mais importante biodiversidade do Planeta. Temos consciência do valor que esse patrimônio natural representa para o nosso país e para o mundo.

O Brasil, com 383 milhões de hectares de área agricultável, pode conciliar a produção de alimentos, a produção de biocombustíveis e a defesa de nossas florestas.

Nosso conhecido compromisso com o combate à fome não nos permite que qualquer atividade venha a prejudicar a produção de alimentos. Aliás, o presidente Bush sabe e eu sei, e acho que todos os governantes sabem que a fome no mundo não é gerada por falta de alimentos, mas, sim, pela falta de renda e de decisão política de garantir comida para todo mundo.

Falando com o presidente Bush sobre a preocupação de meu governo com o combate à fome e à pobreza, mencionei nossa preocupação com a Rodada de Doha da OMC. Ela é central na luta contra a pobreza.

E saio de Camp David com a certeza de que nunca vi, em todas as conversas que tive com o presidente Bush, ou que o Celso teve com a Condoleezza, em nenhum momento eu saí daqui com o otimismo que eu saio, de que estamos mais próximos do que jamais estivemos de fazer um acordo na Rodada de Doha.

Estamos tentando concluir com êxito essas negociações comerciais. Temos urgência em chegar a um acordo ambicioso e equilibrado. A persistência de subsídios agrícolas encarece os alimentos e desestimula sua produção nos países pobres.

Sem a eliminação dos subsídios, a oportunidade de desenvolvimento representada pelos biocombustíveis será perdida e, com ela, a possibilidade de melhoria das condições de vida de centenas de milhões de homens e mulheres.

Por isso é necessário ir eliminando as barreiras ao etanol, para fazer valer uma verdadeira commodity energética. Eu sonho que dentro de, no máximo, 15 a 20 anos, o mundo se renderá aos biocombustíveis.

Portanto, quem acredita nisso precisa começar a investir já e agora. Se ficar para depois, vai perder o trem e possivelmente vai ficar atrasado na história de modernização.

Meus amigos e minhas amigas,

Naturalmente, falei com o presidente Bush sobre a preocupação brasileira sobre a questão da reforma da ONU. Aí, é onde temos mais divergências. Mas também em política, se não tivermos divergência, não tem graça fazer política.

Mas eu fiz questão de dizer ao presidente Bush qual era a visão do Brasil, o presidente Bush me disse qual era a sua visão e chegamos à conclusão, e certamente não ainda a um acordo, de que a reforma da ONU passa por muitas outras reformas que precisamos fazer dentro da própria ONU, para poder garantir a reforma do Conselho de Segurança.

Como eu só tenho 61 anos de idade e tenho mais quatro anos de mandato, eu estou convencido de que nós vamos, não muito tempo, ver esse conselho mudado e a ONU reformada.

Eu sei que é um assunto complexo, mas que também não pode mais ser adiado. Estou seguro de que o diálogo entre nossos países contribuirá para encaminhar o tema da maneira mais rápida e apropriada.

Falamos sobre outros temas da agenda internacional, como a situação do Oriente Médio, em especial o Líbano. Talvez muitos não saibam, e eu disse ao presidente Bush, que no Brasil nós temos uma comunidade de mais de 10 milhões de habitantes descendentes sírio-libaneses.

Por isso mesmo, temos procurado estar presentes nos foros que tratam do assunto e, dentro de nossas possibilidades, cooperar para a reconstrução do Líbano. Também temos procurado ajudar a construção de um estado Palestino viável e respeitoso de Israel.

Meus amigos e minhas amigas,

Abordamos temas importantes da nossa agenda regional. Disse ao presidente Bush que temos de fazer mais pelo Haiti. E aí é interessante lembrar que fizemos acordos para não apenas trabalharmos juntos no Haiti, trabalharmos juntos na República Dominicana, trabalharmos juntos em países como São Tomé e Príncipe, trabalharmos juntos na Guiné Bissau.

E se essas experiências forem exitosas, nós teremos muito mais espaço para construir projetos entre Estados Unidos e Brasil, para que a gente possa ajudar terceiros países.

Nós concordamos que a cooperação em biocombustíveis com o Haiti poderá ser decisiva. Não basta estarem as Forças Armadas do Brasil, do Chile e da Argentina no Haiti.

É preciso garantir a democracia, é preciso garantir a governabilidade, é preciso garantir a segurança, mas se não tiver desenvolvimento e emprego, tudo isso ruirá em pouco tempo.

Disse ao presidente Bush que o Brasil aposta firmemente na integração da América do Sul. Aliás, presidente Bush, essa é uma outra coisa que eu persigo desde o meu primeiro dia de governo.

Se nós quisermos garantir a democracia na América do Sul, se nós quisermos garantir o desenvolvimento da América do Sul, se nós quisermos garantir o fortalecimento das instituições na América do Sul, nós temos que ter consciência de que a integração física é condição básica para esse desenvolvimento e, quem sabe, os Estados Unidos possam ser um parceiro do Brasil e de outros países da América do Sul na integração física que tanto precisamos.

E nós entendemos que é isso que vai garantir o desenvolvimento, garantir a democracia e, portanto, termos as oportunidades que não tivemos, anos atrás, de nos desenvolvermos.

Estamos obtendo avanços extraordinários com a integração, expandindo o comércio e realizando as obras de infra-estrutura que podemos realizar. No fundo, no fundo, nós estamos aproximando os nossos povos, que durante tanto tempo ficaram de costas um para o outro.

Por isso, eu convidei o presidente Bush e os Estados Unidos a serem parceiros nesse processo de integração e de construção da integração física do nosso Continente.

Mencionei ao presidente Bush o papel importante que os Estados Unidos podem ter com países da América do Sul em situação especial, aqueles que necessitam das preferências comerciais.

É extremamente importante que os Estados Unidos apóiem esses países. Nós temos que apoiá-los porque isso garante a estabilidade regional, que interessa ao Brasil, interessa a todos os países da América do Sul e, certamente, interessa aos Estados Unidos da América do Norte.

Juntos, podemos prestar assistência a países que ainda têm muitas carências, sobretudo na África. Já falei aqui do acordo que nós assinamos para a Guiné Bissau e para São Tomé e Príncipe.

O desafio, presidente Bush, do mundo de hoje, no comércio, na segurança, no meio ambiente, no combate à pobreza, são imensos. Para resolver essas questões, o único caminho é o diálogo, com franqueza e com muito respeito mútuo.

Com esse objetivo, tenho dito ao presidente Bush que estou disposto a reunir-me com ele quantas vezes forem necessárias, e com todos os chefes de Estado do mundo quantas vezes forem necessárias, para que a gente possa neste século XXI despertar um pouco de alento na parte da população mais pobre do Planeta.

Nós temos na mão o poder de fazer coisas, não o faremos se não quisermos. Por isso – antes de responder às perguntas da imprensa, com o presidente Bush – eu quero dizer, presidente Bush, que de todas as reuniões que participei, em reuniões com o governo americano, esta foi a reunião mais produtiva.

Se alguém perguntar para mim: “o que você está levando para o Brasil?” Certamente, eu direi: nada.

Agora, certamente, os acordos que nós assinamos hoje e os acordos que poderemos assinar daqui para adiante podem garantir, definitivamente, que as relações entre os Estados Unidos e o Brasil não só são necessárias, mas são estratégicas para que a gente possa consolidar um novo modelo de desenvolvimento, uma nova política comercial e, sobretudo, uma nova maneira de tratar os problemas graves que hoje afligem o Planeta.

Por tudo isso, muito obrigado.

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