Opinião

Brasil – EUA: Memorando Etanol
09/03/2007
Declaração Conjunta por ocasião da visita do presi
02/04/2007

Decolagem Não-Autorizada

Decolagem Não-Autorizada

Joanisval Gonçalves

2006 seria o ano em que o Brasil deveria comemorar o centenário da aviação. Afinal, fazia um século que um grande brasileiro mostrara ao mundo que um veículo mais pesado do que o ar poderia voar tendo início uma nova era na história da humanidade.

Entretanto, 2006 dificilmente será esquecido, pois foi o ano em que teve início o colapso do setor aéreo nacional.

Começamos 2006 enviando o primeiro brasileiro ao espaço, de carona em uma nave russa, e em um projeto que gerou muita polêmica e críticas entre a comunidade científica nacional.

Dizia-se que se tratava mais de um fenômeno de marketing para o ano eleitoral que uma atividade realmente útil para a pesquisa e o desenvolvimento no Brasil – mas nosso astronauta não plantou um feijãozinho no espaço, mostrando que a experiência feita por milhares de crianças no País pode ser repetida fora da Terra?

Acompanhamos emocionados nosso Marcos Pontes sendo lançado ao espaço sideral, mesmo que a imagem que mais fique é a do ursinho branco de brinquedo usado pelos cosmonautas russos para marcar a perda de gravidade – alguns mais críticos diriam que o ursinho tinha um papel mais importante na missão que nosso Marcos.

De toda maneira, lá fomos nós, mostrando que o Brasil já estava no seleto grupo de países que já haviam pegado carona nas viagens espaciais dos russos e norte-americanos.

Mas o ano estava só começando. Em 2006, assistimos atônitos e tristes ao colapso da maior e mais tradicional companhia aérea do Brasil. Em alguns meses, a VARIG entrou em grave crise e com ela o setor aéreo brasileiro.

Vimos uma marca que era quase patrimônio nacional se desintegrando, funcionários com anos de trabalho e altamente capacitados deixando de receber salário por meses, e acabando demitidos.

Ninguém socorreu a VARIG, e aqueles que se acostumaram a ter nela um honroso símbolo de nossa aviação, viram-na desaparecer. A estrela brasileira não brilhava mais no céu azul…

Em setembro, o maior desastre aéreo da história do Brasil desencadeou a grande crise: desnudava-se um sistema de controle aéreo em colapso, com problemas estruturais e dificuldades nas relações entre as autoridades e os controladores de vôo. Entrávamos em zona de grave turbulência.

A partir de então, e de uma hora para outra, os brasileiros viram-se obrigados a conviver com vôos atrasados, cancelados, aeroportos lotados, passageiros jogados às traças, falta de informação, falta de consideração, falta de humanidade e respeito pelas pessoas por parte de companhias aéreas e de autoridades governamentais.

Caos, choro, desespero, frustração. Dificilmente esqueceremos, no centenário da aviação, cenas com a do fígado que não chegou para o garotinho que dele dependia para sobreviver, ou de idosos e crianças perdidos nos aeroportos, ou do fatídico mês de dezembro, quando o transporte aéreo brasileiro simplesmente parou, primeiro, por “problemas técnicos” do sistema de controle de tráfego e, depois, por abusos cometidos contra o consumidor por companhias aéreas.

O Natal de 2006, para muitos brasileiros, foi nos bancos ou no chão dos aeroportos.

Nunca antes na história deste País se viu tamanha confusão, tamanha falta de respeito para com pessoas que só buscavam tocar a vida e precisavam do transporte aéreo. Nunca antes na história deste País assistimos a tamanho despreparo do governo para lidar com uma crise.

O termo “apagão aéreo” entrou definitivamente em nosso vocabulário. Em pouco tempo, um país reconhecido pela qualidade de seu sistema de transporte e controle aéreo, caiu para níveis que só encontram semelhança entre nações mais atrasadas. Mais uma mácula na imagem do Brasil.

A crise do setor aéreo é o reflexo de um país em que se desconsidera qualquer planejamento, em que se investe pouco ou nada em setores estruturais e estratégicos como o aeroespacial e a Defesa, em que se quebra impunemente a hierarquia militar, um país em que o descaso é total para com o consumidor, usuário dos serviços autorizados ou controlados pelo Estado.

E por falar nisso, a crise do setor aéreo revela a falta de governabilidade por que temos passado, a ausência de controle, incompetência da autoridade pública para gerenciar crises, e pouca atenção para com questões tão essenciais como a do “apagão aéreo”.

E o pior é que já estamos nos acomodando com o problema. Afinal, tem sido diário o caos nos aeroportos, e as soluções não chegam. Tomar um avião hoje no Brasil já é uma empreitada que exige reflexão, paciência, coragem, resistência à frustração, e mesmo espírito de aventura.

Isso tudo 101 anos após Santos Dumont ter realizado seu grande feito! Hoje, as duas expressões com as quais temos que lidar em nosso setor aéreo de maneira mais corriqueira são: “vôo cancelado” e “decolagem não-autorizada”. Até quando vai ser assim?

Joanisval Brito Gonçalves é advogado e professor universitário

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